É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 14
Minha meticulosa Cardeal —
deixa eu te contar um segredo: eu odeio Atlântida. Todas as Atlântidas espalhadas pelos filamentos. É um fio podre. Tudo o que provavelmente te ensinaram sobre Jardim e o meu Turno deve te fazer pensar que nós a amamos, por ser um bastião de bons trabalhos, o ideal platônico de como uma civilização deve ser: quantos adolescentes de olhos brilhantes já derramaram o fervor de suas almas em vidas imaginadas ali? Magia! Sabedoria infinita! Unicórnios! Os próprios deuses, em carne e osso! O trabalho que fazemos para manter essas noções é mais sutil do que você imagina, dados os conhecidos pecadilhos de uma dúzia de séculos xx. Que sacerdócio vigoroso Atlântida deve ter tido para manter tantos jovens sérios gastando suas vidas passadas nesses templos!
Mas que lugar triste. Estagnado, doente como uma ferida inflamada. Um experimento de sucesso com resultados repugnantes. O vulcão foi a melhor coisa que já lhe aconteceu: agora é lenda, possibilidade, mistério, de longe uma engrenagem mais generativa do que qualquer coisa que desenvolveu nos últimos mil anos.
É isso que apreciamos. Somos nós, sempre: o vulcão e a onda.
Obrigada por suas palavras sobre comer. Depois de semanas só com biscoitos, no navio, elas foram muito bem-vindas. Eu deveria lhe falar, como a sra. Leavitt diria, que é de bom-tom mandar cartas que podem ser abertas sem que o lacre seja quebrado, mas não tenho palavras para dizer o quanto apreciei sua inovação.
O que tenho para dizer: estava muito frio lá no gelo. Sua carta me aqueceu.
Sua fala sobre assinaturas ideográficas e segurança operacional me lembrou de alguns trabalhos de base que fiz para os botânicos de Bess de Hardwick em vários filamentos. Enquanto trabalhava, tive o prazer de observar a correspondência entre eles e sua senhora; quão complexa e ambígua a fala simples pode ser, quantos segredos embrulhados na bandeira da sinceridade (uma palavra comumente inventada nos séculos XVI). Mesmo a assinatura ideográfica podia facilmente ser mentira, é claro: selos falsificados, cartas seladas escondidas em capas separadas, cera ou fio de seda na cor errada. Quantas maravilhosas ambiguidades aconteceram enquanto Mary, rainha da Escócia, estava sob o teto dela! Eu te asseguro que a criptografia perde a graça, em comparação; imagine um criptograma feito de humores entrelaçados que mudam conforme estímulos do ambiente.
Além disso, grafia padronizada ainda não era uma característica do inglês. Forjar a caligrafia de alguém era um desperdício de esforço, se você também não aprendesse suas idiossincrasias ortográficas. Curiosamente, isso se provaria a ruína dos falsificadores do fim do século. Chatterton, aquele Menino Maravilhoso, et cetera.
Levamos a arte de escrever cartas tão literalmente, não é? Lacres de focas à parte. Cartas como viagem no tempo, cartas que viajam no tempo. Significados ocultos.
Eu me pergunto o que você me entende dizendo aqui.
A sua menção de comida — tão doce, tão saborosa — não teve qualquer menção de fome. Você falou da falta de necessidade, sim — nenhum leão perseguindo, nenhum “desespero animal da procriação”, e isso leva ao prazer, certamente. Mas a fome é uma coisa esplendorosa; ela não precisa ser concebida apenas em termos límbicos, na biologia. A fome, Red — saciar uma fome ou alimentá-la, sentir a fome como uma fornalha, traçar suas pontas como dentes —, isso é uma coisa que você, individualmente, sente? Você já sentiu uma fome que se aguçava com qualquer tentativa de saciá-la, tão afiada e intensa que poderia rachá-la ao meio, fazer surgir algo novo?
Às vezes eu penso que é isso que tenho, em vez de amigos.
Espero que não seja muito difícil de ler isso aqui. Foi o melhor que pude fazer tão em cima da hora — espero que chegue até você antes que a ilha se acabe ao seu redor.
Escreva para mim em Londres depois.
Blue
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