Empreendedorismo na Prática: Mitos e Verdades do Empreendedor de Sucesso
Introdução
Já há algum tempo eu pensava em desenvolver um estudo amplo sobre os empreendedores brasileiros de sucesso, algo que despertava não só a minha curiosidade, como a de várias pessoas com as quais tenho convivido desde que decidi me dedicar com bastante ênfase ao tema empreendedorismo, nos idos da década de 1990.
Ao analisar o que diz a literatura internacional sobre o perfil do
empreendedor de sucesso, percebi que existem vários estudos desenvolvidos há décadas sobre este tema e há muita polêmica também. Alguns autores internacionais e profundos pesquisadores na área de empreendedorismo simplesmente rechaçam a ideia de que para ter sucesso é necessário possuir um perfil especial ou um conjunto de características que distinguem os bem-sucedidos daqueles que não conquistam seus objetivos. Outros autores, porém, em busca de uma explicação de por que algumas pessoas são mais bem-sucedidas que outras, construíram nos últimos 30 ou 40 anos várias hipóteses e buscaram validá-las por meio de pesquisas extensas com grupos diversificados de empresários ao redor do mundo.
Com isso foi se identificando um conjunto de características, traços,
formas de agir e maneiras de pensar que levou à definição do que seria o perfil do empreendedor de sucesso. Longe de ser uma regra rígida, o que se encontra na literatura e nos estudos mais profundos sobre o tema nem sempre leva o leitor a uma conclusão única com um perfil típico e imutável. Na verdade, existem várias características que estão muito presentes nos empreendedores, mas que também podem estar presentes em pessoas que não empreendem. A dificuldade de rotular quem é e como age o empreendedor não é pouca e por isso o termo “empreendedor” é tão utilizado nos dias atuais para caracterizar pessoas que de alguma forma se destacam em suas áreas de atuação.
É importante salientar que para ser empreendedor não é necessário ser
empresário. E o contrário também deve ser ressaltado: nem todo empresário pode ser considerado um empreendedor. Acredito que esta passagem ficará mais clara com a leitura dos próximos capítulos deste livro, mas citarei um exemplo. Considere um esportista dedicado, que planeja sua preparação antes de uma competição que ocorrerá em quatro anos (uma Olimpíada, por exemplo); estabelece metas e marcos de desenvolvimento, analisa seus competidores, adquire novas habilidades, procura desenvolver uma visão de como será o cenário para a grande competição e se antecipa aos acontecimentos... Com certeza este esportista estará muito mais preparado para a vitória que os demais competidores que não fizerem o mesmo. A isso se deve somar a competência técnica e, em se tratando de um esporte coletivo, a habilidade de se relacionar em equipe. Este exemplo poderia facilmente ter sido feito para o mundo empresarial e, neste caso, além de todas as características citadas para o esportista, deveriam ser levadas em consideração também as competências gerenciais, necessárias para criar e gerir um negócio. Você com certeza pode citar vários exemplos de empresários que simplesmente criam empresas, mas que não fazem a “lição de casa” do esportista e que, por isso, na maioria das vezes, não são bem-sucedidos.
Então, a questão principal que se busca responder ao longo deste livro é
“o que é mito e o que é verdade sobre o empreendedor de sucesso?”, ou uma questão ainda mais importante após você saber como pensa e age o empreendedor de sucesso: como desenvolver habilidades e competências empreendedoras para atingir o sucesso? O diferencial desta obra está na sua aplicabilidade prática. Não se procura aqui apresentar uma revisão extensa da literatura sobre perfil empreendedor, mas apresentar a você os resultados do mais completo estudo realizado no país com empreendedores de sucesso e dicas de como você poderá usar estes resultados em seu proveito, desenvolvendo seu perfil empreendedor.
A partir de um estudo realizado ao longo de mais de quatro anos,
envolvendo mais de 800 pessoas e uma equipe de quatro pesquisadores, este livro foi tomando forma e o resultado final apresentado aqui com certeza contribuirá para o desenvolvimento de novos empreendedores de sucesso. Mas o que espero sinceramente é que contribua para o seu desenvolvimento, caso você opte pela fascinante jornada empreendedora.
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Willian Gartner publicou em 1989 um artigo que se tornou um clássico. O
título era “Quem é o empreendedor? é a pergunta errada”.1 Isso porque na década de 1980 havia muita discussão entre os especialistas internacionais sobre quais seriam as características dos empreendedores de sucesso. As críticas de Gartner se justificaram devido à excessiva ênfase em tentar entender o perfil psicológico do empreendedor. Sua tese era de que o empreendedor criava organizações e as levava ao sucesso e por isso seu perfil não tinha muita relação com características psicológicas, mas com o ato de agir na gestão de uma empresa e seu envolvimento com o ambiente corporativo.
A tentativa de entender quem é o empreendedor não é recente e o
próprio Gartner fez uma completa revisão sobre o que se dizia a respeito dos empreendedores. Outros pesquisadores também têm feito o mesmo,
como é o caso do estudo desenvolvido por James Carland e equipe.2 O
Quadro 1.1 a seguir procura resumir as revisões realizadas por esses pesquisadores. Há muita semelhança nos resultados de vários estudos e algumas características empreendedoras são mencionadas na maioria deles, como é o caso, por exemplo, de “busca de realização” e “assumir riscos”, e que atualmente são consideradas características íntimas dos
empreendedores. A compilação apresentada no Quadro 1.1 é bem extensa, mas não se propõe a extinguir a discussão sobre o tema.
Quadro 1.1 Principais características empreendedoras por
vários autores
Principais características
Ano Autores empreendedoras encontradas
1848 Mill Assumir riscos
1917 Weber Autoridade formal
1934 Schumpeter Inovação, iniciativa
1954 Sutton Desejo de responsabilidade
1959 Hartman Autoridade formal
1961 McClelland Assumir riscos, necessidade de realização,
otimismo, relacionamento (afiliação), poder,
autoconsciência
1963 Davids Ambição, desejo de independência,
responsabilidade, autoconfiança
1964 Pickle Foco, relacionamento, habilidade de
comunicação, conhecimento técnico
1969 Gould Percepção de oportunidade, motivado pela
realização
1969 Wainer & Rubin Realização, poder e afiliação
1970 Collins & Moore Satisfação e prazer pelo que faz
1970 Hornaday & Bunker Necessidade de realização, inteligência,
criatividade, iniciativa, liderança, desejo de
ganhar dinheiro, desejo de reconhecimento,
orientado à realização, poder, tolerância às
incertezas
1971 Palmer Mensuração do risco
1971 Hornaday & Aboud Necessidade de realização,
autonomia/independência, histórico familiar,
agressividade, poder, reconhecimento,
inovação, independência
1972 Draheim Experiência, credibilidade
1972 Howell Influências (modelos de referência)
1973 Winter Necessidade de poder
1974 Borland Autocontrole
1974 Liles Necessidade de realização
1977 Gasse Orientado a valores pessoais
1978 Timmons Foco/centrado, autoconfiança, orientado a
meta, risco calculado, autocontrole,
criatividade, inovação
1979 DeCarlo & Lyons Realização, independência e liderança
1980 Brockhaus Propensão a assumir riscos
1980 Hull, Bosley & Udell Interesse em fama e dinheiro, autocontrole,
propensão a assumir riscos, criatividade,
realização
1980 Sexton Energia/ambição, reação positiva ao fracasso
(superação)
1981 Hisrich & O’Brien Autodisciplina, perseverança, desejo de
sucesso, orientado pela ação, orientado a
metas
1981 Mescon & Montanari Realização, autonomia, dominância, controle,
organização
1981 Welsch & White Necessidade de controlar, busca por
responsabilidade, autoconfiança, assume
desafios, risco calculado
1982 Dunkelberg & Cooper Orientado ao crescimento, senso de
independência, especialização
1982 Welsch e Young Autocontrole, maquiavelismo, autoestima,
assume riscos, aberto à inovação, otimismo
Um estudo posterior3 também procurou identificar o que os autores e
pesquisadores da área citavam como as características mais marcantes dos empreendedores. Foram identificadas mais de 50 características atribuídas aos empreendedores em 25 artigos publicados em periódicos internacionais
e em livros de referência no período de 1972 a 2005. A Figura 1.1 apresenta uma compilação das características mais citadas (número de citações de cada característica), com destaque para: capacidade de correr riscos, independência/autonomia, capacidade de inovar e necessidade de realização.
Figura 1.1 Características dos empreendedores mais citadas pelos
pesquisadores.3
Pode-se notar então que não há muita variação sobre o que dizem os
autores e pesquisadores do tema quanto às características do empreendedor ao longo das últimas décadas, apesar de algumas serem mais citadas que outras e de haver uma quantidade expressiva delas. Por isso também existem várias definições sobre o que é ser empreendedor e isso dificulta criar rótulos para poder identificá-los. Na pesquisa que resultou neste livro dois conjuntos de características foram usados como referência para efeitos de comparações e são apresentados a seguir. Ambos têm muita similaridade e algumas singularidades também. O primeiro conjunto foi desenvolvido ao longo dos anos e aplicado via testes de perfil empreendedor a milhares de
brasileiros (Quadro 1.2).
Quadro 1.2 Características dos empreendedores de sucesso4
Características dos empreendedores de sucesso – Conjunto 1
São visionários Eles têm a visão de como será o futuro para o
seu negócio e sua vida, e o mais importante:
têm a habilidade de implementar seus sonhos.
Sabem tomar decisões Não se sentem inseguros, sabem tomar as
decisões corretas na hora certa, principalmente
nos momentos de adversidade, sendo este um
fator-chave para o seu sucesso. E mais: além de
tomar decisões, implementam suas ações
rapidamente.
São indivíduos que fazem a diferença Os empreendedores transformam algo de
difícil definição, uma ideia abstrata, em algo
concreto, que funciona, transformando o que é
possível em realidade (Kao, 1989; Kets de Vries,
1997). Sabem agregar valor aos serviços e
produtos que colocam no mercado.
Sabem explorar ao máximo as Para a maioria das pessoas, as boas ideias são
oportunidades daqueles que as veem primeiro, por sorte ou
acaso. Para os visionários (os
empreendedores), as boas ideias são geradas
daquilo que todos conseguem ver sem poder
identificar algo prático para transformá-las em
oportunidade, por meio de dados e
informação. Para Schumpeter (1949), o
empreendedor é aquele que quebra a ordem
corrente e inova, criando mercado a partir de
uma oportunidade identificada. Para Kirzner
(1973), o empreendedor é aquele que cria um
equilíbrio, encontrando uma posição clara e
positiva em um ambiente de caos e
turbulência, ou seja, identifica oportunidades
na ordem presente. Porém, ambos são
enfáticos em afirmar que o empreendedor é
um exímio identificador de oportunidades,
sendo um indivíduo curioso e atento a
informações, pois sabe que suas chances
melhoram quando seu conhecimento
aumenta.
São determinados e dinâmicos Eles implementam suas ações com total
comprometimento. Atropelam as adversidades,
ultrapassando os obstáculos, com uma vontade
ímpar de “fazer acontecer”. Mantêm-se sempre
dinâmicos e cultivam certo inconformismo
diante da rotina.
São dedicados Eles se dedicam 24 horas por dia, sete dias por
semana, ao seu negócio. Comprometem o
relacionamento com amigos, com a família e
até mesmo com a própria saúde. São
trabalhadores exemplares, encontrando
energia para continuar, mesmo quando
encontram problemas pela frente. São
incansáveis e loucos pelo trabalho.
São otimistas e apaixonados pelo que Eles adoram o seu trabalho. E é esse amor ao
fazem que fazem o principal combustível que os
mantém cada vez mais animados e
autodeterminados, tornando-os os melhores
vendedores de seus produtos e serviços, pois
sabem, como ninguém, como fazê-lo. O
otimismo faz com que sempre enxerguem o
sucesso, em vez de imaginar o fracasso.
São independentes e constroem seu Eles querem estar à frente das mudanças e ser
próprio destino donos do próprio destino. Querem ser
independentes, em vez de empregados;
querem criar algo novo e determinar seus
próprios passos, abrir seus próprios caminhos,
ser seu próprio patrão e gerar empregos.
Ficam ricos Ficar rico não é o principal objetivo dos
empreendedores. Eles acreditam que o
dinheiro é consequência do sucesso dos
negócios.
São líderes e formadores de equipes Os empreendedores têm um senso de liderança
incomum. E são respeitados e adorados por
seus funcionários, pois sabem valorizá-los,
estimulá-los e recompensá-los, formando um
time em torno de si. Sabem que, para obter
êxito e sucesso, dependem de uma equipe de
profissionais competentes. Sabem ainda
recrutar as melhores cabeças para assessorá-
los nos campos em que não detêm o melhor
conhecimento.
São bem relacionados ( networking) Sabem construir uma rede de contatos que os
auxiliam no ambiente externo da empresa
perante clientes, fornecedores e entidades de
classe.
São organizados Sabem obter e alocar os recursos materiais,
humanos, tecnológicos e financeiros de forma
racional procurando o melhor desempenho
para o negócio.
Planejam, planejam, planejam Muitos empreendedores de sucesso planejam
cada passo de seu negócio, desde o primeiro
rascunho da ideia (e/ou formalizando um
plano de negócios) até a apresentação do
plano a investidores, definição das estratégias
de marketing do negócio etc., sempre tendo
como base a forte visão de negócio que
possuem.
Possuem conhecimento São sedentos pelo saber e aprendem
continuamente, pois sabem que, quanto maior
o domínio sobre um ramo de negócio, maior é
sua chance de êxito. Esse conhecimento pode
vir da experiência prática, de informações
obtidas em publicações especializadas, em
cursos ou mesmo de conselhos de pessoas que
montaram empreendimentos semelhantes.
Assumem riscos calculados Talvez esta seja a característica mais conhecida
dos empreendedores. Mas o verdadeiro
empreendedor é aquele que assume riscos
calculados e sabe gerenciá-los, avaliando as
reais chances de sucesso. Assumir riscos tem
relação com desafios. E para o empreendedor,
quanto maior o desafio, mais estimulante será
a jornada empreendedora.
Criam valor para a sociedade Os empreendedores utilizam seu capital
intelectual para criar valor para a sociedade,
por meio da geração de emprego, dinamizando
a economia e inovando, sempre usando sua
criatividade em busca de soluções para
melhorar a vida das pessoas.
O segundo conjunto é um dos mais utilizados no país, haja vista ser a
base do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), principal instituição de apoio ao empreendedorismo no Brasil
(Quadro 1.3).
Quadro 1.3 Conjunto de características dos empreendedores
de sucesso utilizado pelo Sebrae5
Características dos empreendedores de sucesso – Conjunto 2
Grupo de características relacionadas com a realização
• Busca de oportunidades e iniciativa
• Correr riscos calculados
• Exigir qualidade e eficiência
• Persistência
• Comprometimento
Grupo de características relacionadas com o planejamento
• Busca de informações
• Estabelecimento de metas
• Planejamento e monitoramento sistemático
Grupo de características relacionadas com o poder
• Persuasão e rede de contatos
• Independência e autoconfiança