Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização
Capítulo 4
As elites nunca foram muito estimadas na política norte-americana do pós-guerra – ou pelo menos têm sido fácil de atacar. Mas a geração das elites que adotou o futebol constituiu um alvo especialmente oportuno. Isso porque seus membros cursaram faculdade nos anos 1960 e 1970, período em que a contracultura se voltou timidamente contra o conformismo paralisante do que viam como a América tradicional. Mesmo quando esse grupo se afastou da postura política radical de sua juventude, ele manteve alguns dos antigos ideais, incluindo o cosmopolitismo convicto e o desprezo em relação à região central dos Estados Unidos, o “flyover country”. Quando os membros desse grupo adotaram o futebol, a impressão foi de que tinham dado as costas ao passado norte-americano. Isso, naturalmente, aumentou o desdém de que eram alvo – e também pelo futebol.
Os intelectuais têm tentado de várias formas resumir as divisões culturais dos Estados Unidos. Na década de 1980, falavam de uma “guerra cultural” – a luta a respeito de livros didáticos, aborto, orações nas escolas, ação afirmativa e financiamento das artes. Essa guerra colocou os conservadores, que defendiam a tradição e a moral, contra os liberais, que apoiavam a modernidade e o pluralismo. Mais recentemente, esse debate tem sido descrito como o racha entre “a América vermelha e a azul” – as duas cores usadas para distinguir as preferências partidárias nos mapas que representam o voto nas eleições presidenciais. Mas outro instrumento explicativo ainda está por penetrar nos departamentos de ciência política e na pauta nacional dos jornais. Há uma importante clivagem entre as partes do país que adotaram o futebol como passatempo e as que não o fizeram. E essa distinção revela uma fonte subestimada da clivagem cultural norte-americana: a globalização.
II.
Outros países receberam o futebol com relativa indiferença. O subcontinente indiano e a Austrália logo vêm à mente. Mas os Estados Unidos talvez sejam o único país em que uma ampla parcela da população despreza efetivamente esse esporte, chegando a se mobilizar contra ele. Esse lobby antifutebol acredita, nas palavras de Tom Weir, do USA Today, “que detestar esse esporte é mais norte-americano do que a torta de maçã, dirigir uma picape ou passar as tardes de domingo zapeando na TV”. Weir exagera a profundidade desse sentimento, mas o grupo dos inimigos do futebol tem um poder considerável. Sua influência se baseia fundamentalmente numa legião de comentaristas e jornalistas esportivos de prestígio que usam suas colunas para atacar o esporte, em especial por ocasião da Copa do Mundo.
Não apenas intelectuais enterrados no Caderno C do jornal, mas pessoas com poder real acreditam que o futebol representa uma genuína ameaça ao modo de vida norte-americano. Antigo zagueiro do Buffallo Bills, Jack Kemp, um dos conservadores mais influentes dos anos 1980, homem que era mencionado quase no mesmo tom em que se falava da presidência, apoiava essa posição. Em 1986, ele foi ao Congresso dos Estados Unidos para discursar contra uma resolução em apoio ao pleito norte-americano de sediar a Copa do Mundo: “Penso que é importante para todos aqueles jovens lá fora, que esperam algum dia jogar o verdadeiro futebol, no qual você arremessa e chuta e corre com a bola nas mãos, que se faça uma distinção entre o futebol norte-americano, democrático e capitalista, e o outro, europeu e socialista.”
Os amantes do futebol em geral não conseguem resistir à tentação de rejeitar esses críticos como xenófobos e reacionários intoxicados por um senso de superioridade cultural, o lado esportivo do conservadorismo ao estilo do movimento America First, de Pat Buchanan. Por algum tempo, eu mesmo acreditei nisso. Com o passar dos anos, porém, conheci muitos conservadores que discordam violentamente dessa mistura da política com o esporte. E já vi muitos liberais atacando o futebol, gente que escreve para publicações como o Village Voice e que não seria plausível agrupar no campo troglodita da política norte-americana. De modo que, se o ódio ao futebol nada tem a ver com a política, definida de maneira convencional, por que tantos norte-americanos se sentem ameaçados pelo belo jogo?