Empreendedorismo na Prática: Mitos e Verdades do Empreendedor de Sucesso
6. Fatores de influência
Em nosso estudo verificou-se também que a grande maioria dos empreendedores, além de
assumir riscos calculados, gosta de arriscar. E, ainda, poucos empreendedores de sucesso
arriscam sem pensar ou sem calcular os riscos, ratificando que arriscar por arriscar não passa de
um mito ou ato de insensatez daqueles que acham que, para ser considerado empreendedor,
deve-se apostar alto sem pensar nas consequências. Este, aliás, ainda é um dos mitos mais
difundidos acerca dos empreendedores de sucesso. O lema dos empreendedores vencedores é
apostar alto sempre, mas desde que os resultados possam ser mensurados e as eventuais
consequências negativas possam ser gerenciadas.
6. Fatores de influência
O que leva uma pessoa a empreender? Qual é a sua motivação? Os fatores de influência buscam responder a esta pergunta, que na verdade permite múltiplas respostas. Alguns fatores são considerados pelos empreendedores essenciais para o início de um novo negócio, ou seja, definem qual “evento de disparo” os levou a empreender. O que se percebe na verdade é que há combinações de fatores que motivam o empreendedorismo, mas, ainda assim, alguns aspectos-chave destacam-se da maioria.
Fatores de in uência
(Admite mais de uma opção)
Critério Absoluto Relativo (%)
Surgiu oportunidade 62 33,33
Influência de familiares/amigos 49 26,34
Quer ter autonomia 42 22,58
Demissão 34 18,28
Realização pessoal/sonho 32 17,20
Independência financeira 28 15,05
Liberdade para colocar ideias em prática 28 15,05
Insatisfação com o trabalho 22 11,83
Ter experiência no ramo 16 8,60
Outros 10 5,38
Convite direto de amigo/familiar 9 4,84
Melhorar a vida das pessoas 8 4,30
Sucessão familiar 4 2,15
Aposentadoria 2 1,08
Descoberta/inovação 2 1,08
Total de entrevistas 399 100,00
Entrevistas válidas 186 46,62
Contrariando o senso comum, “ganhar mais dinheiro” não aparece
como o principal deles, ou seja, não é o aspecto financeiro o principal motivador dos empreendimentos de sucesso. A percepção de oportunidades é, na maioria dos casos, o fato gerador da atividade empreendedora de sucesso:
“Atender a uma oportunidade identificada no mercado de serviço de
impressão em flexografia que desejava um produto de qualidade com a
flexibilidade neste processo, possibilitando alta qualidade em um
segmento tradicionalmente de baixa qualidade.”
(Empreendedor do setor Gráfico)
“A falta de escolas com foco na cultura japonesa na cidade de
Campinas (SP) motivou-me a montar uma escola infantil com objetivo
de transmitir a cultura oriental.”
(Empreendedor do ramo de Educação)
“A vontade de poder criar oportunidades que fossem de meu interesse
e que fossem ao encontro das necessidades da comunidade. Dessa
forma, tive a oportunidade de participar da evolução das
telecomunicações, criando empresas e consequentemente oferecendo
produtos que ajudaram a melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Fatores como maior liberdade de decisão, aplicação e evolução nos
conhecimentos necessários a empreender, criar o próprio caminho,
relacionamento com novos parceiros e o poder de decidir o que e
como construir também me levaram a ser empreendedor.”
(Empreendedor do setor de Telecomunicações)
A influência de familiares também teve sua destacada importância para
o estímulo da atividade empreendedora. Os principais aspectos observados foram os exemplos familiares e a educação de seus filhos.
“A empresa foi criada graças ao meu pai e ao meu irmão, e eles me
convidaram para participar da sociedade.”
(Empreendedor do setor de Transportes)
“Sem sombra de dúvida, minha formação como empresário iniciou
pela maneira como meu pai agia na educação de seus filhos. Com sete
anos ele já havia me ensinado a gostar do nosso negócio, um posto de
combustíveis. Passei a conviver com empregados de meu pai, com
amigos e com clientes.”
(Empreendedor do setor de Automação Industrial)
“A família foi o maior fator de influência sobre minha vida
profissional. O fato de ver o meu pai fazer negócios diariamente, me
ensinando a não ter medo de trabalhar, fez-me envolver com o negócio
da família. Comecei trabalhando desde pequeno, passei por todas as
áreas da empresa, o que me fez conhecê-la intimamente para ter um
comprometimento com esse ramo.”
(Empreendedor de Indústria de Papéis Especiais)
Outra observação importante identificada no estudo refere-se a questões
relativas ao desejo de possuir o próprio negócio, representado por variáveis como: desejo de ter autonomia, realização pessoal, colocar ideias em prática e fazer acontecer.
“Simplesmente o desejo de se colocar em prática um negócio que,
além de trazer a satisfação pessoal pelo sonho realizado, trouxesse
também retornos financeiros compatíveis com o investimento.”
(Empreendedor do setor de Engenharia)
“Estou hoje aqui por causa de um sonho... Um sonho de vida
realizado com a paixão que todo empreendedor deve ter e com a
coragem que todos devemos nutrir ao desenvolvermos nossos projetos
de vida.”
(Empreendedor do setor Educacional)
“O objetivo de ganhar dinheiro não era o principal. O principal era
ser capaz de realizar e criar sementes importantes...”
(Empreendedor de Conglomerado Industrial)
A demissão também assume papel importante como evento de disparo,
mas cabe esclarecer que, entre os 34 entrevistados que apontaram esse critério, apenas nove (26,47%) foram motivados exclusivamente pela demissão de um negócio. Esta é uma variável que, na maior parte dos casos, está atrelada a alguma outra questão como o fato de que 29,41% dos que foram motivados pela demissão perceberam também uma oportunidade.
“Motivado pela demissão, os fatores que me influenciaram na
abertura de meu escritório de advocacia e serviços previdenciários
foram a vontade de ser independente financeiramente, ter o meu
próprio negócio e aproveitar uma oportunidade que surgiu em função
de um ótimo relacionamento mantido com os funcionários do INSS.”
(Empreendedor do ramo de Assessoria Jurídica)
“Foi uma questão de oportunidade, pois faltavam poucos anos para a
aposentadoria e foi oferecida pela empresa uma oportunidade de
terceirizar uma das atividades que estavam sendo realizadas por seus
próprios funcionários.”
(Empreendedor do setor de Transportes e Comércio)
“Fui demitido... Isto foi a melhor coisa que me aconteceu! Fui
trabalhar por conta própria e fiquei rico!”
(Empreendedor do setor de Transportes)
É claro que a busca por independência financeira também se destaca
como motivador do processo empreendedor. Neste caso, a necessidade de encontrar uma fonte alternativa de renda para a sobrevivência está tão presente quanto o desejo de ficar rico ou de melhorar a situação financeira da família.
“Tenho dois filhos que hoje estão na faculdade, mas, quando abri a
minha empresa aqui em São Paulo aos 35 anos – se não estou
enganado –, estava com pouco dinheiro, precisava de uma nova fonte
de renda e, como sempre tive o sonho de trabalhar no ramo de
diversões, acabei me arriscando neste tipo de negócio.”
(Empreendedor do ramo de Entretenimento e Franquias)
“Decidi abrir a empresa por necessidade, mas também porque
enxerguei uma oportunidade de entrar em um mercado que oferecia
muita oportunidade, em relação tanto a produtos de altíssimo valor
agregado quanto de altíssima tecnologia. Até hoje, não há uma fábrica
no Brasil que produza os forros que importamos. Com relação aos
vidros, somente em 2000 uma empresa nacional começou a trabalhar
com estes vidros refletivos.”
(Empreendedor de diversos ramos)
“O principal fator foi a boa possibilidade de retorno financeiro,
podendo conseguir um retorno bem maior do que se eu tivesse entrado
para o mercado formal de trabalho. Outro fator foi a possibilidade de
trabalhar por minha conta, sem ter de responder formalmente a um
chefe.”
(Empreendedor do setor de Transporte de Cargas)
Cai o mito de que ganhar dinheiro é a principal motivação do
empreendedor
O que leva uma pessoa a empreender? Esta pergunta é recorrente quando se discute motivação
empreendedora. No Brasil, há muitas pessoas que tentam uma atividade por conta própria por
necessidade, sem constituir formalmente uma empresa, já que precisam sobreviver, e o que
mais importa é buscar alternativas para conseguir o mínimo necessário de recursos diários para
sustentar a família. Este tipo de empreendedor é o empreendedor de necessidade, já definido
no capítulo anterior e muito comum em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil,