Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
Como o Futebol Explica
o paraíso dos gângsteres
I.
O Estrela Vermelha de Belgrado é o time de futebol mais amado e de maior sucesso da Sérvia. Como quase todo clube da Europa e da América Latina, tem o apoio de uma torcida indisciplinada, capaz de atos de terrível violência. Mas no Estrela Vermelha os torcedores violentos ocupam um lugar de honra, e mais que isso: reúnem-se com dirigentes do clube para atualizarem o plano de ação de suas gangues. Seus líderes recebem remuneração. E, como parte desse pacote, têm acesso a um escritório na sede do clube, localizada no bairro de classe média alta de Topcider.
As gangues têm influência, em grande parte, porque a conquistaram mediante a intimidação. Poucos meses antes de eu chegar a Belgrado e ficar sabendo da cumplicidade do clube nas guerras dos Bálcãs dos anos 1990, a torcida do Estrela Vermelha tinha invadido o campo durante um treinamento. Com bastões, barras de ferro e outros porretes, espancaram três de seus próprios jogadores. Depois do estrago, não se mostraram particularmente acanhados em anunciar seus feitos. Nesse caso, os hooligans disseram claramente aos repórteres que “não podiam mais tolerar a falta de compromisso em campo”. Bastou um telefonema para se organizar uma entrevista com um punhado deles em sua sala de reuniões localizada no primeiro andar da sede do Estrela Vermelha.
A área de Belgrado onde fica a sede do clube tem um aspecto caricaturalmente assustador. Um enorme bando de corvos reside no telhado do estádio. Quando um time marca um gol e a multidão explode, os pássaros fogem – por toda a cidade, é possível calcular o resultado dos jogos com base na presença ou ausência de uma nuvem ornitológica sobre o horizonte. Do outro lado da rua, em frente ao estádio, a família de Arkan, o mais famoso gângster e tirano militar da história sérvia, vive num castelo que ele próprio construiu, uma monstruosidade em estilo novo-rico com fileiras de torres e torreões. Como me demorei demais perto da casa, um homenzarrão com casaco de couro apareceu e me perguntou o que estava fazendo. Por causa das atrocidades cometidas pelos homens de Arkan, apresentei-me como um turista perdido, nervosamente lhe pedi orientação e me afastei em seguida. Na tarde de minha visita, a cor do céu era cinza-chumbo.
Meu tradutor havia me arranjado um encontro com Draza, líder de uma torcida do Estrela Vermelha que se auto-intitula os Ultra Bad Boys. Ele o persuadiu com a promessa exagerada de que uma entrevista traria glória ao clube e reconhecimento internacional às realizações de seus torcedores. Seis colegas tagarelas de Draza o acompanharam. À primeira vista, os Bad Boys não pareceram absolutamente merecedores da primeira parte de seu nome, mas muito da segunda. Tirando as grandes tatuagens vermelhas com o nome da gangue em suas panturrilhas, pareciam jovens relativamente honestos. Draza usava um casaco de lã macia e calças de brim cáqui. Sua cabeleira comprida, mas obviamente tratada em salão, lhe empresta a aura de um estudante de filosofia. Logo fica claro que ele é aluno de faculdade e está enrolado preparando-se para os exames. Seus amigos não são mais ameaçadores. Um deles tem o cabelo cortado em cuia, rosto rechonchudo e uma parca de esquiador de tamanho exagerado que não tira nunca – parece o tipo de sujeito que foi alvo de trotes no colégio.
Talvez para aumentar sua credibilidade, os Bad Boys trouxeram consigo um homem de cabelo grisalho chamado Krle, que usa uma jaqueta preta surrada do San Antonio Spurs. A vigorosa constituição de Krle dá a impressão de que ele passa o tempo livre exercitando-se numa barra colocada no vão de uma porta de seu apartamento. Muitos anos vivendo como hooligan fizeram-no envelhecer precocemente. (Quando indago sua idade e ocupação, ele muda de assunto.) Diferentemente do entusiasmo ingênuo exibido pelos adolescentes, Krle mostra indiferença. Diz ao tradutor que só compareceu à entrevista por insistência de Draza. Seu único gesto de simpatia é ficar me oferecendo cerveja sérvia quente em uma garrafa de plástico. Depois de provar a cerveja, não me pareceu algo tão cordial assim. Mas por causa da irritação em seus olhos cinzentos, eu me vi bebendo um copo atrás do outro.
Krle funciona como assessor sênior do grupo, um mentor dos aspirantes a hooligan. Deixando de lado o olhar feroz e o comportamento hostil, eu realmente estava satisfeito com sua presença. Meu interesse pelo Estrela Vermelha concentra-se nos anos 1990, seu auge como bandido, quando as torcidas desempenhavam um papel central no renascimento do nacionalismo sérvio – a idéia de que os sérvios são as eternas vítimas da história que têm de lutar para preservar um fiapo de dignidade. Sem precisar de muito estímulo, Draza fala claramente dessas ligações. Infelizmente, seu monólogo não dura muito. Exercendo sua autoridade com olhares voláteis e interrupções bruscas, Krle assume o controle da conversa. Suas respostas são curtas.
— Quem você mais odeia?
Pausa para alguns segundos de meditação.
— Um croata, um tira; não faz diferença. Eu mataria todos eles.
— Qual é o seu método de espancamento preferido?
— Barras de metal, um tipo especial de chute que quebra uma perna quando o cara não está atento.
De repente, ele dá um chute no ar, num movimento obviamente bem treinado.
Com o efeito estimulante da bebida, tento chegar mais perto do motivo de minha visita.
— Percebi que vocês chamam Arkan de “comandante”. Podem falar um pouco mais sobre como ele organizou os torcedores?
Seu olhar é de uma pessoa profundamente ofendida, e depois de fúria incontrolável.
— Eu não devia estar respondendo suas perguntas. Você é norte-americano. E seu país nos bombardeou. Você mataram bons homens sérvios.
Boa razão para mudar de assunto. Num aparte a meu tradutor, que só me revelaria seu conteúdo depois da entrevista, Krle anuncia:
— Se eu encontrasse esse norte-americano babaca na rua, ia bater nele pra valer.
Krle então se retira da conversa. Primeiro fica em pé, impaciente, no lado oposto da sala. Depois se joga sobre uma cadeira e a inclina sobre os pés traseiros. Quando isso deixa de ocupar sua atenção, ele se levanta de novo e começa a caminhar.
Nesse ínterim, seus protegidos prosseguem na descrição entusiástica de seus atos de violência. Revelam-me sua tática de guerrilha favorita: vestir-se com o uniforme dos adversários. Isso lhes possibilita fazer amizade com torcedores visitantes, atraí-los para seus carros, levá-los para lugares remotos e espancá-los. Gabam-se do domínio que exercem sobre os torcedores do Partizan, seus rivais em Belgrado. Draza mostra especial satisfação ao descrever um jogo contra o Partizan na temporada anterior. Trinta minutos antes do pontapé inicial, os Ultra Bad Boys tinham agrupado silenciosamente seus membros mais fortes num canto do estádio, perto de algumas árvores. Cada um levava uma barra de metal ou um porrete de madeira. Assumiram uma formação em V e começaram a abrir caminho violentamente pelo estádio, batendo em todos que estivessem pela frente. Primeiro atacaram a torcida visitante. Depois, lançaram-se violentamente sobre um grupo de policiais. O ataque foi tão rápido que nem a polícia nem os torcedores do Partizan tiveram tempo de reagir. No seu caminho, deixaram fileiras de vítimas, como os rastros recentes de um cortador de grama.
— Atravessamos o estádio em cinco minutos diz – Draza. — Foi incrível.
Afora os paroxismos de Krle, os Ultra Bad Boys nunca diziam palavrões. Consideravam-se ocupantes de um domínio moral mais elevado que o de seus adversários: não usar armas de fogo, não bater no inimigo depois de ele ter perdido a consciência. Draza explica:
— A torcida do Partizan uma vez matou um fã do Estrela Vermelha. Ele estava sentado no estádio e eles atiraram um rojão no seu peito. Os monstros mataram o garoto. Eles não respeitam limites.
Os Ultra Bad Boys contam tudo que eu quero saber.
Quando guardo a caneta e o caderno, Krle retorna ao grupo. Fica na minha frente e faz a saudação de três dedos dos nacionalistas sérvios, o sinal da paz com o acréscimo do polegar. O sinal significa tanto a santíssima trindade quanto a crença dos sérvios de que são seus mais autênticos representantes no planeta.
— Agora você diz – ele em inglês.
Obedeço. Antes de eu sair da sala, Krle me faz repetir o gesto quatro vezes. Quando, mais tarde, descrevi esse momento a um militante de direitos humanos que está há muitos anos em Belgrado, ele me disse que, durante a guerra, os paramilitares forçavam muçulmanos e croatas a fazerem essa saudação antes de os estuprarem ou matarem.
Krle atuara como capanga do Estrela Vermelha no ano mais glorioso do clube. Em 1991, o time ganhou a Copa dos Campeões Europeus – a mais prestigiosa competição anual interclubes. A equipe era uma metáfora do esfacelamento da Iugoslávia. Apesar de sua história de veículo do nacionalismo sérvio, o Estrela Vermelha tinha jogadores de todo o país, até mesmo um vociferante separatista croata. Cada Estado da antiga Iugoslávia desenvolvera estereótipos étnicos amplamente aceitos, que os comentaristas esportivos transpunham para os jogadores. Os eslovenos eram soberbos defensores, correndo incansavelmente atrás dos atacantes adversários. Os croatas tinham um pendor germânico para aproveitar oportunidades de gol. Bósnios e sérvios mostravam criatividade em dribles e passes, mas ocasionalmente lhes faltava sagacidade tática. No Estrela Vermelha, um amálgama de diferentes iugoslavos reunia suas especialidades e vencia as superpotências da Europa Ocidental.
Essa performance deveria ter proporcionado alguma esperança de salvação para a Iugoslávia multiétnica. Mas, à sombra dessa temporada do campeonato, na sede e no estádio do Estrela Vermelha tramava-se a destruição dessa Iugoslávia. A partir das próprias fileiras do clube, uma organização paramilitar de hooligans foi formada e armada. Krle, que levou um tiro na perna, serviria nesse exército. Os torcedores do Estrela Vermelha se tornariam as tropas de choque de Milosevic, os mais ativos agentes da limpeza étnica, genocidas altamente eficientes.
É difícil imaginar os Ultra Bad Boys como figuras típicas. Parecem produto de um país atormentado pela guerra e de sua ideologia doente. Mas na verdade não são uma peculiaridade nacional. A partir da década de 1980, o hooligan veio a ser amplamente considerado um dos grandes inimigos do Ocidente. “Uma desgraça para a sociedade civilizada”, disse uma vez Margaret Thatcher. Com base na taxa de mortalidade – mais de uma centena naquela década –, os ingleses eram os principais produtores mundiais de torcedores enlouquecidos, mas estavam longe de serem os únicos. Por toda a Europa, América Latina e África a violência tornara-se parte da cultura futebolística. E mesmo em lugares onde a violência de há muito acompanhava o futebol, ela se tornou mais generalizada e destrutiva nos anos 1980 e 1990. Os torcedores sérvios eram apenas um pouco mais organizados e mais bem armados que seus equivalentes do resto do mundo.
Susan Faludi e uma legião de sociólogos apresentam uma explicação para esse surto. Têm escrito sobre homens vitimados por cortes e reduções de emprego, que perderam seus lugares na indústria para trabalhadores do Terceiro Mundo. Desprovidos do emprego tradicional e derrubados de seus pedestais patriarcais, esses homens desejavam desesperadamente reafirmar sua masculinidade. A violência no futebol ofereceu-lhes uma rara oportunidade de realmente exercerem o controle. Quando esses torcedores aderiram ao racismo e ao nacionalismo radical, foi porque essas ideologias funcionavam como metáforas de suas próprias vidas. Suas nações e suas raças tinham sido sacrificadas pelo mundo de modo tão profundo quanto eles próprios.
Privação econômica e exôdo são explicações óbvias. Mas há muita coisa que esses fatores não podem explicar. Ultra Bad Boys como Draza também podem ser jovens universitários com perspectivas decentes. Os Chelsea Headhunters, a mais notória gangue de hooligans da Inglaterra, inclui corretores de valores e profissionais de classe média com carreiras sólidas. Além disso, a história humana é repleta de pobres, mas é raro que eles se reúnam em grupos para mutilar pelo prazer de mutilar.
Algo diferente aconteceu nesta era. Um ethos de gangsterismo – difundido pelos filmes, pela música e pela moda – conquistou o mundo. Os torcedores do Estrela Vermelha tinham como modelos os estrangeiros que eles admiravam, especialmente os hooligans da Europa Ocidental. O nome Ultra Bad Boys foi tirado de clubes de torcedores italianos. Outra torcida se atribuiu o nome Red Devils, apelido do Manchester United da Inglaterra. No final dos anos 1980 e início dos 1990, os hooligans do Estrela Vermelha iam ao Centro Cultural Britânico, na área central de Belgrado, para pesquisar os jornais em busca das últimas badernas provocadas por seus pares ingleses. Os hooligans sérvios também reverenciavam a moda: usavam trajes esportivos da Adidas, correntes de ouro e tênis de couro branco, tal como os torcedores ensandecidos do outro lado do continente, pelo que liam nos jornais. Evidentemente, a genealogia dessa estética tinha outras raízes além da Inglaterra. Ela devia muito ao gangster rap afro-americano, gênero favorito dos jovens sérvios, e incorporava os costumes da emergente máfia russa. O gangsterismo e sua violência niilista tornaram-se amplamente globalizados. E foi nos Bálcãs que essa subcultura se tornou cultura e revelou sua conclusão lógica.
II.
Na história da guerra dos hooligans, nenhuma batalha foi tão espetacular. Um ano antes de o Estrela Vermelha ganhar a Copa Européia, a equipe viajou para a Croácia para jogar com seu rival, o Dínamo de Zagreb. Sinais de que o Estado multiétnico da Iugoslávia talvez não sobrevivesse por muito tempo podiam ser vistos por toda Zagreb. Dois meses antes, os croatas tinham eleito Franjo Tudjman, um ultranacionalista, ex-general e ex-presidente do Partizan de Belgrado, um time de futebol. A adoção, por Tudjman, dos ícones Ustache – símbolos dos fascistas croatas que colaboraram com os nazistas no assassinato de milhares de sérvios – acordou as paixões nacionais de seu povo, há longo tempo adormecidas.
Durante os 35 anos em que o marechal Tito, um comunista carismático, governou a Iugoslávia, ele suprimiu os ressentimentos relativos à Segunda Guerra Mundial simplesmente declarando ilegal manifestá-los. A Iugoslávia nunca se conformara com o fato de seus maiores segmentos terem se massacrado mutuamente. Agora, com a dissolução do comunismo, antigas feridas se reabriam. Sérvios e croatas começaram a expor abertamente os crimes de guerra uns dos outros – e a exigir justiça em relação a eles. Um forte surto de literatura revisionista descrevia a “história oculta” da Segunda Guerra Mundial. Os livros transformaram-se em documentários de TV, e estes foram reduzidos a poderosos slogans políticos que empurraram as agendas nacionais em direções nacionalistas. Em um de seus primeiros atos, Tudjman “rebaixou” os sérvios na constituição croata. A nova – ou melhor, antiga – inimizade era agora visível nos estádios de futebol. Nos jogos entre equipes sérvias e croatas, os torcedores cantavam os respectivos massacres.
Na partida entre o Estrela Vermelha e o Dínamo, contudo, foi a primeira vez em 15 anos que a Iugoslávia viu seus grupos étnicos se enfrentando abertamente. De início, a confusão parecia administrável segundo os padrões do futebol europeu. Torcedores do Estrela Vermelha rasgavam cartazes e gritavam: “Vamos matar Tudjman.” Quando os torcedores do Dínamo começaram a lhes jogar pedras, os do Estrela Vermelha usaram os cartazes como escudos. As cercas que separavam as duas torcidas desapareceram misteriosamente. A briga tomou conta do estádio, com os combatentes identificados pelas cores das camisas, e então avançou para o gramado. A polícia mostrou-se inepta para enfrentar a situação. Quando um policial bateu num torcedor de Zagreb, um jogador do Dínamo chamado Zvonimir Boban interveio, atingindo o policial no pescoço com uma tesoura voadora. Helicópteros desceram no estádio para tirar os jogadores sérvios da confusão.
Para qualquer observador, estava claro que tanto sérvios como croatas tinham ido ao jogo preparados para a luta. Pedras haviam sido cuidadosamente empilhadas no estádio antes da partida, prontas para serem atiradas. Torcedores croatas tinham estrategicamente armazenado ácido, de modo a poderem derreter as cercas que os separavam de seus rivais sérvios. De pé ao lado do treinador do Estrela Vermelha, protegendo-o da violência, estava uma figura ainda mais sinistra, um pistoleiro da polícia secreta chamado Zeljko Raznatovic. Sua carreira como gângster lhe granjeara uma reputação de proporções quase míticas, tanto que todos se referiam a ele por um de seus cerca de 40 apelidos. Considerando-se todos os muçulmanos que ele iria massacrar mais tarde, é irônico que ele atendesse pelo nome turco de Arkan.
Arkan cresceu na placidez da Iugoslávia de Tito, uma versão balcânica dos seriados água-com-açúcar da TV norte-americana dos anos 1960, em que se supunha que sérvios e croatas fossem vizinhos felizes. Mas Arkan havia rejeitado o conformismo comunista. Seu pai servira como oficial na força aérea de Tito e usava o manual militar como um guia à la dr. Spock para criar seu filho. Previsivelmente, a dura disciplina produziu uma reação contrária. Por volta dos 16 anos, Arkan tinha abandonado a academia naval e embarcado clandestinamente para a Itália, e depois ganhara a vida cometendo pequenos crimes em Paris. Sem permanecer muito tempo nessa carreira, foi preso e condenado a três anos de detenção num estabelecimento para delinqüentes juvenis. Diferentemente de outros criminosos com os quais se associava, Arkan não se tornara um ladrão para sustentar uma vida luxuosa de gângster. Um de seus amigos contou que uma vez, em Milão, festejaram um assalto com uísque e mulheres, mas Arkan recusou-se a participar da festa. Ficou sentado sozinho num quarto com a janela aberta, deixando sair a fumaça dos cigarros e fazendo ginástica.