É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 36
Querida Blue,
eu não
Eu
Merda
Na pressa:
Eles sabem.
Não tudo. Ainda não.
Mas eles sabem de você. Do seu golpe, sua armadilha, seu triunfo, sua emergência — você os feriu bastante, e não vão te deixar ter outra chance. Nunca mais.
Eles sabem que você está perto de mim. Eles nos mapearam, de algum modo, desde o princípio, apesar de todo o nosso cuidado. Eles não têm as cartas — acho que não —, mas sabem do seu interesse, da nossa proximidade no tempo. Pressentiram através dos filamentos, como aranhas. Acham que você quer me converter. Você quis, no começo? Foi por isso que se aproximou de mim, a princípio, sem contar o que nos tornamos depois?
A Agência acredita que você está esperando que eu entre em contato. Que eu te mande uma carta. Não consigo nem rir. Eles têm máquinas que reescrevem o código das células, que destransformam proteínas. Nunca te conheceram, nunca te leram, mas te conhecem bem o bastante para te quebrar… se você permitir. E eles acham que se eu mandar uma carta, você vai.
Não consigo escrever isso. Merda, não consigo.
Eles são tão espertos, e tão burros.
Sua carta, o ferrão, tão bonita. Aqueles para-sempres que você prometeu. Netuno. Eu quero te encontrar em todos os lugares que amei.
Me escute… eu sou seu eco.
Prefiro quebrar o mundo a te perder.
Vejo uma solução. É… deveria ser… fácil.
Desista de mim. E eu vou desistir de você.
Vou escrever a carta deles. Enviar. Não leia, sob nenhuma circunstância, a próxima coisa que receber de mim. Quando você não morrer, eles vão considerar a aposta perdida. Talvez seu interesse por mim fosse falso. Talvez eu ainda não estivesse madura para você. Talvez você tenha percebido a armadilha antes que ela se fechasse. Talvez a Comandante estivesse errada. Ela já errou, e as máquinas também.
Só… não leia o que eu mandar depois disso. Não responda.
E nos separamos.
Eu odeio. Nunca odiei nada antes como odeio isso. Com tudo o que você significa para mim, e tudo que sempre significará, não podemos apenas partir. Não podemos apenas desistir.
Mas eu vou, se isso te deixa sobreviver.
Você vai ser observada, e eu também, mais de perto do que nunca. Podemos lutar. Podemos nos caçar através do tempo, como fizemos por séculos passados antes que eu soubesse o seu nome. Mas chega de cartas. Chega disso.
Que eu morresse… bem. Eu me alistei nessa guerra para morrer.
Não sei se já tinha te contado isso.
Mas que você morra… Que você sofra… Que eles te destruam.
Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Vou escrever nas ondas. Nos céus. No meu coração. Você nunca vai ver, mas vai saber. Eu serei todos os poetas, vou matar todos eles e tomar seus lugares um a um, e a toda vez que o amor for escrito, em todos os filamentos, será para você.
Mas nunca mais desse jeito.
Eu sinto muito. Se eu tivesse sido mais forte. Mais rápida. Melhor. Se eu tivesse te merecido. Se…
Você não ia querer que eu me xingasse assim.
Você terá que queimar isto. Espero que você possa guardar. Eu guardo a memória. Imagino suas mãos no papel. Imagino seu fogo.
Queria poder te abraçar.
Eu te amo.
R
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