É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 42
Ah, Red.
Sentir você se contorcendo em mim. Retorcendo. Você é um chicote se desenrolando nas minhas veias, e eu escrevo entre o recuo e o estalo.
É claro que escrevo para você. É claro que eu comi suas palavras.
Vou tentar me recompor — me organizar em algo que você possa ler. Eu recorro a papel e pena porque não dá tempo agora de fazer qualquer outra coisa — e é um luxo, de certa forma, fazer isso. Escrever em plena vista. Escrever, também, ao ritmo do que sinto acontecendo. É fascinante, à sua própria maneira. É tudo o que eu queria de uma inimiga. Queria que você pudesse me ouvir aplaudindo.
Bravo, minha romã. Muito bem. Nove de dez.
(Eu reservo um ponto, sempre, para encorajar um esforço maior.)
A dor nos dentes de trás é um toque interessante. Já passei pelo suor e frio e agora acho que as minhas mãos estão começando a tremer, então peço que você perdoe as minhas falhas no domínio da pena. Você pode ler o seu triunfo nelas.
A princípio, eu fiquei decepcionada, sabe — a obviedade do blefe duplo. Me pareceu que você protestou demais. Mas funcionou, afinal… eu mordi sua maçã envenenada. Não haverá caixão de vidro — a única coisa que seu Turno teria sido para mim — e certamente não haverá príncipe necrófilo para me levar a uma história diferente.
Você teria dado uma agente esplêndida para o nosso lado, de verdade. Se tem uma coisa que me entristece nisso tudo é o seu desperdício — doce e segura em lugares frios e afiados que não vão amar perfurar sua pele.
A agulha afunda e se espalha pelos canais. Eu jorro anacronismos enquanto relaxo. É bom me sentir tão em comunhão com o universo, de algum modo. Eu nunca morri exceto uma vez — aquela vez que eu te contei — e foi muito diferente. Estranho como ser apagada pode te alinhar a uma narrativa mais grandiosa.
Eu te amo. Isso era verdade. Com o que resta de mim eu não consigo evitar te amar ainda. É assim que você vence, Red: um jogo longo, uma mão sutil bem planejada. Você me enganou muito orquestradamente e espero que não se importe que eu sinta um pouco de orgulho de você por uma traição tão magnífica.
Eu te vejo agora como a ampulheta vermelha nas costas de uma viúva-negra, medindo minha vida sobre o sangue derramado. Imagino você encontrando o que restar do meu corpo, girando suas mortalhas de nanomáquinas para partir, aprender, consumir os meus restos. Imagino que vá ser exaustivamente limpo. Chato, até. Eu certamente espero já estar morta até lá.
A dor é mesmo excruciante. É maravilhoso, de verdade. É essa a sensação de não sentir mais fome? Muito menos trabalhoso do que o outro jeito. Eu queria poder voltar fio acima e…
Acho que é isso. Preciso manter força o suficiente para lacrar a carta. Se não, o que a sra. Leavitt diria? Ou Bess, ou Chatterton?
Obrigada, Red. Foi uma grande aventura.
Cuide-se, minha baga de teixo, minha cereja-selvagem, minha dedaleira.
Da sua
Blue
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