É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 47
Meu querido Hiper Objeto Extremamente Vermelho,
eu não sabia o que você ia fazer.
Eu quero me explicar — esse eu que você salvou, esse eu que você infectou, esse eu retorcido em Möbius com o seu eu desde o longínquo começo.
Eu plantei a sua carta. Eu a observei crescer. Eu cuidei dela e pensei em alimentá-la com o meu sangue, criando nela uma boca pela qual poderia falar com você. Você me falou para não ler. A ideia da sua ingenuidade me encantou ao mesmo tempo em que a da sua traição me queimava. Tinha que ser um ou outro: como você podia pensar que seu fracasso em me matar resultaria em qualquer coisa além da sua própria morte? Como você não viu que isso era um teste? Como, a menos que confiasse na sua conquista o suficiente para saber que eu me tiraria da jogada por você, impulsionada por uma demonstração desastrada da sua dor?
De todo modo, havia apenas uma escolha. Para proteger você — não importando suas intenções — eu precisava me render.
Não foi difícil. Verdade seja dita, Red: não ler a sua carta foi muito mais.
Quando você disse que não escreveria novamente, quando você disse… aquela é a única carta sua que eu quis apagar de mim. Sendo sincera, foi parte por causa disso que eu mordi a isca. Ser desfeita, ter aquela última carta reescrita — ser destruída por você foi mais fácil, de verdade, do que viver com o que você propôs.
Mas eu sou gananciosa, Red. Eu queria a última palavra, bem como a primeira.
Espero que você não tenha levado a minha resposta muito a mal. Eu sabia que talvez você não fosse a primeira a ler. Quero que você saiba: eu morri pensando que se alguém pudesse me manter viva, seria você. Foi, eu confesso aqui, um pensamento presunçoso: que eu morresse pelas minhas próprias mãos, e fosse ressuscitada pelas suas.
Lembre que prometi infiltração desde a primeira carta — te desafiei a ser infectada por mim. Eu não tinha como saber, na época — eu não tinha, e nem você —, quão completamente você já estava dentro de mim, me protegendo do futuro. Você sempre foi a fome no meu coração, Red — meus dentes, minhas garras, minha maçã envenenada. Em uma rua com pedrinhas de brilhantes, eu fiz você como você me fez antes.
Ainda há uma guerra acontecendo, é claro. Mas essa é uma estratégia inédita. O que Genghis diria se nós construíssemos uma ponte juntas, Red? Imagine se nós atravessássemos os fios e emaranhados queimados, passássemos pelos nós da trança — imagine se nós desertarmos, não uma para o lado da outra, mas uma para a outra? Somos as melhores no que fazemos. Vamos fazer algo que nunca fizemos? Vamos furar e torcer e tocar a trança até que ela nos ceda um lugar fio abaixo, curve o garfo dos nossos Turnos em hélices duplas em torno do nosso par de base?
Vamos construir uma ponte entre nossos Turnos e mantê-la — um espaço onde ser vizinhas, ter cachorros, compartilhar chás?
Será um jogo longo, lento. Vão nos caçar mais ferozmente do que jamais se caçaram — mas por algum motivo eu acho que você não se importaria.
Eu consegui cinco minutos para você escapar. As instruções estão no verso, embora eu duvide que você precise delas.
Eu não estou nem aí para quem ganhar essa guerra, seja Jardim ou a Agência — em direção ao Turno de quem o arco do universo se dobrar.
Mas talvez seja assim que nós vencemos, Red.
Você e eu.
É assim que vencemos.
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