É assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone · Capítulo 22 de 49

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É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo 22

Minha querida Miskowaanzhe,

 

escrevo para você na escuridão que antecede a aurora, lentamente, à mão, giz na ardósia — mais tarde vou traduzir essas palavras em penas. Há uma pequena colina de onde posso ver o sol se pôr sobre o rio Ottawa; toda noite eu vejo um céu vermelho sangrar sobre as águas azuis e penso em nós. Você já viu esse tipo de pôr do sol? As cores não se misturam: quanto mais vermelho o céu fica, mais azulada a água, enquanto giramos para longe do sol.

Estou integrada agora, em um belo filamento de Jardim — um daqueles onde este continente não foi criticamente infestado por colonizadores com filosofias e modos de produção inimigos ao nosso Turno —, em uma missão de pesquisa, puxando e drenando fibras para trançá-las melhor em outros filamentos. Sempre um ato de equilíbrio, é claro, dar sem perder, apoiar sem enfraquecer. Tudo uma tecelagem.

Fui colocada aqui para convalescer, eu acho. Jardim nem sempre fala com todas as letras, mas sabe da minha afeição por beija-flores e gansos migratórios. Estou grata. É bom escrever com tranquilidade. Espero escrever cartas mais longas, enquanto estiver aqui, nem que seja apenas porque elas terão que chegar a você em um ritmo mais lento — vai demorar muito até que eu consiga me mover pela trança novamente.

Estou casada e logo vou acordar meu marido com chá de rosa-mosqueta e o café da manhã, antes de colocá-lo no trem. Ele é um homem bom, um mensageiro e batedor, e os dias estão ficando mais frescos, então há muitas mensagens e suprimentos para enviar e compartilhar antes que a temporada de histórias chegue e nos deixe abrigados em casa.

É um grande luxo me demorar nesses detalhes — reparti-los com você. Eu quero, Red… eu quero te dar coisas.

Você já provou rosa-mosqueta, em chá ou geleia? Uma acidez azeda que limpa os dentes, refresca, tem o aroma de uma boa manhã. Uma mistura de rosa-mosqueta e hortelã me faz ficar molhando os dedos o dia todo, para manter esses perfumes na cabeça. Sumagre também — eu acho que você vai gostar de sumagre.

Eu me pego nomeando coisas vermelhas que não são doces.

Sua carta… sua última carta. Fique certa de que não vou deixá-la em nenhum lugar onde seus companheiros possam ler. É minha. Eu cuido do que é meu.

Tenho poucas coisas, sabe? De minhas. Em Jardim, nós pertencemos uns aos outros de um jeito que oblitera esse termo. Nós afundamos e crescemos e brotamos e desabrochamos juntos; nós infundimos Jardim; Jardim se espalha através de nós. Mas Jardim não gosta de palavras. Palavras são abstrações, rompem com o verde; palavras são padrões, assim como cercas e fossos. Palavras machucam. Eu posso esconder palavras, desde que as espalhe pelo meu corpo; ler as suas cartas é colher flores dentro de mim, arrancar um botão aqui, uma samambaia ali, arrumá-las e rearrumá-las de um jeito que combinem com um quarto ensolarado.

Acho engraçada a ideia de gostar da sua Comandante. Que filamento estranho esse seria.

Eu fico me desviando de falar sobre a sua carta. Eu sinto que… falar dela seria limitar o efeito dela em mim, diminuir. Não quero fazer isso. Acho que, de algumas maneiras, sou mais filha de Jardim do que ela imagina. Mesmo a poesia, que quebra a linguagem em significados — poesia ossifica, com o tempo, como as árvores. O que é dócil, flexível, macio e fresco se torna duro, cria armadura. Se eu pudesse te tocar, apoiar o dedo em sua têmpora e afundar você em mim, como Jardim faz… talvez assim. Mas eu nunca faria isso.

Então, em vez disso, esta carta.

Pelo visto, escrever à mão no escuro me faz divagar. Que vergonha. Tenho quase certeza de que eu nunca fiquei divagando antes. Outra coisa para dar a você: essa minha primeira vez.

Sua,

Blue

PS. Se esta carta te encontrar perto de uma biblioteca, eu recomendo Travel Light, da Naomi Mitchison. É igual em todos os filamentos em que existe. Pode te reconfortar durante as viagens — eu sei que você está se movendo muito ultimamente.

PPS. Obrigada. Pela carta.

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