É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 40
Pare.
Blue. Estou falando sério.
Eu te amo. Mas pare. Não leia isso. Cada palavra é assassinato.
Querida Blue, amada Blue, sábia feroz tola Blue, não ignore esse perigo como ignorou a morte e o tempo antes. Esse não é um risco pequeno, nenhum monstro de beira de estrada, nenhum dragão, nenhuma besta da floresta, nenhum deus alienígena para enganar ou derrotar. Nada tão gentil. Essas são palavras feitas para te desfazer, e muito bem. Você não terá outra chance, depois disso.
Largue a carta. Nós ainda teremos uma à outra, como memórias e rivais. Vamos nos encarar na perseguição através do tempo, como foi quando te vi pela primeira vez. Nós ainda podemos dançar, como inimigas. Pare agora, e viva e ame e deixe ser.
Pare, meu amor. Pare. Ache um purgante, um hospital, um sacerdote xamã, um de seus casulos curativos — dá tempo. Por pouco.
Que inferno, pare.
A cada linha que eu escrevo, tenho que imaginar você lendo — e imaginar o que te fez ler até agora, ignorando meu conselho, enquanto seu corpo se revolta e o veneno te toma. Isso embrulha meu estômago. Se você leu até aqui, eu não sou digna de você. Eu sou uma covarde. Eu deixei que me usassem. Se você leu até aqui, fizeram de mim uma arma, e me enfiaram no seu coração.
Eu sou tão fraca.
Desista de mim. Ainda há uma chance — embora pequena. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.
Vá.
Para sempre sua,
Red
E você ainda está aqui. Não é mesmo. Imune às minhas artimanhas, Índigo. Torci para você ir embora e se salvar. Mas você ficou. Eu acho que eu teria ficado também. Espero que eu fosse corajosa assim, se você é. Que uma daria o quanto pudesse para ler as últimas linhas da outra, escritas em água e para sempre.
Eu te amo. Se você chegou até aqui, isso é tudo o que eu posso dizer. Eu te amo e eu te amo e eu te amo, em campos de batalha, em sombras, em tinta desbotada, em gelo frio, salpicada em sangue de foca. Em anéis de árvores. Em destroços de um planeta desaparecendo no espaço. Em água fervente. Em ferroadas de abelha e em asas de libélulas, em estrelas. Nas profundezas da floresta solitária onde vaguei na minha juventude, olhando para cima — e mesmo lá você me observava. Você deslizou de volta pela minha vida, e eu te conheço desde antes de te conhecer.
Eu conheço a sua solidão e atitude, o punho fechado que você é, a lâmina: o caco de vidro no mundo verde-brilhante de Jardim. E ainda assim, você nunca caberia no meu. Eu queria poder ter te mostrado de onde eu vim, de mãos dadas, o mundo que fui designada a construir e proteger — não acho que você teria gostado, mas eu quero vê-lo refletido em seus olhos. Queria poder ter visto a sua trança, e queria que nós pudéssemos ter deixado para trás todos esses shows de horrores e encontrado outro juntas, só para nós. Isso é tudo o que eu quero agora. Um lugarzinho, um cachorro, grama verde. Tocar a sua mão. Correr meus dedos pelos seus cabelos.
Eu nem sei qual é a sensação, e você está…
Eu sinto muito. Não. Se chegamos até aqui, se você foi tão egoísta… eu não quis dizer isso. Eu teria lutado com você para sempre. Eu teria batalhado com você através do tempo. Eu teria te convertido e sido convertida. Eu faria qualquer coisa. Eu fiz tanta coisa e teria feito tudo de novo e mais. E ainda assim, aqui estou, uma tola, escrevendo para você uma última vez, e aqui está você, uma tola, me lendo. Nós somos iguais, ao menos, na tolice.
Espero que você nunca leia estas palavras. Fico enjoada de escrevê-las; eu sei como vai doer chegar tão longe. É sempre tarde demais para dizer o que precisa ser dito. Eu não posso te impedir agora. Não posso te salvar. Amor é o que temos, contra o tempo e a morte, contra todos os poderes dispostos a nos aniquilar. Você me deu tanto… uma história, um futuro, uma calma que me permite escrever estas palavras embora eu esteja me despedaçando. Espero ter te dado algo em troca… acho que você gostaria que eu soubesse que dei. E o que nós fizemos vai resistir, não importa o quanto tramem o mundo contra nós. Está feito agora e para sempre.
O que eu vou fazer, céu? Lago, o que eu faço? Pássaro azul, íris, ultramarina, o que pode vir agora que isso está feito? Mas nunca vai acabar — essa é a resposta. Sempre há nós.
Minha querida, profunda Blue… No fim como no começo, e por todos os meios, eu te amo.
Red
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