É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 38 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 38

Querida Red,

como queira.

B

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Blue está entre os terráqueos, assistindo aos pobres cômicos que se empavonam e agitampor uma hora no palco.

 

Ela é uma aprendiz de boticário nessa vida, um estudo em escuro e claro: cabelo preto cortado curto sob um chapéu de feltro, gibão preto sobre uma camisa branca e meias. Ela levou a cabo a delicada oportunidade de Jardim — um útero se apressa, outro desacelera — e agora espera à margem, assistindo à primeira apresentação de uma nova peça.

Se Blue fosse uma acadêmica — e ela já interpretou esse papel o suficiente para saber que adoraria ser —, ela catalogaria, em todos os filamentos, um extenso estudo dos mundos nos quais Romeu e Julieta é uma tragédia, e nos quais é uma comédia. Ela adora, toda vez que visita um novo filamento, assistir à peça sem saber como vai terminar.

Não está adorando agora. Ela assiste à performance com todo o fervor tenso de quem aguarda uma profecia.

Vai embora antes do final.

Ela retorna à loja. Uma planta — um cruzamento curioso, seu mestre disse, entre cicuta e teixo — repousa em um vaso perto de uma janela. Escura, folhas oleosas; espinhos violentamente elegantes; frutinhas vermelhas como as marcas de suas unhas nas palmas toda vez que as olha.

A carta é belamente composta. Ela não é.

Isso, mais do que qualquer coisa, a enfurece.

Blue a cultivou, devotamente, desde a semente — estranhamente marcada, amorfa, de um azul reluzente em um pacote de papel marrom-pálido. Ela a vem observando há um ano — enquanto incutia vida em uma barriga e bania de outra —, seu crescimento debochado uma promessa nunca cumprida, uma partitura nunca tocada.

A planta está escrita em um óbvio roteiro de genoma, uma espécie de binário tosco extraído de manuscritos levantinos. O número de espinhos e frutos em um galho formam figuras divinatórias — conjunctio, puella — cujos nomes podem ser facilmente analisados com um alfabeto mais elaborado. Querida Blue, estive pensando na sua proposta, mas preciso de uma demonstração de confiança. É arriscado que eu me comunique com você, então escondi a verdadeira carta no veneno — consuma-o, e você saberá quando e onde me encontrar.

Nem sequer soa como ela. A ideia de algum golpista de cara cinzenta da Agência espiando sobre o ombro de Red enquanto ela escrevia enche sua boca de uma fúria impotente. Em sonhos, às vezes, Blue se vê montada nesse estúpido, socando sua cara até virar purê, exceto que suas mãos ficam escorregando, se desviando, e ela não consegue acertar um soco, e o estúpido ri e ri até que a planta cresce de dentro de sua boca e chama por Blue.

Nos dias bons, ela experimenta furar os dedos nos espinhos e pensa em rocas. Nos dias ruins, viaja sete anos fio abaixo só para assistir Londres pegando fogo.

Hoje é um dia bem ruim.

Uma frutinha caiu. Ela quase gritou — e se fosse um parágrafo? — e a pegou do solo, segurou-a entre o polegar e o indicador, colocou-a na palma da mão, se certificou de que não foi furada por um espinho, que não perdeu nem um gole de formiga de seu sumo. Ainda não era hora, ela pensou; um ano não é nada, um ano não é tempo algum para esperar uma carta rescindindo a carta, uma carta contradizendo a contradição dessa carta. O prazo final para uma resposta está inscrito na própria mortalidade da planta.

Verdade seja dita, Blue se sente insultada. Que coisa mais óbvia; que despropósito. Red disse para não ler sua próxima carta — e ali está ela, se anunciando como veneno para testar o interesse de Blue, o sucesso de Red. Se Blue comer, morrerá — mas se não comer, então o time de Red saberá que ela foi avisada, vai suspeitar de Red, e vão destruí-la no lugar de Blue.

Seu coração deveria ter sido partido por coisa melhor. Sua traição deveria ter sido mais cruel. Tudo aquilo… tudo aquilo. E agora isso.

Ainda assim, ela acaricia suas folhas. Ainda assim, ela se curva para cheirar os ramos: uma mistura de canela e podridão.

Ela sempre teve a intenção de comê-la até a raiz.

Há tantas bagas quanto as cartas que trocaram. Ela as come lentamente, olhos fechados, esmagando algumas contra o céu da boca, outras entre seus dentes, rolando sua doçura pela língua. Elas têm gostos amargos e variados, e a propriedade anestesiante do cravo. É frustrante quando os espinhos começam a rasgar suas bochechas e garganta. Ela quer sentir tudo.

Blue pensa em uma hortulana enquanto mastiga as fibras da planta, considera cobrir a cabeça com um pano branco para uma comunhão mais íntima. Ela limpa o sangue brilhante de seus lábios e ri, cada vez mais fraco, engolindo cada golpe de sabor.

Ela pensa: Repugnante em sua própria delícia.

Ela limpa as lágrimas do rosto e as sente se misturando pegajosamente com o sangue. Pensa sentir dentro de si o começo de uma contagem regressiva contra ela mesma.

Ela se levanta, lava o rosto, lava as mãos, e se senta para escrever uma carta.

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