É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 40 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 41

Red chega tarde demais.

Ela nem deveria ter vindo. A Comandante vai observá-la de perto, porque esse é seu triunfo, esperado há tempos. Red não se importa.

Ela raramente sonha, mas sonhou esta noite, com atores e um palco vazio, com Blue esmagando uma frutinha venenosa entre os dentes, e ao acordar Red gritou, suada, boca dormente, desperta e confusa, como se um painel de vidro dentro de sua alma tivesse se rachado. O terror a dominou. Ela não vai confiar na história ou nos relatórios dos espiões.

Fios queimam quando se entra neles. Ela se materializa no ar e entra em uma rua lamacenta que fede a merda, em alguma Albião fio acima, fria sob o sol fraco em um céu de cor pálida. Ela usa calças, um casaco longo, luvas simples; aos olhos dos locais, daria no mesmo se estivesse nua. Sua passagem cria ondas. Ela não vai se demorar ali. Jardim, em pânico, envia rebentos fio acima para pegá-la, persegui-la, matá-la; a Comandante, pressentindo isso, manda os próprios agentes para o confronto.

Fodam-se todos.

Ela conhece a loja, observou-a de longe, e adentra uma névoa de cheiros enjoativos de frutas e ervas secando e metais pesados, todas as paredes tomadas de ramos em algum estado de dissecação. O mestre alquimista atende uma cliente viúva com lágrimas escorrendo; eles encaram Red em choque, assustados, e ela os paralisa com um gesto de suas luvas. Sobe as escadas, encontra o quarto da aprendiz. Bate uma vez, rosna, arranca a porta das dobradiças.

E lá está ela, caída sobre a cama.

Ela podia estar dormindo, embrulhada na luz do sol, mas não está. O sangue já coagulou. Red queria que o veneno fosse indolor, mas o povo de Jardim — Blue — se agarra à vida, e soltá-los exige certa selvageria. Blue lutou para… Red não suporta pensar na palavra “morrer”, de início, mas isso é hipocrisia. A culpa é dela. O mínimo que pode fazer é assumir. Começa de novo:

Blue lutou para morrer serenamente. Red só vê a dor porque sabe que existiu, e sabe também qual é a expressão de Blue quando está escondendo alguma coisa.

A face, imóvel. A mandíbula travada, lábios levemente separados. O peito não sobe ou desce. As pálpebras entreabertas, o branco dos olhos visível e varados de sangue.

Uma mão segura uma carta contra o peito. Na carta, o nome de Red. Seu verdadeiro nome. Blue não deveria sabê-lo. Por outro lado, Blue nunca disse que não sabia. Uma última confissão. Uma última provocação.

A carta está lacrada.

O céu deveria se partir.

O mundo está oco, suas muitas tranças emaranhadas como chiclete, sem sentido. Que morram.

Red cai de joelhos ao lado da cama. Ela passa a mão pelo cabelo de Blue e o segura entre os dedos, e não é como ela imaginava, e essa é a última piada sem graça. Ela agarra e sente o crânio, a imobilidade, e deixa que seus próprios soluços a engasguem e silenciem.

O céu muda de cor fora da janela. Vinhas brotam de tábuas mortas. Alarmes estão soando no ordenado Jardim e pelos corredores frios da Agência. Agentes expostos, em perigo, mortos. Monstros escalam fio acima para encontrá-la, para matá-la, salvá-la.

Ela segura Blue e a sente fria e enrijecida. O mundo treme e o céu escurece. Jardim pode queimar todo esse filamento para não deixar a infecção se espalhar.

Mas por algum instinto covarde, enquanto o céu escurece e os gritos começam lá fora, Red agarra a carta e corre.

Ela é rápida e feroz, e, diferentemente de seus perseguidores, não se importa se nunca mais encontrar o caminho de casa. Ela desliza de fio em fio. Cidades desabrocham e apodrecem ao seu redor. Estrelas morrem. Continentes mudam. Tudo começa, e tudo fracassa.

Ela se encontra em um penhasco no fim do mundo. Nuvens cogumelo florescem no horizonte enquanto remanescentes de remanescentes da humanidade se destroem.

Suas mãos tremem ao erguerem a carta. O lacre é uma nódoa, um ponto, um fim. Ele ri dela, tão vermelho como Red, e faminto, e ela quer dentes sob os quais se encolher, uma caverna que seja uma boca onde ela possa se esconder e ser devorada e engolida e desaparecer. Isso é a última coisa. Blue deveria ter escutado. Deveria ter fugido. Como ela pode ter morrido assim? Como ela pode ter morrido?

As lágrimas são de raiva, primeiro, mas a raiva se consome rápido. As lágrimas ficam.

Ela passa os dedos sob a aba e puxa. O lacre se rompe fácil como uma espinha.

Ela lê.

Ao redor, o mundo queima. Plantas murcham. As ondas levam as carcaças para longe da costa.

Red grita aos céus. Chama por Seres nos quais não acredita. Ela deseja que Deus exista para que possa xingá-la.

Ela lê novamente.

Vento radioativo sopra contra ela. Órgãos escondidos despertam para mantê-la viva.

Uma sombra está atrás dela.

Red se vira e olha.

Ela nunca tinha visto a rastreadora antes, sua sombra; mesmo agora só vê o contorno, uma distorção, cristal no fundo de um rio límpido — e uma mão esticada. Não era ninguém da Agência, afinal — e nem de Jardim. Isso deveria ser um mistério, um desvelar de segredos… uma resposta.

O que importa?, ela pensa. De que importa tudo isso?

Ela põe a carta naquela mão vitrificada e pula do penhasco.

Agarra-se a seu desespero conforme pedras passam e outras se aproximam e o céu é arrasado por bombas, mas em seu último suspiro antes do impacto, ela freia. Isso seria bom demais para ela, fácil demais, rápido demais. Blue não a agraciaria com uma morte tão limpa. E ela sempre foi uma covarde.

Chorando, xingando, arrasada, a um milímetro das rochas, ela desliza para o passado.

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