É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 46
Uma cela é todo o mundo de Red.
É levada dali às vezes, para ser questionada. A Comandante tem tantas perguntas, todas variações do básico: por que e quando, e como e o quê. Eles acham que sabem quem.
Na primeira vez que a Comandante a interrogou, Red sorriu e disse a ela para perguntar com jeitinho. Então eles a machucaram.
Na segunda vez que a Comandante a interrogou, Red disse mais uma vez para ela perguntar com jeitinho. Eles a machucaram novamente.
Às vezes eles oferecem dor. Às vezes oferecem uma boa refeição e liberdade, uma palavra que deve significar alguma coisa para eles.
Mas quando ela não está em uso, o mundo é essa cela, essa caixa: paredes cinzentas que se encontram sobre sua cabeça; um chão liso e cinza; cantos arredondados. Uma cama. Um vaso sanitário. Quando ela acorda, encontra comida em uma bandeja. Quando alguém vem falar com ela, uma porta se abre em um ponto aleatório da parede curvada. Sua pele está em carne viva. Sob ela, há espaços vazios onde ficavam suas armas.
Red suspeita que construíram essa prisão especialmente para ela. Eles a arrastam por outras celas, todas vazias. Talvez queiram que ela pense estar sozinha.
A guarda se aproxima certa manhã. Ela decidiu acreditar que quando dorme é noite, que quando acorda é manhã. Sol ausente, quem se importa? Ela é arrastada por outro corredor vazio. A Comandante aguarda. Sem alicate dessa vez. Parece tão cansada quanto Red. Ela aprendeu o que é exaustão em suas muitas sessões juntas, assim como Red aprendeu o que é medo.
— Fale — diz a Comandante. — Esta é a última vez que eu pergunto. Amanhã, vamos te despedaçar e analisar os pedaços para descobrir o que precisamos.
Red ergue uma sobrancelha.
— Por favor — fala a Comandante, seca como aço.
Red não diz nada.
Ela não pensa em romãs. Não ousa ter esperança. Só tinham uma chance. E mesmo que tenha funcionado, mesmo que ela tenha acordado, por que viria salvar você?
Você a traiu.
Red não pensa.
A guarda a arrasta de volta pelo longo corredor e para diante de uma porta aberta.
Red, pronta para ser atirada mais uma vez em seu pequeno mundo cinzento, olha para trás. A guarda a observa com olhos serenos e avaliadores e a boca torcida em uma linha cruel e esperta.
— Por que você está fazendo isso? — Rouco, baixo. Eles não devem conversar com prisioneiros.
Red sempre gostou de uma conversinha. E… amanhã é o fim.
— Algumas coisas importam mais do que vencer.
A guarda considera a resposta. Red conhece o tipo: idealista, mas sem habilidade, esperando subir de posição por ser de confiança. No entanto, sua deserção a fez abrir a boca.
Blue teria ficado impressionada.
— Você invadiu Jardim, e escapou, e se recusa a nos contar como. Então você não está do nosso lado. Por que então não se juntou a eles, quando teve a chance? Nos entregou? — Tão sincera. Red já foi assim.
— Jardim não nos merece. Nem a Agência.
E por “nós” ela quer dizer ela mesma e Blue, onde quer que esteja, se de fato está. Ela quer dizer todos eles, todos os fantasmas de todos os fios morrendo nessa velha guerra doentia. Até essa guarda. Red dá a ela essa verdade, ao menos. Talvez isso salve sua vida.
A guarda a joga em sua cela de qualquer jeito.
Red cai no chão e escorrega. Ela fica deitada imóvel e não ergue os olhos. Algo farfalha atrás dela. A porta da cela se fecha. Tudo acaba em breve. Ela fez o que pôde. A guarda se afasta, as batidas das botas ecoando pesadas, medidas, lentas.
Quando Red olha para cima, um pequeno retângulo de papel jaz sobre o chão.
Ela se contorce em direção ao envelope, agarra-o.
Seu nome. A caligrafia que ela reconhece.
Ela se lembra da pegada forte da guarda em seu braço. Lembra aquela voz. Era familiar?
Ela abre o envelope com o polegar e lê, e na segunda linha suas bochechas estão doendo com a ferocidade do seu sorriso.
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