É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 24 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 24

Queridíssima Lápis-lazúli,

 

sim! Eu tenho me movido bastante. Estão nos mandando — bem, mandando a mim, na verdade — para todo canto, fio acima e abaixo, novas missões se acumulando a cada minuto. Os truques e armadilhas do seu lado estão cobrando um preço, então nossas missões se multiplicam para compensar. Mas chega da guerra. Basta dizer: estou escrevendo com pressa.

Estava prestes a pedir desculpas pela minha brevidade, mas quando fui escrever isso imaginei você balançando a cabeça. Você estava certa, na época… eu construí uma você em mim, ou você construiu. Fico pensando o que há de mim em você.

Obrigada pela sua carta, mais do que consigo expressar. Ela me encontrou em um momento de fome.

Palavras podem ferir — mas elas também são pontes. (Como as pontes que são todo o legado dos Genghis.) Embora talvez uma ponte possa também ser uma ferida? Para parafrasear um profeta: cartas são estruturas, não eventos. As suas me dão um lugar onde viver.

Minhas memórias de você se espalham pelos milênios, e todas te destacam em movimento. Essa imagem de você em casa, com seu marido, com chá de rosa-mosqueta, o pôr do sol e o rio, inunda o meu coração. Uma mancha de pele no mar indica a baleia por baixo — ou pontos de estrela dão forma a um urso com anos-luz de tamanho —, então eu traço sua vida agora, a partir dessas dicas. Imagino você acordando, dormindo, observando os gansos, trabalhando duro ao ar livre, com braços e costas e pernas e tecnologia de época. Vou arrumar sumagre na próxima vez que estiver em algum local onde ele cresce. Confesso que só conheço a variedade venenosa, e acho que você não estava falando dessa.

Talvez um dia nos deem missões lado a lado, em algum pequeno vilarejo longínquo fio acima, disfarçadas, uma observando a outra, e poderemos fazer chá juntas, trocar livros, e mandar para casa relatórios higienizados do que a outra está fazendo. Acho que ainda assim eu escreveria cartas.

Li Mitchison. Amei. (Embora esse seja um comentário muito resumido — agora entendo o que você diz sobre palavras.) Me balançou. Especialmente os dragões e Odin e o final. Tive mais dificuldade com a parte de Constantinopla — posso não ter entendido todo o contexto, embora eu veja o lugar que ela ocupa no livro, e o artifício me lembre de trechos de Dom Quixote. Mas a revelação final — sobre os reis e os dragões —, sim.

Engraçado como nós sempre pensamos em cavaleiros lutando com dragões, quando na verdade eles trabalham para os dragões.

Jardim parece gostar de raízes, e esse livro se enraíza no desenraizamento. Você é uma salsola, então? Uma semente de dente-de-leão?

Você é você mesma, e ficará sendo, como eu.

Da sua,

Red

PS. Corujas são criaturas fascinantes, mas é mais difícil do que eu imaginava convencê-las a receber comida. Ou talvez essa não confiasse em mim.

PPS. Eu não quero te assustar, mas… você anda vendo sombras? Acho que notei uma. Sem provas ainda, e posso estar paranoica, mas isso não significa que eu esteja errada. A Comandante não demonstrou suspeitar de nada, pelo menos ainda não. Tome cuidado.

PPPS. Sério. Aquele livro. Em um momento de audácia, recomendei-o à atenção de alguns críticos importantes no Filamento 623; é difícil impulsionar as coisas, mas nunca se sabe — novos filamentos surgem o tempo todo. Me manda mais.

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