É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 20 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 20

Querida Blue,

eu…

Eu não sei o que dizer. Mesmo a perspicaz e quase profética sra. Leavitt não tem um modelo para isso. Aniversários, sim (é o meu, por falar nisso, se considerarmos que tenho um); funerais, tudo bem; na ocasião de um matrimônio, naturalmente. Mas por algum motivo ela negligencia um modelo de carta para quando sua inimiga salva…

Merda. Eu sinto muito. Não consigo seguir com a piada. E é errado te chamar de inimiga.

Obrigada.

Por me salvar, obviamente, e para começo de conversa. Senti você descendo pela trança. Estou mais sensível aos seus passos, eu acho, do que qualquer outro ser vivo. (E todos estão vivos, em algum lugar no tempo. Até essas digressões parecem fracas. Eu geralmente gosto delas, das minhas piadas. Elas parecem acrescentar, não prejudicar, os assuntos tratados. Menos agora.) Eu segui você. Me desculpe por isso, por invadir sua privacidade enquanto você se transformava no que precisava ser para vencer.

Eu não poderia ter derrotado aquela besta sozinha. Você é mais feroz do que eu.

Você está olhando ao redor de vez em quando, enquanto lê essas linhas, me procurando? Eu já fui, querida Blue, fio acima, como você também já deveria ter ido. Nenhuma de nós está a salvo aqui, e quanto mais tempo você ficar, menos a salvo nós estaremos. Você conhece os protocolos: tremores brotam dos pés dos viajantes, e embora nenhuma outra aranha esteja tão atenta à sua trilha como eu, as outras não são surdas. Terei que ver seus olhos outra hora. Te deixo uma carta, lacrada com cera, um rastro de perfume.

O cheiro, para mim, é um meio. Eu raramente o uso com propósito ornamental. Espero ter escolhido uma fragrância do seu gosto. Eu pedi ao ajudante em Londres Depois uma amostra do seu chá, de algumas cartas atrás, levei a uma parfumerie em Phnom Pehn (Filamento 7922 C33, caso você goste do cheiro; vou deixar o endereço abaixo), fiquei indo e vindo por alguns anos até achar a mistura adequada.

De todo modo. Fique com isso. É sua. Não vai queimar quando você ler a assinatura, não vai se decompor mais rápido do que qualquer outra carta que uma mulher no seu amado Filamento 6 C19 tenha escrito para outra mulher. O papel é de Wuhan, dinastia Song, artesanal: deixe em um lugar úmido e ele vai apodrecer; misture-o com água e você terá uma polpa. Destrua você mesma, como quiser, se quiser. Eu não me importo. Todas nós temos nossos observadores. E essa carta é uma faca no meu pescoço, se você quiser cortar.

É tão difícil me desviar, aqui, e responder a sua última carta. Eu me sinto… não sei dizer precisamente como. Estou abalada. Sabe os limites dos mapas antigos, que prometem monstros e sereias? Aqui há dragões?

Eu não sei qual estrada leva adiante. Mas a sua carta tem fome de resposta.

Li e reli sua última missiva — na minha memória, como você avisou que eu ia fazer, há tanto tempo, me preparando para a queda. Eu vejo você como uma onda, como um pássaro, uma loba. (Minha loba, com seis pernas e duas fileiras de olhos.) Tento não pensar em você do mesmo jeito duas vezes. Pensar cria padrões no cérebro e esses padrões podem ser lidos por alguém determinado o bastante, e a Comandante, às vezes, é determinada o bastante — eu acho que você ia gostar dela. Então eu mudo sua forma nos meus pensamentos. É incrível quanto azul há no mundo, quando se presta atenção. Você é as diferentes cores das chamas: bismuto queima azul, e cério, germânio, e arsênico. Viu? Eu coloco você em tudo.

Acho que você me vê nitidamente agora — me imagine me remexendo, desconfortável, exposta. Meu jeito sempre foi seguir direto em uma direção, sem hesitação ou restrição. Só me preocupei que você visse essas cartas longas como sinal de uma mente simplória ou desesperada. Eu me preocupei — talvez você ria — que você respondesse por resignação.

Então: vou ser clara.

Eu gosto de escrever para você. Eu gosto de ler você. Quando termino suas cartas, eu passo horas desvairadas em segredo compondo respostas, ponderando maneiras de enviá-las. Eu consigo desencadear qualquer combinação química com uma frase cuidadosamente composta; uma fábrica dentro de mim produz qualquer droga que eu queira. Mas a sensação de ler e enviar não se compara a droga alguma.

Falando em estar exposta! Se você tiver algum grande plano, se a morte que seus mestres planejaram para o meu eu mais jovem era rápida demais e você prefere me ver destruída e arrasada, tudo o que precisa fazer agora é deixar esta carta onde algum outro agente da minha facção possa encontrá-la. Eu aceitaria isso. (Bem, não teria muito mais tempo para aceitar, e o tempo que tivesse seria doloroso, mas você me entendeu.)

Portanto, nesta carta eu sou sua. Não de Jardim, não da sua missão, mas sua, só sua.

Eu sou sua de outros jeitos também: sua enquanto procuro seus sinais no mundo, quando tenho a apofenia de um arúspice; sua ao debater métodos, motivos, chances de entrega; sua enquanto repasso suas palavras em sequência, seus sons, cheiros, sabores, tomando cuidado para que nenhuma lembrança delas se desgaste demais. Sua. Mesmo assim, suspeito que você apreciará essa prova.

Vou tentar uma biblioteca da próxima vez. Espero que você entenda o porquê da mudança de planos.

Da sua,

Red

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