É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 28 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 28

Minha Cópia Heliográfica,

eu li as suas três primeiras cartas de sumagre. Não posso deixá-las passar sem resposta, embora eu tema escrever sem saber o que vem depois. (Ainda sinto o gosto das cartas. Duradouro. Ele cobre qualquer outro sabor, tão cheio de você.) Talvez eu pergunte algo já respondido. Talvez eu escreva uma frase que ofenda.

Mas se você tem fome, eu me dilato. Você me fez observar pássaros, e embora eu não saiba seus nomes, como você sabe, tenho visto pequenos cantores cintilantes inflarem-se antes de cantar. É assim que eu me sinto. Eu canto a mim mesma para você, e minhas patas agarram galhos, e fico exausta até que sua próxima carta me dê fôlego, me encha até estourar.

Sinto a sua falta em campo. Sinto falta de perder. Sinto falta da perseguição, da fúria. Eu sinto falta das vitórias disputadas. Seus companheiros têm intrigas e paixões, e de vez em quando jogadas inteligentes, mas nenhum é tão complexo, tão cuidadoso, tão confiante. Você me afiou como uma pedra. Eu me sinto quase invencível depois de nossas batalhas: um tipo de Aquiles, de pés ligeiros e toque leve. Apenas nesse lugar inexistente que nossas cartas constroem é que me sinto fraca.

Como eu amo não ter qualquer armadura aqui.

Você gostaria de me ter de novo sob a sua ameaça. De certo modo, você ainda tem. Enquanto eu carregar essas três sementes no oco atrás do meu olho, você será uma lâmina contra as minhas costas. Eu amo o perigo disso. Além do mais, não sou tão inocente de pensar que suas remessas para este filamento não têm nenhum propósito. Jardim trabalha lentamente, por vidas inteiras. Se enterra em você, e através de você inflige grandes mudanças, enquanto nós batalhamos na superfície.

E na sua ausência você é mortal como uma lâmina. Sem cartas, sem os tremores de seus passos no tempo, eu busco suas memórias; eu me pergunto o que você diria e faria, se estivesse aqui. Imagino você esticando o braço por cima do meu ombro para corrigir minha mão na garganta de uma vítima, para guiar a trama de um filamento.

Estou sendo vigiada. A sombra, minha Rastreadora, rouba coisas por onde passei. Eu a vislumbro no crepúsculo arroxeado, mas nunca está onde a persigo. Cheiro: difícil dizer, embora haja notas de ozônio e bordo queimado. Tem muitos formatos. Eu me preocupo de que seja um fantasma, um efeito da minha mente se esfacelando. Eu esperava pegá-la, matá-la, provar que estou sã (ou não) antes de consumir suas próximas cartas. Não posso nos colocar em perigo, colocar você em perigo, ainda mais. Mas eu sou o pássaro canoro perdendo o ar, e preciso respirar.

Eu sonho.

Eles nos livraram de dormir, assim como da fome. Mas eu gosto da exaustão, pode chamar de fetiche ou do que quiser, e no meu trabalho fio acima é quase sempre conveniente personificar humanidade. Então eu me canso com trabalho, e eu durmo, e os sonhos vêm.

Eu sonho com você. Tenho mais de você dentro da minha mente, da minha mente física, pessoal, esponjosa, do que de qualquer outro mundo ou tempo. Eu sonho que sou uma semente entre os seus dentes ou uma árvore perfurada pelo seu caniço. Eu sonho com espinhos e jardins, e eu sonho com chá.

O trabalho espera. Eles vão me pegar aqui, se eu me demorar. Escrevo mais em breve, depois que eu der um jeito nessa sombra, depois que estivermos a salvo.

Da sua

Red

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