É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 30
Querida Morango,
o verão pousa como uma abelha em um trevo — dourado, atarefado, efêmero. Há tanto o que fazer. Eu amo essa parte de estar integrada, amo me sentir completamente exaurida no fim do dia: sem tanque de recuperação, nem seiva curativa, nenhum murmúrio quieto e verde na minha medula — apenas suor e sal e sol nas minhas costas, todos amando seus corpos enquanto desfrutam deles, essa bonita dança.
Colhemos frutas do bosque. Pescamos no rio. Caçamos patos e gansos. Cuidamos dos jardins. Organizamos festivais, acendemos fogueiras, discutimos filosofia, brigamos por desavenças, quando necessário. Pessoas morrem; pessoas vivem. Eu tenho dado muita risada, esse verão, e tem sido leve.
Você diz que minha carta te encontrou em um momento de fome. Como expressar o que significa para mim que tenha sido eu a te ensinar isso? Que eu tenha compartilhado e, de algum modo, te infectado com isso. Espero que não seja um fardo, e ao mesmo tempo desejo que você seja dilacerada pela fome. Quero afiar suas fomes tanto quanto quero satisfazê-las, uma carta-semente por vez.
Quero te contar alguma coisa sobre mim. Alguma verdade, ou nada.
Da sua,
Blue
PS. Estou tão feliz que você leu Mitchison. Constantinopla é difícil — mas às vezes ajuda pensar que o livro vai passando pelas épocas da contação de história. Mito e lenda dão lugar à história, que abre caminho para o mito de novo, como cortinas abrindo e fechando em momentos opostos de uma performance. Halla começa nos mitos nórdicos de Mitchison, fora do tempo do livro e quando chega no final foi absorvida — integrada, talvez — pelos mitos daqueles com quem ela viajou. Todas as boas histórias viajam de fora para dentro.
Querida Framboesa,
não é que eu nunca tivesse notado quantas coisas vermelhas há no mundo. É que elas nunca foram mais relevantes do que as coisas verdes ou brancas ou douradas. Agora é como se o mundo inteiro cantasse para mim em pétalas, penas, seixos, sangue. Não que não cantasse antes — Jardim ama música com uma profundidade inexpressável —, mas agora são canções que ouço sozinha.
Sozinha. Eu quero te contar sobre quando eu realmente aprendi essa palavra, intrinsecamente. A razão pela qual sou desgarrada, como uma salsola, um dente-de-leão, uma pedra solta, até ser posta em algum lugar, e depois chutada de novo.
Nós somos semeados, eu acho que você sabe — sementes plantadas, raízes se espalhando pelo tempo, até Jardim nos replantar em um solo diferente. Nossos pontos de semeadura são tão completamente integrados que o que eu mencionei antes sobre uma aproximação é inconcebível: Jardim nos semeia, nos assopra, e nós nos enterramos nas tranças do tempo e nos enredamos nele. Não há cerca viva para atravessar; nós somos a cerca viva, inteiramente, botões de rosa com espinhos em vez de pétalas. A única maneira de nos acessar é entrar em Jardim tão fio abaixo que a maioria dos nossos próprios agentes não é capaz, encontrar a raiz-mestra umbilical que nos conecta com Jardim e então navegá-la fio acima como um salmão em uma corrente. O que, se qualquer um de vocês pudesse fazer, significaria que já estaríamos derrotados. Se vocês tivessem esse tipo de acesso a Jardim, poderiam demolir todo o nosso Turno.
(Eu não posso… não deveria te contar isso. Apesar de tudo, fico pensando… isso poderia ser um golpe muito elaborado, poderia ser a informação que você queria o tempo todo, isso… mas faz diferença, de verdade? O ponto sem volta foi um milênio atrás, ficou enterrado e perfumado de chá em um saco subcutâneo que criei na minha coxa esquerda. Não é exatamente um medalhão cheio de cabelo, mas não há motivo para considerar menos grotesco, suponho.)
Enfim.
Eu nunca mencionei, eu acho, o filamento no qual Jardim plantou a semente de mim — “para começar minha vida com o início de minha vida” parece absurdo para o nosso tipo, não? —, mas não era nada especial; Filamento 141 Álbico, no mesmo ano da morte de Chatterton, mas eu te imploro para não fazer o meu horóscopo. Quando eu era muito pequena, ainda só um broto em Jardim enraizado em uma garota de cinco anos, eu fiquei doente. Isso não era incomum — geralmente ficamos doentes de propósito, somos inoculados com doenças de futuros distantes, dosadas com uma variedade de graus de imortalidade, qualquer coisa que nos torne o que precisamos ser quando Jardim nos libera na completude da trança.
Mas isso foi diferente. Não foi Jardim me infectando para me fortalecer; foi alguém me infectando para afetar Jardim.
Isso deveria ser impossível. Eu estava enredada. Mas alguma coisa, de algum modo… eu fui comprometida por uma ação inimiga. Para mim, pareceu um conto de fadas; eu estava adormecida, naquele vão entre o sonho e a vigília, quando não se tem certeza se o que vemos é real ou uma tempestade de nanomáquinas reconectando suas sinapses.
(Passei por isso uma vez. Foi desagradável. Espero que você nunca tenha que se eletrocutar para limpar bugs do seu cérebro. Ou talvez isso faça parte do treinamento básico do seu time.)
Eu me lembro de me darem um beijo e alguma coisa para comer. Foi tão gentil, eu não tinha como entender o gesto como hostil. Realmente coisa de conto de fadas. Eu me lembro de luzes intensas e depois… fome. Fome que me virava do avesso, fome na forma mais primal que se possa imaginar, fome que me fazia esquecer de todas as outras coisas. Eu não conseguia enxergar, de tanta fome, não conseguia respirar, e era como se algo estivesse se abrindo dentro de mim e me dizendo para procurar. Acho que alguma parte de mim estava gritando, mas eu não saberia dizer qual; meu corpo era um alarme tocando. Eu me voltei completamente para Jardim para ser alimentada, para estancar aquilo, para me impedir de desaparecer…
E Jardim me amputou.
O que é o procedimento padrão operante. Jardim deve prevalecer. Jardim pode, faz, tem e vai podar, sempre, ramos, flores, frutas, mas Jardim prevalece e cresce mais forte depois. Jardim não podia deixar que a fome se espalhasse além de mim.
Agora eu entendo, mas na época… eu nunca tinha ficado sozinha. E penso em você, construindo essa solidão para si mesma, longe dos outros por escolha… mas para mim, eu era apenas meu próprio corpo, apenas meus próprios sentidos, apenas uma garota cujos pais estavam indo socorrer depois de um sonho ruim. Eu tocava o rosto deles, e eles eram meus; eu tocava a cama onde estava, sentia o cheiro de maçãs cozinhando em algum lugar lá fora. Era como se, à minha própria maneira insignificante, eu tivesse me tornado Jardim… Um eu tão completo, eu nos meus dedos, nos meus cabelos, na minha pele, completa como Jardim, mas separada.
A fome ferveu dentro de mim por uma semana, durante a qual eu comi tanto que meus pais cochichavam sobre cozidos de casca de ovo e lírios-tocha. Eu aprendi a escondê-la. E então, depois de um ano, Jardim me recebeu de volta.
Me enxertou de volta, como se nunca tivéssemos nos separado, sondou e perscrutou e vasculhou dentro de mim, me afogou em remédios e proteções, me esfregou por dentro e por fora. Nada foi encontrado. Minha maturação havia sido estranhamente acelerada, talvez, mas aquilo era bom. E depois de um zeloso escrutínio, durante os anos seguintes, os medos de que eu estivesse comprometida foram em sua maioria postos de lado; nada na trança sugeria corrupção, começando pelo meu filamento. Era importante, também, anunciar que a tentativa de penetrar o enredamento não fora bem-sucedida (embora tenha sido bem-sucedida — mas como eles nunca tentaram de novo, a manobra de Jardim deve ter convencido os interessados relevantes). Então Jardim me posicionou, me deu importância, me elogiou e me elevou, mas sempre me manteve a certa distância.
Minhas excentricidades são toleradas: meu amor pelas cidades, pela poesia, minha apreciação em ficar desenraizada, por ser, de alguns modos, mais uma jardineira do que parte de Jardim. Meus apetites, que nem as inundações de Jardim conseguem saciar.
Já você, Red…
Minha Macieira, meu Esplendor,
às vezes quando você escreve, diz coisas que eu me contive em dizer. Eu queria dizer eu quero fazer chá para você beber, mas não disse, e você me escreveu sobre fazer bem isso; eu queria dizer sua carta vive dentro de mim da maneira mais literal possível, mas não disse, e você me escreveu sobre estruturas e eventos. Eu queria dizer palavras machucam, mas metáforas atravessam, como pontes, e palavras são como pedras para construir pontes, talhadas da terra em agonia, mas virando algo novo, compartilhado, algo que é mais do que um Turno.
Mas eu não disse, e você falou de feridas.
Eu quero dizer agora, antes que você possa passar na minha frente: Red, quando penso nessa semente na sua boca, imagino que eu mesma a coloquei ali, com meus dedos nos seus lábios.
Eu não sei o que isso significa. É como ser amputada de novo, do jeito mais estranho… é como cambalear na beira de alguma coisa que vai me desfazer.
Mas eu confio em você.
Tome esses meus anos, tome essas sementes, e deixe que elas criem para mim algo semelhante em resposta. Eu sinto falta das suas cartas longas.
Com amor,
Blue
OceanofPDF.com