É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 35
Se Blue fosse menos profissional, estaria cantando ao cortar a garganta do seu alvo, enrolado confortavelmente sob a colcha de brocado e lençóis de seda do Hôtel La Licorne que ela quase tem pena de estragar. O trabalho mais fácil desde a sua maior conquista, e tudo nos seus filamentos favoritos; Blue quase se sente de férias, está tão relaxada, tão feliz. Outros trabalham agora, para cuidar do novo rebento, enquanto ela corta faixas frescas de carne macia.
Ela não canta… mas o sangue borbulhante do conde sob suas mãos a faz suspirar, e baladas invadem sua língua. O, the earl was fair to see!
Blue nunca fez planos, não para valer. Não para si mesma, nunca. Seu trabalho é executar (ela quase ri, lavando as mãos, mas não ri), cumprir. Está familiarizada com as exortações de advertência de poetas de meia dúzia de filamentos, sobre ratos, homens, planos, canais, Panamá — mas agora ela planeja. Ela se senta em frente ao espelho octogonal em seu próprio quarto — do qual ela nunca sai pela porta, naturalmente, e o sensacionalismo de suas ações só aumenta seu divertimento, para falar a verdade — e trança o cabelo escuro em um penteado lento e cuidadoso. Ela forma um circuito de cores pelos filamentos, faz um mapa deles, e pensa em superfícies, em opostos que combinam, na incrível reciprocidade de um reflexo. Ela escolhe, indolentemente, cenários onde receber e entregar conversas, enquanto uma mão cruza a outra.
Ela venceu, o que não é uma sensação desconhecida. Está feliz, e isso é.
Ela toma as escadas para encontrar seu álibi para um drinque, sorrindo, já pensamento no conhaque que vislumbrou mais cedo naquele dia, o mais vermelho, e como ele vai encher sua boca com doçura e fogo.
Jardim a encara dos olhos do álibi.
Blue não hesita, mas o movimento fluido no qual esconde sua hesitação pode muito bem ser um tropeço para Jardim. Seus dedos seguram o encosto dourado de uma cadeira tão lentamente quanto seus lábios se curvam em um sorriso. Ela puxa a cadeira, se senta, enquanto Jardim enche seu copo com vinho tinto, para que combine com o dela.
— Espero que não se importe de eu aparecer assim — diz Jardim, lançando um olhar verde malicioso a Blue —, mas eu queria muito brindar o nosso sucesso em pessoa. Por assim dizer.
Blue dá uma risada e estende a mão por sobre a mesa para apertar a mão de Jardim calorosamente.
— É bom ver você. Por assim dizer. — Blue retira a mão, pega seu copo, levanta uma sobrancelha. — Mas parece que alguma coisa te preocupa.
— Primeiro, o brinde. — Jardim ergue seu copo; Blue imita. — Ao sucesso duradouro.
Seus copos tilintam; elas tomam um gole. Blue fecha os olhos enquanto lambe a cor de seus lábios, obliterando seu nome mesmo enquanto sua língua está coberta por ela, ouve a profunda e aveludada voz verde de Jardim.
— Você está em perigo — diz Jardim, em um tom calmo e quase apologético. — E quero levar você para cama.
Blue abre os olhos e finge um olhar de leve surpresa.
— Isso é muito lisonjeiro, mas uma dama deveria ao menos me levar para jantar primeiro.
A risada de Jardim é um farfalhar de folhas enquanto ela se inclina para a frente, e Blue sente que está caindo naqueles olhos, saboreando a tranquilidade que prometem, o descanso.
— Minha querida — diz Jardim —, seu sucesso, embora estelar, tem um toque de… ostentação, digamos. Relativamente falando. Enquanto seus irmãos e irmãs desabrocham e derretem-se de volta a mim, você… — Jardim passa um polegar macio pela bochecha de Blue com um carinho que produz um tremor em sua mandíbula. — Você se enraíza no ar, minha epífita. Não é difícil rastrear a nova trança até você. Você sempre gostou de assinar seus trabalhos — diz Jardim, plantando as palavras no sorriso de Blue como uma figueira-branca.
Se Blue fosse menos profissional, teria parecido perplexa. Mordido o lábio. Fechado seu interior em uma tumba e o afogado em um pântano e incendiado o pântano em pânico de o que e quando e há quanto tempo.
Em vez disso, ela vasculha as palavras de Jardim, seu olhar, seu tom, até suas profundezas, e traz à tona nada além da repreensão carinhosa a um hábito antigo. Ela se inclina para a frente, segura as mãos de Jardim novamente.
— Se você me integrar agora, vamos arriscar perder o terreno que ganhamos. Mais lentamente, sim, mas será um movimento lateral em vez de um passo à frente. Se me deixar ficar, podemos forçar essa vantagem. Você deve sentir a diferença, não? Estamos à beira de alguma coisa.
— Beiras — diz Jardim, com uma bondade casual. — Normalmente nos afastamos delas.
— Também são bons lugares de onde jogar nossos inimigos — diz Blue. — Normalmente.
Jardim gargalha, e Blue sabe que venceu.
— Muito bem. Quando você tiver acabado aqui, prossiga fio acima até encontrar meu sinal, depois atravesse doze filamentos. Há uma delicada oportunidade lá. — Jardim solta sua mão lentamente. — Você é mais preciosa do que pensa, minha salsola. Cuide-se.
Então Jardim se vai, e Blue faz uma observação seca sobre como o vinho é forte enquanto seu álibi retoma o foco, ri, e a noite se dissolve em diversão.
Quando Blue sai do hotel, na manhã seguinte, o concierge parece confuso.
— Minhas desculpas, senhorita. Aconteceu um erro na sua conta. Eu vou refazê-la…
— Posso…? — diz Blue, sem tremer, sem hesitar, mão enluvada e firme ao esticar o braço para pegar a nota, já compreendendo o que é a mancha de tinta disfarçada de um ponto decimal improvável.
Ela lê enquanto o concierge continua observando.
— Ah, sim — diz ela, sua voz quente e clara. — Minha amiga e eu nos divertimos um pouco demais noite passada, mas champagne teria sido exagero. Você tem razão. — Ela sorri. — Não estávamos celebrando nada.
Ela amassa a conta manchada habilmente, antes que o concierge possa pedi-la de volta, paga a conta nova, sai, e imagina o grito da camareira uma hora mais tarde no lugar do seu próprio grito. Um jardineiro queima folhas do lado de fora; Blue joga a conta velha nas chamas sem diminuir o passo.
Depois que ela some, a Rastreadora arranca a conta ardente das flamas e a come ainda quente.
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