É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 16
Queridíssima 0000FF,
concordamos sobre Atlântida — quem diria? Suponho que nenhum fio seja uma coisa só; somos treinados confiando totalmente nessa ideia. Todos têm facetas, ganchos, farpas, úteis de diferentes maneiras, dependendo da articulação. Só novatos acreditam que uma única mudança vai criar um fio assim ou assado. Um evento — uma invasão ou um espasmo ou um suspiro — é como um martelo: um lado cego e perfeito para cravar pregos, o outro uma garra para libertá-los. E, como se faz com martelos, armazenam-se Atlântidas fora de vista quando não estão em uso, enfiando em uma gaveta em algum lugar, a salvo até que surja a necessidade.
Eu me pergunto, nesse sentido, quanto do seu trabalho já me ajudou, e vice-versa — uma pergunta além da minha capacidade calculadora. Eu perguntaria para o Oráculo do Caos, mas já tenho problemas o suficiente com meus superiores no momento. Tive que acelerar, depois que sua última carta me pegou cochilando. A Comandante quis explicações, como comandantes tendem a querer, depois que tantos tesouros afundaram junto com a ilha náufraga. Um breve lapso de eficiência, de acordo com os modelos da Agência, mas bem dentro do limite de tolerância, considerando meu histórico. No entanto, somadas as incursões que o seu lado fez contra nossos agentes disfarçados em posições mais vulneráveis… Bem, eu não deveria falar de negócios. Que tédio, diriam seus companheiros do salão de chá.
Resumindo: já se passou muito tempo desde minha última carta.
A Atlântida do Filamento 233 não foi a mais ofensiva da ninhada, e eu passei pouco tempo lá. Fiz piada, mas vejo seu valor. Humanos precisam de objetivos para almejar — mas sistemas imperfeitos se deterioram. Então construímos ideais. Agentes de mudança sobem pelos fios, encontram filamentos úteis, preservam o que importa, e deixam o que não importa se esfacelar: adubo para a semente de um futuro mais perfeito.
A sra. Leavitt sugere utilizar metáforas que o correspondente — que é você, eu acho? — considerará significativas. Confesso que não sei exatamente o que é significativo para você. Fico caindo em suposições: sementes e grama, coisas que florescem. Beira o estereótipo. E quando você me escreve, fala de fornalhas e chamas.
Você pergunta sobre fome.
Você pergunta, particularmente, sobre a minha fome.
A resposta curta: não.
A resposta longa: eu acho que não?
Nós saciamos necessidades antes de senti-las. Neste corpo, um órgão (um órgão projetado, implantado e rigorosamente testado) situado em algum lugar acima do meu estômago registra o momento em que o meu metabolismo requer combustível e impede os antigos subsistemas primitivos que me deixariam afoita e irritada e turvariam meus pensamentos — todos aqueles truques que a Senhora Evolução faz para nos transformar em caçadoras, assassinas, rastreadoras, descobridoras e engolidoras. Eu posso desativar o órgão, quando preciso, mas é muito mais estável receber um relatório de aviso do que me sentir fraca.
Mas a fome que você descreve — essa navalha atravessando a pele, essa desintegração, como a de uma encosta constantemente atingida por tempestades, esse vazio — soa bonita e familiar.
Quando eu era menina, eu amava ler. Um passatempo arcaico, eu sei; baixar e indexar é mais rápido, mais eficiente, e oferece melhor retenção e aquisição de conhecimento. Mas eu lia, antigos volumes, livros usados e recém-replicados: que coisa estranha descobrir coisas em sequência! Então uma vez eu li uma história em quadrinhos, sobre Sócrates. No quadrinho, ele era um soldado — ele era, essa parte é verdade, eu perguntei a ele — e uma noite, enquanto seus companheiros dormiam, ele começou a pensar. Ele se pôs de pé, imóvel, perdido em pensamentos, até a aurora — instante no qual descobriu a resposta para sua questão.
Isso me pareceu muito romântico na época. Então saí da minha cápsula e vaguei fio acima, para muito longe, longe das conversas e da vigilância mútua. Encontrei o topo de uma colina em um mundo pequeno, respirável, mas estéril, e fiquei lá de pé como Sócrates na história em quadrinhos, perdida em pensamentos, o peso apoiado em um pé, e não me movi.
O sol se pôs. As estrelas brotaram. (Elas são um broto, certo? Ou algo assim? Dante disse isso.) Quando meus ouvidos se acostumaram ao silêncio, eu percebi que ainda conseguia ouvir os outros: nossas conversas enxameavam os céus; nossas vozes ecoavam das estrelas. Não foi assim para Sócrates, nem Li Bai nem Qu Yuan. Meu isolamento, meu experimento, tinha causado uma pequena comoção entre aqueles que gostavam de mim, e de quem eu gostava, e essa comoção se espalhou. Lentes e olhos se viraram na minha direção.
Eu tinha, eu acho, treze anos.
Recebi sugestões: livros de filosofia, guias de meditação, ofertas de prática e aliança. Elas me cercaram. Sussurros nos meus ouvidos: Você está bem? Precisa de ajuda? Você pode falar com a gente. Você sempre pode falar.
Houve lágrimas. Outros órgãos controlam esse processo também, chorar — eles mantêm nossos olhos limpos e nossa mente alerta, mas química é química; cortisol é cortisol.
Está mais difícil de escrever do que deveria. Também está mais fácil de escrever do que deveria. Estou me contradizendo. Os geômetras ficariam com vergonha.
Eu os mandei embora.
Todo mundo tem direito à privacidade, então recusei suas visitas. Eu era a única pessoa naquela pequena rocha, e fiz o mundo escurecer.
O vento soprava. Lugares altos esfriam, à noite. Pedras afiadas machucavam meus pés. Pela primeira vez em treze anos eu estava sozinha. Eu, o que quer que eu fosse, o que quer que eu seja, tropecei primeiro nas estrelas, depois na terra partida. Cavei solo adentro. Pássaros noturnos cantavam; algo como um lobo, mas solitário e maior, com seis pernas e duas fileiras de olhos, passou devagar.
As lágrimas secaram.
E eu me senti sozinha. Senti falta daquelas vozes. Senti falta das mentes por trás delas. Eu queria ser vista. Essa necessidade tomou meu coração. Foi bom. Não sei bem como comparar isso a algo que você entenderia, mas imagine uma pessoa mesclada a uma Coisa, um deus artificial do tamanho das montanhas, construído para fazer guerra nos lugares mais recônditos do cosmo. Imagine esse grandioso peso de metal ao redor dela, comprimindo-a, dando força a ela, suas mangueiras acopladas na carne dela. Imagine que ela corta as mangueiras fora, sai: frágil, exaurida, fraca, livre.
Eu estava leve, oca, faminta. O sol nasceu. Não houve revelação. Eu não sou Sócrates. (Eu conheço Sócrates, servi com Sócrates, e com você, senador… Mas estou divagando.) Mas continuei caminhando, daquele lugar a outro, e do outro para o seguinte, até que, anos depois, voltei para casa.
E quando a Comandante me encontrou, deslizou para dentro de mim e disse “há trabalho para pessoas como você”, me perguntei se todos os agentes eram como eu. Não eram — descobri isso mais tarde. Mas somos todos desviantes de maneiras distintas.
Isso é fome? Eu não sei.
Mas sem amigos, então? Blue! Eu nunca teria imaginado isso. Não sei — acho que imaginamos vocês todos ao redor de fogueiras cantando velhas canções de guerra.
Você tem se sentido solitária?
Espero que o chá esteja bem. Bom? Bem. Da próxima, vou procurar por você em um foro mais público.
Da sua,
Red
PS. Eu hesito em escrever isso, mas… notei que minhas cartas têm sido longas. Se você preferir que eu seja mais concisa, posso ser. Não quero presumir nada.
PPS. Desculpe a imprecisão da minha saudação — eu acho que é de saudação que a sra. Leavitt chama? Esqueci o nome que os Londrinos do Filamento 8 C19 deram àquele tom de azul sobre a porcelana importada. Eu teria usado, se lembrasse.
PPPS. Nós ainda vamos vencer.
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