É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 33
A Comandante convoca Red para um escritório de campo.
Como sempre, há sangue por todo lado. Em maior parte congelado, dessa vez, o que cheira melhor.
A Agência escolheu um front russo perto da trança principal, onde os nazistas têm um truque para levantar os mortos — nada sobrenatural, mas a natureza tem meios estranhos que os cientistas C20 raramente descobrem. Os cadáveres corroídos têm um distinto odor de fungo quando Red se aproxima, o que sugere uma intervenção de fio abaixo, trabalho do grande adversário. O céu está quase totalmente branco, mas parou de nevar, e o azul-claro se abre ao longe.
Os soldados soviéticos estão assustados e com frio e com fome. Eles morrerão ali. Vão guardar o posto apenas o suficiente para que Zhukov conquiste uma posição mais crítica atrás deles. São garotos corajosos e mais que algumas poucas garotas. Eles compartilham suas últimas bebidas — canções, piadas de casa, qualquer coisa que carreguem em seus cantis. Bravura não os salvará. Nem a seriedade de morte no rosto de seus oficiais.
Outros agentes aparecem e desaparecem, carregando relatórios ou maletas com armamentos ou os corpos drenados e esbranquiçados de seus camaradas. Sustentam troféus e tributos. Todos parecem assustados. Eles se encaixam muito bem ali.
Considerando tudo, um escritório bem escolhido.
Geralmente, a Comandante opera fio acima de alguma cidadela de cristal reluzente. Algumas vezes a Agência chamou Red para se reportar em uma plataforma vazia orbitando uma estrela desconhecida, esquecendo-se até mesmo de produzir um oficial superior humanoide a quem ela pudesse se dirigir. As estrelas ouvem sozinhas.
A Comandante já deve ter sido decantada alguma vez — todos os seus agentes foram. Mas ela voltou à sua cápsula há muito tempo e agora vagueia tempo e espaço como uma mente descarnada, combinada, tramada nas grandiosas máquinas de hiperespaço da Agência. Ela toma forma apenas quando necessário, e escolhe qualquer uma que encontre à mão, ou nenhuma. Em geral, ela contempla o abstrato e calcula trajetórias no tempo, considera seus muitos agentes como vetores e nós multidimensionais. Vistos com distanciamento suficiente, todos os problemas são simples. Todos os nós podem ser desamarrados com umas poucas mortes, ou dez mil.
Tal indiferença funciona quando a luta vai bem. Decisões tomadas longe do front estão seguras contra insurgência e infiltração.
Passando pelos cadáveres, Red fecha bem seu casaco. Não para proteger sua carne — ela quase não sente o frio, mesmo nesse clima congelante —, mas para resguardar a pequena chama azul dentro dela.
A perda exige uma resposta imediata. Decisões perdem o luxo da distância. A Comandante permanece fio abaixo, é claro, mas fez uma cópia local para operações em curso, contenção de danos, patrulha, e essa cópia escalou a trança até o passado para registrar os novos fios que Jardim fez brotar, os filamentos que ele modificou, os nós que amarrou.
Oficiais de campo ficam vulneráveis, no entanto. Então eles são construídos em bolhas de tempo, fortificadas contra causas e efeitos.
Red passa por três homens lutando para conter seu camarada caído e infectado, passa pelo médico tentando dar pontos em uma ferida dormente de frio com dedos congelados, e sabe que não importa o que aconteça ali, tudo isso vai passar, e todas essas pessoas vão morrer.
Como apropriado.
Red se abaixa para passar pela aba da barraca da Comandante.
A Comandante está diante dela, na forma de uma grande mulher em um uniforme militar, usando um avental, com um alicate ensanguentado em uma das mãos. Ela o segura como se não estivesse acostumada a segurar coisas. Ajudantes se aglomeram ao redor, segurando relatórios em atrapalhadas tecnologias da época: papel, mimeógrafo, mapa. Um homem está sentado inconsciente, amarrado a uma cadeira de madeira, nu, sangrando pela boca. Está mais quente na barraca do que fora, mas não quente o suficiente. Seus olhos semiabertos são de um azul profundo.
Red bate continência.
— Saiam — diz a Comandante à sua equipe, e eles saem. O homem permanece. Ela não faz nenhum som. Talvez não as note, ou espere não ser notado.
Para todos os efeitos, elas estão sozinhas. Red espera. A Comandante anda de um lado para outro. Suas mãos estão ensanguentadas e ela não parece notar ou se importar. A preocupação desenha linhas em sua face. Essas linhas pertencem à mulher em cujo corpo a Comandante agora viaja, mas lhe caem bem. A guerra ficou difícil. Red imagina qual seria a sensação daquele alicate em sua boca, fechando-se ao redor de seus molares ou caninos, e decide: se é assim que vai ser, tudo bem. Ela mantém a chama dentro dela segura.
— Estamos mal — diz a Comandante. — Um trabalho longo e cuidadoso do nosso adversário, armadilhas fio acima e abaixo, tudo executado por uma única agente, com consequências em cascata. Eu diria que é brilhante, se não tivesse nos colocado em tanta desvantagem. Mas contamos nossas bênçãos: a nova trança deles é fraca. Podemos desfazê-la. E iremos. — A Comandante olha para ela e se surpreende. — Descansar. Eu não disse descansar?
Red relaxa a postura. A incerteza da Comandante sobre um detalhe tão pequeno a preocupa. Ela deveria se preocupar? Não é uma traidora agora?
— Nós planejamos uma solução, com matemática e métodos mais grosseiros. — Ela deixa o alicate na mesa, pega um pedaço de papel e oferece a Red. — Você reconhece essa mulher?
Não é fácil manter a postura relaxada. Ela pega o papel e se obriga a olhar o desenho de carvão como alguém olharia se estivesse vasculhando a memória à procura de uma face vista de relance do outro lado de um campo de batalha e então esquecida. Ocorre a Red, enquanto pondera sobre a face que habita seus sonhos, que ela nunca antes tinha arriscado passar tanto tempo observando esse rosto em particular — ou mesmo pensando nele.
O homem na cadeira resmunga.
Red não o culpa. O que a Comandante sabe? É uma armadilha? Se soubessem, a matariam? Ou o plano vai mais longe?
— Eu a reconheço — diz Red, por fim. — Do campo. Vi esse rosto na batalha em Abrogast-882. Ela tem outros.
Mas há sempre uma quietude semelhante nos olhos e uma curva cruel e inteligente na boca. Ela brilha. Essa última parte Red não diz.
— Foi de lá que nossos observadores tiraram essa aparência.
A barraca, de repente, fica mais fria do que o lado de fora. Observadores. Há quanto tempo? O que eles viram? Ela se recorda da batalha com a sombra.
— Imagino que seja a agente que desencadeou o efeito em cascata.
— E o preparou. Efetiva e perigosa. Tão perigosa quanto você, à maneira dela.
Uma abertura.
— Vou colocá-la no topo da minha lista de alvos. — E vamos nos revezar nos caçando.
— Vire o desenho — diz a Comandante.
Quando Red pegou o papel, o lado de trás estava vazio. Agora há um emaranhado multicolorido que ela está muito mais acostumada a visualizar em três dimensões. Ela estreita os olhos, os envesga levemente, e a topologia emerge da bagunça multicor. Um fio verde, que ela acha que deveria ser azul, corre pelo núcleo da trança — mas se desvia aqui e ali para interceptar outro, que é cinza e deveria ser vermelho. Quanta ignorância ela pode fingir e permanecer convincente?
— Eu não entendo.
— Até onde pudemos traçar, seus caminhos fio acima e abaixo formaram esse novo núcleo de trança. Mas esses desvios, bem… essa linha cinza representa sua própria trajetória.
— Nós nos enfrentamos em Abrogast-882 — diz Red. — E acho que também em Samarcanda. — O que mais a Comandante sabe? Ela consegue ler qualquer abstração, tensão, peso, qualquer proposição e contra-argumento. — Beijing.
Como Red pode explicar essa topologia que a coloca repetidamente perto de Blue? Ela pensa e tenta não aparentar estar pensando.
— Você não está me entendendo — responde a Comandante. — Nós acreditamos que seus caminhos se cruzaram porque ela fez questão disso. Muitas vezes sutilmente: fio acima ou abaixo, alterações tão pequenas que eram quase indetectáveis.
— Como assim? — Ela sabe o que a Comandante está dizendo, mas também sabe o papel que precisa cumprir.
— Essa agente está aliciando você. O comportamento dela sugere um gosto por atos grandiosos. Você está sendo enganada. Sutilmente, talvez tão sutilmente que nem perceba. Os chefes dela querem um elo fraco nas nossas fileiras.
Poderia ser verdade. Não é, mas poderia ser. Ela sabe que não é. Ela sabe.
— Eu sou leal.
Comumente, essa não é uma coisa que pessoas leais dizem, mas a Comandante está perdida demais em seus pensamentos para notar.
— Acreditamos que ela queira te converter. Ela está semeando insatisfação. Detalhes de percepção que você talvez nem note. Ela não está tentando te matar: nós te escaneamos e está tudo bem.
Quando foi o escaneamento? Quem o fez? O que mais encontraram?
— Ela está esperando que você dê alguma abertura: pergunte alguma coisa, inicie contato. Algo tão sutil que poderia plausivelmente escapar das nossas observações. Essa mensagem é o nosso portal. Através dela, nós atacamos.
Lá fora, uma única peça de artilharia dispara, por alguma razão. Os ouvidos de Red zumbem. O homem na cadeira geme. A Comandante não se move. Ela não sabe que é o esperado. Red não deveria fingir estupidez diante dessa mulher, mas precisa do tempo que uma explicação pode lhe dar.
— O que você sugere?
— Você está familiarizada com esteganografia genética? — pergunta a Comandante.
Essa é uma daquelas perguntas que não se espera que Red responda.
— Nossas melhores mentes vão te ajudar a elaborar a mensagem. Acabaremos com ela, e acabaremos com a ameaça. Sem sua peça central, o trabalho recente do nosso adversário será facilmente desfeito. Você é fundamental para o esforço de guerra, agente.
A Comandante pega uma carta lacrada da escrivaninha e a entrega para Red. Ela segura a carta com força demais, já que está desacostumada a ter mãos. Red aceita. O envelope fica manchado de sangue e o papel, amassado e vincado da pegada da Comandante.
— Suspenda suas operações em andamento. Transfira-se para o fio indicado aqui. Comece o trabalho. Salve o mundo.
— Sim, senhora. — Red bate continência à comandante novamente.
A Comandante retribui a continência, depois pega o alicate de novo. O homem na cadeira já está gritando quando Red sai.
Um camarada acena, quer falar com Red. Ela marcha em direção ao seu dever. Avança por dez fios, por um continente, diversos séculos acima, antes de desabar aos pés de uma enorme muralha de água cintilante chamada Mosi-oa-Tunya, e não chora.
Ela observa com os olhos abertos.
Algum tempo depois, uma abelha passa zumbindo por suas orelhas e dança diante dela em meio aos esguichos de água. Red lê a carta que a abelha escreve no ar e sente um enjoo na altura da chama em seu peito. Elas podem dar um jeito. Precisam dar um jeito.
No fim, ela ergue a mão. A abelha se acomoda ali e enfia o ferrão na sua palma.
Mais tarde, quando Red se foi, uma pequena aranha, estranhamente aventureira, apanha o cadáver. Depois, quando a aranha já comeu o inseto, a rastreadora come a aranha.
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