É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 34
Sangue do meu próprio coração,
eu danço para você em um corpo feito para a doçura, um corpo que se rasga em defesa do que ama. Esta carta vai te ferroar quando chegar ao fim. Permita, e leia o pós-escrito no espasmo de sua morte.
Eu danço — esta vai ser uma carta bem entediante — porque essa coisa em mim, esse calor vaporoso, esse sol nascente que mal cabe no céu de mim se recusa a ficar quieto. Saber que você me acompanha nisso também — nesse ritmo do meu sangue pulsando, nesse banquete que não diminui não importa o quanto eu me farte —, Red. Red, Red, Red, eu quero te escrever poesia, e estou rindo, veja bem, enquanto ensino a esse pequeno corpo a minha alegria, rindo da piada que eu sou e do alívio, do alívio de estar deitada de costas em uma laje de pedra com uma faca acima de mim e ver sua mão e olhos guiando-a.
Pensar que essa entrega é saciedade. Que levei tanto tempo para descobrir isso.
Red, eu te amo. Red, eu vou te enviar cartas de qualquer tempo te dizendo isso, cartas com uma só palavra, cartas que vão roçar suas bochechas e agarrar seus cabelos, cartas que vão morder você, cartas que vão te marcar. Eu te escreverei em formigas-cabo-verde e marimbondos; eu te escreverei em dentes de tubarão e conchas de vieiras; eu te escreverei em vírus e no sal de uma nona onda inundando seus pulmões; eu vou…
parar, aqui, vou parar. Provavelmente não é assim que se faz. Eu quero flores de Céfalo e diamantes de Netuno, e quero incendiar as milhares de terras entre nós para ver o que floresce das cinzas, para que possamos descobrir de mãos dadas, conteúdo em contexto, inteligível somente uma para a outra. Eu quero te encontrar em todos os lugares que eu amei.
Não sei como criaturas como nós fazem essas coisas, Red. Mas eu mal posso esperar para descobrirmos juntas.
Com amor,
Blue
PS. Eu te escrevo em ferrões, Red, mas essa escrevendo sou eu, a verdadeira eu: arrasada pelo ato, na palma da sua mão, morrendo.
OceanofPDF.com