Empreendedorismo na Prática: Mitos e Verdades do Empreendedor de Sucesso

Análise dos dados

 

Os resultados das análises são apresentados a seguir organizados por 18 critérios (categorias ou comportamentos). Em seguida, apresenta-se um cruzamento entre alguns critérios levantados com vistas a entender suas relações. As tabelas apresentam as variáveis analisadas e os valores absolutos e relativos atribuídos pelos entrevistados a cada uma dessas variáveis.

Cabe ressaltar que os aspectos analisados em cada grupo não são

necessariamente excludentes, de modo que em todas as tabelas a seguir mais de um critério pode estar assinalado pelo mesmo empreendedor, visto que suas características e comportamentos são influenciados por vários aspectos, até dentro de um mesmo campo de análise.

 

1. Conhecimento

 

A experiência anterior no ramo ou em atividade correlata é um fator fortemente presente entre as características dos empreendedores de sucesso. Considerando ambas as situações, em mais de 60% dos casos de sucesso a experiência anterior foi relevante. Esta constatação é condizente com muitos outros estudos internacionais e ratifica o fato de empreendedores que conhecem o ramo no qual atuam terem mais chances de sucesso.

 

Conhecimento

 

(Admite mais de uma opção)

 

Critério Absoluto Relativo (%)

 

Experiência em outros setores 82 39,81

 

Formação foi relevante 63 30,58

Participa de cursos, seminários etc. 62 30,10

 

Experiência no setor 53 25,73

 

Outros 45 21,84

 

Conhece o mercado 43 20,87

 

Sedento pelo saber/gosta de aprender 39 18,93

 

Total de entrevistas 399 100,00

 

Entrevistas válidas 206 51,63

 

Neste âmbito, além da preparação técnica e profissional, em muitos casos a experiência auxilia o empreendedor a conhecer o mercado, suas falhas e demandas, levando-o a perceber e aproveitar oportunidades.

Alguns comentários extraídos das entrevistas ressaltam esta

constatação:

 

“Aprenda tudo o que puder sobre o negócio e jamais se lance em uma

empreitada sem nenhuma experiência profissional no ramo

pretendido.”

(Empresário do ramo de Alimentos Saudáveis)

 

“Eu acreditava e acredito ter competência suficiente para gerir um

negócio e fazê-lo suficientemente lucrativo. E isto eu pude aprender

durante meu período com o trabalho corporativo, em que éramos

orientados por resultados, mesmo atuando na área de recursos

humanos.”

(Empresário da Indústria e Comércio de Alimentos)

 

“O empreendedor, antes de abrir o negócio, deve conhecer na prática

(e profundamente) seu funcionamento e, acima de tudo, entender e

aceitar a grande responsabilidade, perante a família e a sociedade,

que se deve assumir quando tomada a decisão de se criar um

negócio.”

(Proprietário de Supermercado)

 

“Se não fosse pela experiência de ter trabalhado no segmento, não

teria meios de desenvolver as ideias e a criatividade, não teria talvez

visualizado a oportunidade de um negócio próprio.”

(Empreendedor do ramo de Entretenimento)

 

O mito de que uma ideia maravilhosa e uma cabeça genial são os

ingredientes essenciais para o sucesso parece ser questionado com esta constatação da pesquisa, de que experiência prévia no ramo é essencial e que esta experiência pode ser obtida no mundo corporativo...

 

Cai o mito da ideia desenvolvida na garagem...

 

É muito comum ouvirmos histórias de negócios criados na garagem e que se tornaram grandes

sucessos, transformando seus sócios em milionários. Mas será que não há muito romantismo

nestas histórias? O que é mito e o que é realidade? Os pesquisadores norte-americanos e irmãos

Dan Heath e Chip Heath argumentam que dificilmente negócios criados nas garagens

chegariam ao sucesso e contrariam vários outros estudiosos do assunto, jogando um balde de

água fria sobre a tese de que bastam uma boa ideia e um empreendedor genial para o sucesso

aparecer.

Na verdade, há sim a possibilidade de se criar um negócio na garagem e ter sucesso, mas

não basta apenas isso. Histórias conhecidas e já populares, como o caso dos fundadores do

YouTube, Steve Chen e Chad Hurley, comprovam a tese dos irmãos Heath. Em síntese, eles

argumentam que você precisa ter uma experiência prévia na área para aumentar suas chances

de sucesso, o que pode ocorrer se tiver trabalhado antes em alguma empresa que atua no setor

em que está criando o seu negócio. De fato, Hurley foi um dos primeiros funcionários do site

PayPal e seu sogro, James Clark, fundou a Netscape e a Silicon Graphics. Ou seja, muito

networking e conhecimento da área! Outro exemplo clássico é o caso de Steve Jobs, o criativo e

lendário líder da Apple. Jobs foi funcionário da Atari (empregado número 40 da empresa) e da

HP (Hewlett-Packard) antes de criar a Apple.

Pesquisas com empresas criadas nos Estados Unidos e que receberam aporte de capital de

risco comprovam que em mais de 91% dos casos os fundadores destas empresas tiveram

alguma experiência prévia na mesma indústria (mesmo setor de negócio) antes de se

aventurarem no negócio próprio, o qual surgiu justamente quando ideias aparentemente

absurdas ou fora de foco para o empregador anterior passaram a ser o foco principal e o motivo

de pedirem as contas e criarem o próprio caminho empreendedor.

O recado deixado pelos irmãos Heath é bastante claro para os que se encontram

trabalhando em grandes empresas. Aproveitem este momento para observar o mercado e

identificar oportunidades no setor que você já conhece. Adquira experiência e, a partir daí,

demita-se para criar seu negócio. Eles insistem em dizer que criar o negócio do nada, na

garagem, e ter sucesso não passa de um grande mito. Para os irmãos Heath, as empresas

surgem de outras empresas, do mundo corporativo...

Claro que há um pouco de exagero nisso e esta não pode ser considerada uma regra

definitiva, mas não deixa de ser um caminho possível para quem pensa no próprio negócio e

ainda se encontra no mundo corporativo.

 

Outro aspecto importante apontado pelo estudo trata da relação do

empreendedor com o conhecimento formal, visto que em mais de 30% das entrevistas válidas a formação foi assinalada como importante para o sucesso:

 

“(...) a educação formal é sempre fundamental para qualquer negócio,

em especial a base de conhecimento que deve ser aliada ao

relacionamento.”

(Empreendedor do ramo de Serviços em Tecnologia da Informação)

 

“Jamais teria iniciado este negócio se não tivesse a formação de

engenheiro químico, pois esta formação me garantia o diferencial

para atender bem meu cliente.”

(Empreendedor do setor de Indústria Química)

“Formei-me em Psicologia. Isto é muito relevante quanto aos

problemas de relacionamento entre as pessoas. A maioria dos

problemas no trabalho são mais psicológicos do que técnicos.”

(Empreendedor do setor de Serviços de Informática)

 

“O conselho que dou a meus filhos é que, antes de correr riscos e

desafiar o novo, são necessários conhecimentos administrativos.

Aprendi a administrar na prática da maneira mais difícil, através dos

erros e acertos. Existe uma forma mais fácil, através das

universidades. Depois basta conciliar a teoria com a prática do dia a

dia e trabalhar, trabalhar, trabalhar...”

(Empreendedor do ramo de Transporte)

 

Nem sempre, porém, é possível que se obtenha experiência prática no

ramo em que se pretende atuar. Nesses casos, os empreendedores buscam conhecimento por meio de cursos e eventos, além de realizarem estudos sobre o mercado em que vislumbram atuar. Os empreendedores de sucesso estão atentos ao aprendizado contínuo, buscando reciclar seus conceitos e aprimorar o negócio constantemente:

 

“Somente após aprender como me comportar e como lidar com os

outros e como o mercado à minha volta funciona é que resolvi abrir

um negócio próprio. Foram dois anos visitando de terça a sábado a

noite de São Paulo, conhecendo futuros concorrentes, funcionários e

promoters. Observava cuidadosamente os problemas existentes nas

casas que frequentava e conversava muito com os donos desses

estabelecimentos para saber como resolviam esses problemas.”

(Empreendedor do ramo de Entretenimento)