É assim que se perde a guerra do tempo
Capítulo 45
Primeiro, ela se encontra em órbita.
O espaço ali é doente. Espesso. Pegajoso. Ela se afoga em uma luz nauseante e pesada como mel. Passar pelo vácuo é como escorregar por carne. O frio toca sua nova pele, mas não queima; seus pulmões não têm ar, mas ela não precisa respirar. Longe e perto, muito perto, brilha um sol que é um olho com uma grande pupila de ampulheta, como a de uma cabra, varrendo o espaço por fraquezas para melhorar, explorar. Todas as estrelas são olhos ali, sempre rastreando. Os profetas de Red protestam contra um universo indiferente; ali, no domínio de Jardim, todo o vasto mundo se preocupa.
O planeta que ela circula já perdeu sua utilidade, ela sabe — os novos órgãos lhe informam. O espaço de fluido espesso se abre. Raízes verdes descem dos vãos, se enrolam no globo e, com a força gentil de uma poda, o esmigalham em terra, extraindo vida de seus fragmentos até que restem apenas cinzas. Os nutrientes são necessários em outro lugar.
O olho que é um sol passa por ela, e Red queima com a fúria de seu olhar.
Ela cometeu um erro terrível. É uma tola, e vai morrer longe de casa. Como pôde pensar que conhecia esse lugar pelas cartas, pelas memórias de uma amiga? Como pôde ter tanta certeza; como pôde acreditar que se tornaria Blue o bastante para sobreviver ali? Se não sabia disso, será que conhecia mesmo Blue?
São esses os pensamentos que buscam traí-la: rachaduras para que raízes a explorem.
Ela pensa em Blue e não se quebra.
O olho segue em frente e Red também, sem demonstrar seu alívio.
Ela anda pelos muitos mundos de Jardim. O próprio espaço é hostil a ela, ali. Musgos exalam gases de sono; esporos flutuam procurando pulmões traidores onde se aninhar. Constelações pendem fosforescentes no céu, e vinhas se emaranham entre galáxias, enormes troncos fazendo pontes entre golfos estelares. A vida rebenta e desabrocha até na fusão nuclear no coração das estrelas. Ela está perdida.
Red rastreia Blue. Atravessa um mangue crescendo em um mar de mercúrio, e aranhas do tamanho de suas mãos caem sobre ela, fazendo cócegas em seus braços, seu pescoço, leves como penas. Eles a questionam em seda e ela responde a cada desafio com memórias de Blue. Blue trançando capim. Blue bebendo chá. Blue, de cabelo raspado, indo roubar de Deus. Blue com seu porrete erguido, Blue com lâmina, Blue fazendo nascer futuros.
As aranhas marcam-na com suas presas, o que é um jeito perigoso de lhe informar sobre o caminho. Mas embora o conhecimento queime suas veias, a mulher que Red se tornou não morre.
Ela segue fio acima. Avança lentamente, pisa leve.
Nós somos semeados, eu acho que você sabe, Blue escreveu. Nós nos enterramos nas tranças do tempo. Nós somos a cerca viva, inteiramente, botões de rosa com espinhos em vez de pétalas.
Red encontra o lugar. A sabedoria das aranhas a leva até um vale verde de vinhas e mariposas, onde desabrocham flores impossivelmente brancas, seus corações apenas um pontilhado vermelho. Ela entra em uma terra de fadas.
Parece uma das amadas pinturas de Blue, mas Red pressente o perigo ali. As rosas exalam aromas de sono: Venha descansar entre nós para que nossos espinhos possam trepar pelos teus ouvidos até a maciez lá dentro. Um enorme cobertor de mariposas de asas cinzentas cai dos galhos de salgueiros para flutuar ao redor dela, pousar sobre ela, provar seus lábios com os probóscides. Asas mais afiadas do que lâminas correm por seus tendões. A grama cresce para amaciar seus passos, mas ela sente a força contida. Ela é Blue o bastante? Se esse lugar suspeitasse do que ela é, Red morreria na hora: escalavrada por asas de mariposas, estrangulada pela grama, comida pelas rosas.
Mas ela pertence a esse lugar. Esse lugar combina com a novidade, com a Bluedade, dentro dela. Desde que não tenha medo. Desde que não vacile e dê ao bosque qualquer razão para suspeitar.
Uma asa de mariposa pressiona, por pouco, entre seus cílios, e ela não grita nem vomita nem corta seu olho ao meio.
Esse é o lugar de Blue. Red não vai dar a ele a satisfação de matá-la.
O pólen espessa o ar com sabedoria. Andar é nadar, e então ela nada, fio acima pela raiz principal que é esse bosque, para um passado que Jardim cercou com muralhas e espinhos para guardar a terra fértil de onde seus agentes mais perfeitos florescem.
Sementes plantadas, raízes se espalhando pelo tempo.
Red nada para o coração vegetal do bosque, cercado de mecanismos úmidos e verdes que Jardim usa para criar e alimentar suas ferramentas, suas armas. No entanto, olhando de modo diferente, com olhos humanos, ela se vê em uma colina perto de uma fazenda no outono.
Lá, jaz a princesa.
A princesa é uma criatura de espinhos e lâminas e chama. Ela é a grande arma inacabada, destruidora e bela. Fileiras de dentes brilham em sua boca.
Olhando de outro jeito, ela é uma garota adormecida em uma colina iluminada.
Quando eu era muito pequena, Blue escreveu, eu fiquei doente.
Quando crescer, ela estará pronta para a guerra. Mas ela ainda não é Blue.
Red se aproxima. Os olhos da princesa se abrem, dourados, cintilantes — e escuros, profundos, humanos, tudo junto, uma armadilha dentro de uma armadilha. Bela garota monstro, ela pisca, entre o sonho e a vigília.
Red se inclina sobre a cama e a beija.
Os dentes dela cortam o lábio de Red. Sua língua se estica e reclama o sangue derramado.
Red entalhou o veneno em sua memória naqueles longos dias no laboratório, enquanto transformava bagas em parágrafos: um veneno faminto, para fazer com que as defesas de Blue se virassem contra ela, para fazer com que Jardim a amputasse, para devorá-la por dentro.
O sangue que dá para Blue beber possui um antegosto daquele veneno — e do antídoto de Red, sua resistência. Um pequeno vírus que, se funcionar, vai marcar a jovem Blue com o mais delicado tom de Red.
Eu fui comprometida por uma ação inimiga.
Tome isso de mim, Red pensa. Carregue com você, uma raiz alimentada pelo que te mataria. Carregue a fome todos os dias. Deixe que ela te cuide, te guie, te salve.
Para que quando o mundo e Jardim e eu e todos pensarmos que você está morta, alguma parte de você desperte. Viva. Lembre.
Se isso funcionar.
O olhar da garota que seria Blue se fixa nela, sonhador, confiante. Ela prova o que lhe é oferecido, reconhece a dor ali, e engole.
A fome corre carmim pelas veias da garota e pelas suas raízes até o vale; ela pulsa e rebenta em pétalas de flores; caustica as asas das mariposas. O bosque arde. Red foge. Mariposas em chamas disparam atrás dela, entalham sulcos em suas pernas e braços e barriga, mas as feridas são cauterizadas logo que feitas. Uma decepa o dedo mínimo de Red. A grama agarra sua perna, arranca a pele de um pedaço da panturrilha direita, mas a grama também se encolhe de fome, e Red cambaleia adiante, sangrando, e tateia fio acima em direção à casa que traiu, em direção à segurança que não é mais segura.
Mas ela não sabe para onde mais pode ir.
O massacrante peso pegajoso do espaço não está mais imóvel. Raiva tensiona a pele dos mundos. Olhos que são estrelas procuram uma traidora.
Jardim a persegue.
Red é rápida, esperta, poderosa, e sente dor. Livre do bosque, quando não é mais necessário ser discreta, ela mobiliza sua armadura, suas armas, e luta para escapar. Basta dizer que não acaba bem. As estrelas que são olhos prendem-na entre possibilidades. Ela batalha com raízes gigantes no vácuo. Libertando-se a muito custo, ela perde a armadura, ossos, dedos, dentes. Red apela para sua última arma secreta de guerra, queima as raízes, cega os olhos — as estrelas colapsam e explodem, e Red cai por um vão entre mundos como se caísse em uma boca.
Ela cambaleia entre fios, em silêncio e tempo nulo, despencando por fim, quebrada, sangrando, quase inconsciente, em um deserto ao lado de duas imensas e destroncadas pernas de pedra.
Ela ergue os olhos, encara, e ri com a voz falhando.
E então as legiões da Comandante caem sobre ela como a noite.
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