É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 42 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 43

Red mata tempo.

Ela avança pelos véus do passado, uma mulher vestida de fogo, mãos molhadas do sangue inimigo. As lâminas nas unhas dela rasgam a carne das suas costas; ela te persegue como uma sombra por corredores longos e vazios, passos medidos metronomicamente, inescapáveis. Ela visita as graças de um anjo sombrio nos destroços de metal retorcido de Mombaça e Cleveland.

A Comandante a repreendeu por ter se exposto na loja do boticário, mas Red afirmou que precisava ver, se certificar de que a ameaça estava acabada. A Comandante acreditou nela? Talvez não. Talvez sobreviver seja uma forma de tortura.

Ela perdeu toda a sutileza que Blue sempre a provocou por não ter, sua velha paciência competitiva para um bom trabalho de oficial. Ela abandona suas ferramentas, recua para as bases físicas mais grosseiras. Ganhar essa batalha, perder aquela, estrangular aquele velho mau em uma banheira na cobertura de seu arranha-céu, parece vazio porque é: na guerra que disputam através do tempo, que vantagem duradoura vem de assassinar fantasmas, que, com uma leve mudança de fios, vão retornar à vida ou viver vidas diferentes que nunca os levarão à lâmina do executor? Tarefa repetitiva, assassinato. Matá-los sempre e sempre, como ervas daninhas, todos os monstrinhos.

Nenhuma morte é permanente, a não ser aquela que importa.

Ela é inútil para o esforço de guerra desse jeito. Tão válido quanto remover neve do caminho com uma pá. Mas ela é uma heroína, e heroínas podem remover neve, se quiserem.

Jardim envia armas contra ela, fedendo a verde, uivando ao deslizar por estranhos ângulos de tranças alienígenas até qualquer terra fantasma em que ela esteja, companheiros adequados para matar ou morrer.

Ela visita a Europa, porque Blue gostava dali.

Ela pensa nesse nome em sua cabeça agora. Qual é o risco?

Ela vê Londres se erguer e se incendiar, fio acima e abaixo; ela se senta no topo da Saint Paul e bebe chá e assiste a doidos lançarem bombas enquanto outros doidos pulam de telhado em telhado para apagar o fogo. Ela atira lanças em revoltas contra os romanos. Começa um grande incêndio no ano da praga. Em outro fio, ela apaga esse incêndio. Deixa uma turba destroçá-la. Anda pelas ruas infestadas de cólera enquanto Blake rabisca apocalipses no andar de cima. O metrô ainda funciona, em alguns fios, muito depois de a cidade ruir com robôs ou motins ou apenas abandono, toda essa bela história uma concha descartada por seres que, como deuses, migram em direção aos céus, e ela pega o trem, enferrujado, vazio, em círculos, cheirando a uma podridão que não sabe de onde vem. Covarde, os trilhos a chamam… de pouco adianta lutar agora. Covarde continuar, e covarde procurar um fim.

Mesmo alguém imortal não consegue rodar as linhas de metrô para sempre. Ela vaga por túneis úmidos, acompanhada por uma marcha de ratazanas conscientes — elas fedem e sibilam, seus rabos deslizam sobre os tijolos e Red deseja que a atacassem. Elas não são tão tolas, ou são muito cruéis. Ela cai de joelhos, e as ratazanas passam como uma maré ao lado, bigodes afiados contra suas bochechas; rabos se enrolam em suas orelhas, e quando a maré passa ela está chorando novamente, e embora nunca tenha tido mãe, acha que sabe como seria o toque de uma.

Ela se lembra do sol. Ela se lembra do céu.

Red não pode ficar lá embaixo para sempre. Não sabe por que escolhe aquela estação, mas ela deixa os trilhos e sobe.

Ela vai ver a cidade uma última vez, e então.

Mesmo serena, segura, ela não consegue enquadrar esse então.

Ela para, a mão no corrimão, dominada por… não é bem o “espírito da escada” do ditado francês, mas o tipo de espírito que sussurra no seu ouvido quando você se aproxima de um cômodo familiar, dizendo que se você bater à porta, que se a porta estiver aberta, seu mundo vai mudar.

Depois de um longo tempo, ela percebe que está escarando um mural. Uma cópia de uma pintura antiga, feita para anunciar um museu que há muito virou cinzas. O mural sobreviveu ali, em um metrô que parece um bunker.

Um garoto morre em uma cama, perto de uma janela.

Uma mão agarra seu peito imóvel, a outra se arrasta no chão. Ele é lindo, e veste calças azuis.

Red cambaleia até a parede.

A janela meio aberta. O casaco jogado ao lado da cama. A caixa aberta. Quadris meio arqueados. Cada detalhe da pose está certo, salvo a ausência da carta e o fato de que o garoto sobre a cama no mural não se parece nada com Blue. Para começar, seu cabelo é vermelho.

O terror toma conta de Red sob a terra. Ela pensa: Isso deve ser uma armadilha. Ela se sente observada por uma mente muito mais sutil e vasta. Mas, se for uma armadilha, por que ela ainda está viva? Que jogo é esse, safira? Que vitória lenta, ó coração de gelo?

O garoto morto permanece.

A ruína dos falsificadores do fim do século. Chatterton, aquele Menino Maravilhoso.

E ela se dá conta: Blue não a mataria. Red sabe disso. Sempre soube.

Então por quê? Uma provocação? Eu vou me escrever no mundo, de modo que você me veja por todas as tranças e sofra?

E ainda assim. Red não reconheceu a referência àquela pintura — e nem a Comandante reconheceria. Pois para a Comandante, arte é uma curiosidade, um desvio na jornada da matemática pura.

Red pensa em esteganografia, em cartas ocultas, nos anéis das árvores.

Vou tentar me recompor — me organizar em algo que você possa ler.

Ela se lembra daquela última carta. Um jogo longo, ela escreveu, uma mão sutil bem planejada. Lembra entre o recuo e o estalo. Lembra romã, e para que servem as romãs.

Elas agarram na garganta. Elas se espalham em centenas de sementes. Elas trazem as filhas da terra de volta à terra dos mortos — mas a morte não as reclama.

O que é isso, senão a fantasia enganosa de uma mente pequena? O que é isso, senão juntar palhas contra a morte e o tempo?

O que é o amor, sempre, senão…

Eu queria poder voltar fio acima, Blue escreveu.

Red pensa: Há uma chance.

Uma chance? Chame de armadilha, uma tentação, suicídio com uma face gentil. Qualquer uma dessas coisas estaria mais perto da verdade.

Tudo isso supondo que foi Blue quem enviou essa mensagem… que Red não a manufaturou, buscando desesperadamente por significados em imagens puídas que a próxima volta da trança vai apagar. Arte vem e vai, na guerra. A pintura na parede do metrô pode ter sido um acidente. Ela pode estar inventando tudo isso.

Mas.

Há uma chance.

O veneno de Red foi construído para matar uma agente de Jardim — como Blue. Não teria efeito em alguém da facção de Red. Alguém com seus códigos e anticorpos, com sua resistência.

Jardim abriga seus agentes enquanto eles crescem em creches integradas rodeadas de armadilhas. Blue quase morreu na creche, quando criança — amputada, deformada. O resultado é que há um buraco em sua mente. E todo buraco é uma abertura.

Red não tem a menor esperança de se aproximar da creche sendo como é. Jardim admite somente os seus.

Blue, sendo como era, não pôde sobreviver. Red, sendo como é, não pode se aproximar dela.

Mas elas salpicaram pedacinhos de si mesmas pelo tempo. Tinta e ingenuidade, flocos de pele sobre o papel, um pouco de pólen, sangue, óleo, dentro, no coração de um ganso.

Pedras assentadas para avalanches vindouras. Se quer mudar uma planta, comece pela raiz.

O plano que está formando oferece incontáveis jeitos de morrer, e de sofrer no caminho. Se a Comandante encontrá-la, a dor será longa e lenta, e morrerá balbuciando alucinações. Se Jardim a encontrar, ela será encapsulada, fatiada e descascada, sua mente destruída, seus dedos arrancados e trançados. O outro lado não tem mais compaixão do que o de Red. Terá que seguir o rastro que ela e Blue apagaram enquanto elas o criam, esquivando-se de seus inimigos e antigos companheiros, e então, enfim, entrar no abraço inimigo. No ápice de sua forma, não haveria certeza de sucesso.

A decisão se forma como uma joia em seu estômago.

A esperança pode ser um sonho. Mas ela vai lutar para torná-lo real.

Ela se estica para tocar a mão do homem morto na parede.

Depois sobe e começa a rastrear.

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