Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
; escocês,
As partidas entre os oponentes da mesma cidade constituem as datas mais inflamáveis do calendário. Essa rivalidade gera histórias de horror relacionadas ao futebol: empregos negados por causa da fidelidade ao adversário; torcedores assassinados por usarem o uniforme errado no bairro errado. Mas a competição entre o Celtic e o Rangers representa algo mais que uma inimizade entre vizinhos: trata-se de uma luta pendente em torno da Reforma Protestante.
Algumas conseqüências do clássico Celtic x Rangers podem ser medidas. Segundo um grupo de ativistas que monitora o sectarismo em Glasgow, durante esses finais de semana a procura pelos centros de emergência médica é nove vezes maior que o normal. Nos últimos sete anos, esse jogo produziu em Glasgow um total de oito mortes diretamente relacionadas a ele. Nas duas horas e meia que se seguiram a uma partida realizada em maio de 1999, a polícia registrou em seu livro de ocorrências os seguintes crimes cometidos por torcedores do Rangers em seus excessos:
Karl McGraorty, 20 anos, atingido no peito por uma flecha quando saía de um pub do
Celtic.
Liam Sweeney, 25 anos, espancado por quatro agressores num restaurante chinês.
Thomas McFadden, 16 anos, apunhalado no peito, estômago e virilha – assassinado
depois de assistir ao jogo num pub irlandês.
No estádio, a intensidade pode ser avaliada sem que se precise de números. Do outro lado da fila de policiais, um adolescente ruivo cheio de espinhas e usando roupa alaranjada agita furiosamente uma bandeira britânica do tamanho de um cartaz. O fel flui de sua boca. Quando ele grita “Até os joelhos de sangue feniano”, tenho certeza de que é exatamente isso que deseja. Bem do seu lado, um homem que deve ser seu pai canta junto com ele.
Tudo isso em Glasgow, a cidade em que cresceram Adam Smith, Francis Hutcheson e a tendência setentrional radical do Iluminismo. Há pouco mais de cem anos, Charles Rennie Macintosh dotou o centro de Glasgow de uma arquitetura profana singularmente moderna. Mesmo com os deslizes econômicos pós-industriais, Glasgow não se tornou reacionária. Sua constituição política fazia com que se alinhasse com os yuppies progressistas ingleses na coalizão trabalhista. Na rua Buchanan, com o burburinho do comércio, os inevitáveis Starbucks, os prósperos comerciantes imigrantes e a irresistível sala de concertos modernista à frente, é possível acreditar que se está numa interseção urbana onde, como imaginou o teórico político Frances Fukuyama, se chega ao fim da história.
Segundo a maioria das escolas de ciências sociais, lugares como Glasgow deveriam ter superado o antigo tribalismo. Era o que dizia a teoria da modernização, herdada de Marx, refinada nos anos 1960 por acadêmicos como Daniel Bell, cultuada pela política externa do governo norte-americano e reapresentada, sob nova roupagem, pelos entusiastas da globalização da década de 1990. Ela afirmava que, uma vez que uma sociedade tenha se tornado economicamente avançada, também deverá tornar-se avançada do ponto de vista político – liberal, tolerante, democrática. É claro que vestígios do racismo continuariam a existir nas classes trabalhadoras, e poderia ser difícil transcender a pobreza, mas é para isso que existem as redes de segurança social. Quando os teóricos da globalização dos anos 1990 postularam essa tese, acrescentaram que as empresas deveriam desempenhar um papel nesse triunfo da tolerância. Todos seriam assimilados a uma cultura do entretenimento de massa de caráter homogeneizante, em que comédias de TV e romances cinematográficos juntariam diferentes raças numa nova união de referências populares comuns. E para atingir o prêmio maior do alcance global, as empresas exalariam o multiculturalismo – “The United Colors of…”
Com efeito, Celtic e Rangers são organizações que pretendem converter-se em entidades capitalistas internacionais e conglomerados do entretenimento. Percebem que precisam tornar-se algo mais que adversários numa guerra religiosa que já dura séculos. Graeme Souness, administrador do Rangers no final dos anos 1980 e princípio dos 1990, explicou que seu clube enfrentava uma opção entre “sucesso e sectarismo”. À época, ele acreditava que sua organização havia escolhido o primeiro. Tal como a direção do Celtic, a do Rangers tinha feito o possível para ultrapassar o relativamente pequeno mercado escocês – enviando catálogos de roupas para as diásporas escocesa e irlandesa nos Estados Unidos e fazendo campanha para passar da Liga Principal Escocesa para a Liga Inglesa, maior e mais rica.