É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 18 de 49

Páginas do PDF

É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 18

Querida Céu da Aurora,

não encurte suas cartas.

Você pergunta se eu tenho me sentido sozinha. Nem sei como responder. Já observei amizades, e foi como observar dias altamente sagrados: impressionantemente curtos, redemoinhos de esforços íntimos, celebrações frenéticas, a partilha de comida, de vinho, de mel. Constrito, sempre, e acaba tão rápido quanto começa. Muitas vezes é meu dever me apaixonar de maneira convincente, e certamente nunca recebi queixas. Mas isso é trabalho, e há coisas melhores sobre as quais escrever.

Você disse que tinha treze anos. Você não… Você me parece tão jovem ainda, mesmo que para você pareça que já faz muito tempo.

Minha família é de grandes jardineiros. Nossos jogos são demorados e lentos, e nosso amadurecimento também. Jardim nos semeia com o passado — sua Comandante já sabe disso, sendo essa informação considerada importante ou não — e nós aprendemos e crescemos com os fios. Tratamos o passado como uma treliça, enveredando nossas vinhas por eles, e colheita não é uma palavra para ligeireza; o futuro nos colhe, nos pisoteia até virarmos vinho, nos derrama de volta no sistema de raízes, em uma libação amorosa, e nós crescemos mais fortes e mais potentes juntos.

Eu já fui pássaros e galhos. Eu fui abelhas e lobos. Eu fui o éter inundando o vácuo entre as estrelas, embrenhando a respiração delas em redes de canções. Eu já fui peixe e plâncton e húmus, e todas essas coisas já foram eu.

Mas embora eu esteja enredada nessa totalidade — eles não são tudo de mim.

Pensar em sua rede desencarnada me dá repulsa, mas eu olho para você, Red, e vejo muito de mim: um desejo de me separar, às vezes, de entender quem eu sou sem o resto. E a coisa para a qual eu retorno, a versão mais pura e inescapável de mim… é a fome. Desejo. Ânsia, ânsia de possuir, de me tornar, de quebrar como uma onda em uma rocha e me reformar, e quebrar de novo, e vagar. Essa é uma necessidade de qualquer ecossistema, mas perturba os outros, essa inabilidade de estar satisfeita. É difícil — é muito difícil fazer amizade quando você deseja consumir, encontrar pessoas que quando perguntam Você ainda está comigo?, quando terminam uma carta com Sua, estão falando de coração.

Então eu vou. Viajo mais longe e mais rápido e mais intensamente do que a maioria, e eu leio, e eu escrevo, e eu amo cidades. Ficar sozinha em uma multidão, separada e unida, manter distância entre o que eu vejo e o que eu sou.

Fico contente em saber que você ama ler. Talvez na próxima você devesse escrever de uma biblioteca — há tantas coisas que quero recomendar.

Tudo de bom,

Blue

PS. Sócrates! Me pergunto se conhecemos alguns dos mesmos.

PPS. Não conseguia parar de tramar o seu nome, mas essa saudação pareceu mais sábia — aprendi a tomar cuidado com coisas que me dão prazer.

PPPS. É claro que nós ainda vamos vencer.

OceanofPDF.com