É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 4
Minha tão traiçoeira Blue,
como é que se começa esse tipo de coisa? Faz tanto tempo desde a última vez que iniciei uma conversa. Nós não somos tão isolados quanto vocês, nem tão presos em nossas mentes. Nós pensamos em público. Nossas ideias educam a todos, corrigem, expandem, reformam. E é por isso que vencemos.
Mesmo durante o treinamento, eu e as outras cadetes nos conhecíamos como se conhece um sonho de infância. Eu cumprimentava camaradas que pensava nunca ter encontrado, só para descobrir que já havíamos nos cruzado em algum canto estranho da nuvem, antes mesmo de sabermos quem éramos.
Então: eu não tenho habilidade em manter correspondência. Mas escaneei livros o suficiente e indexei exemplos o suficiente para ensaiar a forma.
A maioria das cartas começa com um endereçamento direto ao leitor. Eu já fiz isso, então agora vêm os negócios em comum: eu sinto muito que você não tenha conseguido encontrar a boa doutora. Ela é importante. Mais objetivamente, as filhas da irmã dela serão, se a doutora as visitar nesta tarde e elas discutirem padrões no canto dos pássaros — o que ela já terá feito quando você decifrar esta nota. Meus métodos astutos para tirá-la de suas garras? Problema no motor, um bom dia de primavera, um programa de acesso remoto suspeitosamente eficaz e barato que seu hospital adquiriu dois anos atrás e que permite a ela trabalhar de casa. Assim trançamos o Filamento 6 para o Filamento 9, e nosso glorioso futuro de cristal brilha tão forte que eu tenho que usar óculos escuros, como diz o profeta.
Ao lembrar nosso último encontro, pensei que seria melhor me certificar de que você não desvirtuasse mais nenhum terráqueo para seus propósitos, por isso a ameaça de bomba. Tosco, mas eficaz.
Eu aprecio a sua sutileza. Nem toda batalha é grandiosa, nem toda arma é violenta. Mesmo nós que lutamos guerras através do tempo esquecemos o valor de uma palavra no momento certo, um ruído no motor do carro certo, um prego na ferradura certa… É tão fácil esmagar um planeta que o valor de um sopro em um banco de neve pode passar despercebido.
Se dirigir ao leitor — feito. Discutir negócios em comum — feito, quase.
Imagino você rindo desta carta, descrente. Já vi você rindo, eu acho — nas fileiras do Exército Sempre Vitorioso, enquanto suas duplicatas queimavam o Palácio de Verão e eu resgatava o que podia do maravilhoso dispositivo mecânico do Imperador. Você marchou desdenhosa e feroz pelos corredores, caçando uma agente que não sabia que era eu.
Então te imagino cuspindo fogo. Você acha que criou raízes em mim, que plantou sementes ou esporos no meu cérebro — qualquer metáfora vegetal da sua preferência. Mas aqui eu pago a sua carta com a minha. Agora nós temos uma correspondência. Se seus superiores descobrem a respeito, terá início uma série de perguntas que, imagino, vão te deixar desconfortável. Quem está infectando quem? Aprendemos com os troianos, no meu tempo. Você responderá, estabelecendo cumplicidade, continuando o nosso rastro autodestrutivo de papel, apenas para ter a última palavra? Ou vai parar, deixando meu bilhete tecer sua matemática fractal dentro de você?
Eu me pergunto o que eu preferiria.
Finalmente: concluir.
Isso foi divertido.
Minhas lembranças às imensas e destroncadas pernas de pedra,
Red
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