É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 43 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 44

Red não é nenhuma tola: começa toda essa jogada desesperada com uma autocirurgia. Ela se perfura com uma lâmina fina comprada no século XIII, em Toledo, quebra os óbvios sistemas de rastreamento. A Comandante pode ainda rastreá-la enquanto ela sobe e desce a trança da história, mas isso leva tempo, e Red se move rápido.

 

A primeira carta é fácil.

Elas ainda não sabiam que estavam sendo observadas, é claro. Apenas precauções básicas tomadas. Ela emerge das sombras dos destroços de uma nave e encara o céu de um mundo que elas destroçaram e abandonaram. A carta está em cinzas; ela corta o dedo, pinga sangue nas cinzas e forma uma massa enquanto o mundo se parte. Ela aplica luzes áureas e sons singulares. Ela dobra o tempo.

Trovões se aproximam. O mundo se parte ao meio.

As cinzas se tornam um pedaço de papel, com tinta safira em uma caligrafia tortuosa no alto.

Ela lê. Ela entranha o início em si mesma. É assim que vamos vencer.

Red encontra água em uma máquina de ressonância magnética em um hospital abandonado e bebe. Em um abismo-templo, Red rói ossos caídos. No coração de um enorme computador, ela espia através de circuitos ópticos. Em um deserto congelado, ela enfia as farpas de uma carta em sua pele. Ela os entranha em si, adapta. Encontra todos os tons faltantes de Blue.

Enquanto as provocações nas cartas mudam de tom, ela precisa ser mais criativa. Uma aranha comendo uma libélula. Uma sombra bebendo lágrimas e as enzimas que elas contêm.

Ela se assiste chorando em um pântano jurássico, e embora saiba que é uma armadilha deixada pela Red mais jovem para sua sombra perseguidora, as lágrimas ainda cortam e queimam. Não consegue se impedir de chegar mais perto, de tentar dizer com um toque eu estou aqui. Às vezes é preciso abraçar alguém, mesmo que a pessoa possa confundir o abraço com estrangulamento. Ela luta consigo mesma nas sombras e sente a dor quando quebra seu próprio quadril.

Ela viaja pelo labirinto do passado e relê as cartas. Recria a si mesma e a Blue, que parecem tão jovens agora, em seu coração.

Ela se agarra ao texto como a uma tábua em uma inundação — Red em dente e garra, as hordas mongóis, malditas Atlântidas, uma fome tão afiada e intensa que poderia rachá-la ao meio, fazer surgir algo novo. Chá de rosa-mosqueta. Promessas de livros. Que tenha sido eu a te ensinar isso. Cuidar uma da outra.

As migalhas de pão que ela encontra quando procura! Blodeuwedd. Seria necessário praticamente estar usando a pele da pessoa. Por quanto tempo ela planejou isso? Há quanto tempo você sabia, meu Humor Índigo?

Ou ela não sabia de nada? As conexões são pequenas, negáveis. As migalhas de pão podem ser apenas migalhas. Red as devora de qualquer forma. Já decidiu; não há mais espaço para dúvida.

Red pode estar louca, mas morrer por loucura é morrer por alguma coisa.

Agentes da Comandante farejam-na, perseguem-na. Encurralam-na em um navio pirata da frota de Coxinga, naufragando, e ela acaba com eles rápida e cirurgicamente, depois arranca seus escudos de camuflagem e os usa.

Uma carta é mais do que texto. Ela entranha Blue em si mesma ao lê-la: lágrimas, respiração, pele — a maior parte desses traços foram apagados, mas uns poucos permanecem. Ela constrói um modelo da mente de Blue com as palavras que ela deixou; molda seu corpo com as medidas da carta. Quase.

E, por fim, Red está em um penhasco no fim do mundo e estende a mão, e seu coração se parte ao se ver chorando no mundo de antes. Ela deseja poder se abraçar, esmagar-se em um abraço feroz.

A Red arrasada põe a última carta de Blue em sua mão e pula do penhasco e não morre.

A carta permanece — o lacre, a cera com uma gota de sangue dentro.

Em uma ilha deserta bem longe fio acima, ela coloca o selo sobre a língua, masca, engole e desmaia.

Ela se cobre em tons de Blue, do sangue, lágrimas, pele, tinta, palavras. Ela se contorce de dor com o que cresce dentro dela: novos órgãos florescem das células-tronco autossintetizadas e empurram do caminho velhos pedaços de si. Vinhas verdes enlaçam seu coração e o tomam, e Red vomita e sua até que as vinhas entrem no ritmo dela. Uma segunda pele cresce em sua pele, estourando em bolhas. Ela se rasga como uma cobra e jaz transformada. E mais: outra mente vagueia nas margens da sua.

Ela se sente alienígena. Passou milhares de anos matando corpos como os que está vestindo. A espuma do mar transforma o estéril nascer do sol em arco-íris.

Sua transformação não passou despercebida.

Fios de tempo ecoam com os passos leves e rápidos das irmãs-soldados de Red: a Agência farejou sua traição, sua heroína convertida. Ela é carne, agora, para os dentes deles.

Se já estão irritados assim, imagine quando souberem do seu próximo truque.

Red mergulha desse fio, despenca pelo espaço entre as tranças. Sente o tempo diferente agora — ela continua a mesma, mas é também um eco do seu amor, um golpe de raspão, um quase. Os cães ladram atrás, as irmãs de Red, suas rivais mais ferozes e rápidas, mas uma a uma elas percebem aonde Red está indo e desistem da perseguição. A última, forte e burra demais para o próprio bem, permanece, cada vez mais perto, sua mão quase agarrando o tornozelo de Red. Mas a muralha verde surge à frente, a grande fronteira onde futuros se transformam de Nossos a Deles.

Red atinge a muralha, que lê as partes de Blue nela, borbulha, resiste a princípio, e Red pensa: É isso, a chance fracassou, acabou. Mas então a muralha se abre e Red atravessa e a muralha se fecha rapidamente atrás dela. Sua perseguidora se estilhaça.

Red cai, voa, descendo por fios que ela nunca se atreveu a tocar, até Jardim.

Ela entra como uma carta, lacrada com Blue.

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