É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 26 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 26

Querida Um Preço Acima dos Rubis,

andei fazendo feltragem para os filhos da irmã do meu amante: uma corujinha para um, um cervo para o outro. É curioso usar uma ferramenta tão delicada para um trabalho tão selvagem — você pega uma agulha tão fina que não a sentiria em sua carne, depois a espeta sem parar em um rolo de tecido até que as fibras tomem forma.

Eu sinto você, sua agulha, dançando fio acima e abaixo com um abandono impressionante. Sinto a sua mão em lugares que eu toquei. Você se move tão rápido, tão furiosamente, e no seu encalço a trança fica mais grossa, admite cada vez menos filamentos, enquanto Jardim faz carrancas e me oferece chances de aprofundar meu trabalho.

Eu gosto de pensar em todas as maneiras como poderia ter te impedido, se estivesse inclinada a isso.

Às vezes fico inclinada. Às vezes fico aqui sentada, sabendo como você é veloz e segura, e penso: tenho que provar que estou no nível dela. E a vontade aguda e elétrica de te atrapalhar só para ganhar sua admiração é uma espécie de agulha também.

Eu tenho seis meses para preencher antes de te mandar esta carta, então estou escrevendo em pedaços — parcelando as palavras que quero que você tenha, muito embora você, é claro, vá ler todas de uma vez. Ou talvez não? Talvez você queira guardar essas sementes para absorver em um momento de lazer, talvez até no ritmo que eu as escrevo. Mas por que desperdiçar tanto tempo? É mais perigoso guardá-las, podem ser encontradas. Melhor lê-las de uma vez.

De todo modo, este é o sumagre-chifre-de-veado: não é venenoso, fica delicioso misturado com carnes, saladas, tabaco. Prove como é ácido, como é picante; triture até virar um tempero para salpicar ou fumar, ou coloque os frutos na água e terá algo como uma limonada.

Essas sementes, é melhor que você as coma uma por vez, role-as pela língua e quebre-as nos dentes.

Da sua,

Blue

PS. Eu amo escrever com esse gostinho que fica depois.

PPS. Espero que você note a diferença entre esse sumagre e o venenoso. Somente um deles é vermelho.

 

Minha querida Bordo-açucareiro,

nós estamos furando as árvores, fervendo a seiva pra virar xarope e bala. Quero que você saiba, com minhas palavras na sua boca, sobre os lugares e caminhos nos quais penso em você. É bom que seja recíproco; coma essa parte de mim enquanto eu cravo caniços em suas profundezas, faço escorrer algo doce.

Às vezes desejo conseguir ser menos ardente com você. Não — às vezes eu sinto que devo querer ser menos ardente com você. Que isso, o que quer que seja, seria melhor acompanhado de ternura, de bondade gentil. Em vez disso, eu escrevo coisas como fazer escorrer sua seiva com caniços. Espero que você me perdoe por isso. Ser suave, para mim, muitas vezes é fingimento, e não é fácil fingir quando escrevo para você.

Você escreveu sobre ficarmos juntas em algum vilarejo fio acima, vivendo como amigas e vizinhas, e eu poderia ter engolido este vale inteiro e ainda não saciaria minha fome dessa ideia. Em vez disso, transformo o anseio em uma linha, passo pelo buraco da sua agulha e o costuro sob a minha pele, bordo minha próxima carta para você um ponto de cada vez.

Da sua,

Blue

 

Querida Deleite do Marinheiro,

a neve acabou e tudo está esquentando, como se o sol estivesse esfregando a terra com as duas mãos e massageando para liberar as tensões. Época de plantio no horizonte — e eu pego essa frase e a reviro, sorrio pensando em como Jardim semeia o tempo, faz dele um plantio mais sutil do que estações desertas, e o horizonte é uma promessa.

Eu esperei até agora para tocar na sua preocupação quanto às sombras. Eu prestei muita atenção. Teve uma época, quando começamos a nos corresponder, em que eu tinha certeza absoluta de estar sendo rastreada — pequenas coisas, vagas, difíceis de nomear, mas você conhece a sensação de entrar em uma sala de onde alguém acabou de sair? Tipo isso, mas ao contrário. Nunca seguida, exatamente, mas… rastreada.

Mas não senti mais isso desde que fui integrada, o que pode ser preocupante. Quando Jardim integra um agente — como tenho certeza de que a sua Comandante já notou —, é quase impossível se aproximar, distingui-lo de seus arredores. Ficamos tão completamente enredados no tecido dos filamentos que nos recortar criaria furos terríveis pelos quais vaza Caos, Caos que ninguém fio abaixo quer, nem mesmo o seu Oráculo, que vive e respira isso. Imprevisível demais, difícil demais de gerenciar, o custo/benefício muito desbalanceado — então vocês nos pegam em movimento, no meio do caminho, ou enquanto dançamos pelas tranças, tocando vidas apenas ligeiramente. Mesmo Jardim tem dificuldade de nos alcançar com os ramos mais delicados de sua consciência; para um agente fora do tempo conseguir se aproximar de alguém integrado seria necessário praticamente estar usando a pele da pessoa para que a trança lhe permitisse chegar a cinquenta anos ou mil milhas de onde ela está.

Você vai perguntar: Mas como você consegue me mandar cartas no conteúdo de estômagos de pássaros? Pense nos pássaros como canais de comunicação que eu posso abrir e fechar sazonalmente; outros agentes me relatam seus trabalhos nos equinócios; Jardim floresce mais intensamente em minha barriga. Há tráfego suficiente para que seja simples disfarçar correspondência entrando e saindo, redirecionar, esconder à vista de todos. Agentes inimigos, no entanto — eu já ouvi histórias do que acontece com aqueles do seu lado que tentam invadir as nossas plantações. Imagine caminhar por uma cerca viva de espinhos que fica cada vez mais grossa e mais dura, mais afiada, conforme você se aprofunda nela, e terá uma noção de como é. Mas isso dura acres, décadas, até você ser rasgado e dilacerado em serpentinas.

Tudo isso para dizer que eu não estou sendo seguida; se você está, vou enviar todas as antenas que puder para descobrir se é o meu pessoal. Pode bem ser — Jardim claramente se interessa por você desde que era pequena. Mas confio totalmente na sua habilidade de escapar e superar qualquer um do meu lado.

Qualquer um que não seja eu.

Se é do seu pessoal, aí é mais complicado e preocupante. Tenha cuidado.

Da Sua,

Blue

PS. Qualquer informação que você possa me dar sobre o tipo de sombra — um cheiro, uma cor que você assimile à sensação, o pesadelo que te acordou quando você pensava estar a salvo — vai me ajudar a investigar. Embora eu ache que nunca descobri se você sonha.

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