Empreendedorismo na Prática: Mitos e Verdades do Empreendedor de Sucesso
8. Recursos
(Empreendedor do setor de Equipamentos para Ventilação)
Duas outras características interessantes sob o prisma da dedicação ao
negócio são o otimismo e o dinamismo dos empreendedores, que não se deixam abater por resultados negativos e seguem buscando soluções para o negócio.
“Dinamismo, aliás, é o de que mais gosta no seu trabalho. Não se
cansa de buscar novos clientes, novas oportunidades e, mesmo diante
das dificuldades, acredita que o segredo é insistir e crescer devagar e
com solidez.”
(Trecho de percepção do entrevistado retirado do relatório de entrevista)
“Minha maior força é buscar dentro de minha própria empresa a
saída para algumas situações difíceis. É a certeza de adaptação aos
mais variados tipos de situações impostas pelo mercado e de como
podem ser transpostas.”
(Empreendedor do setor de Serviços Terceirizados)
“É preciso ter disposição de investir tempo e vida pessoal pela
empresa. É necessário estruturar a empresa em cima de um modelo de
negócio. Inovar, revolucionar, apostar em algo diferente. Crie seu
segmento de negócio. Não desanime com os riscos de perda. Acredite
nas possibilidades de vencer.”
(Empreendedor de Portal e Comércio Eletrônico)
8. Recursos
O estudo revelou que os empreendedores normalmente utilizam recursos próprios, advindos principalmente de reservas pessoais dos sócios. Os dados coletados mostram que é bastante comum a venda de bens para a capitalização dos novos negócios. Em aproximadamente 59% dos casos apenas recursos próprios foram utilizados para a implantação do negócio, evidenciando a acentuada aversão do empreendedor a capital de terceiros, principalmente no início da atividade.
Fonte dos recursos utilizados
(Admite mais de uma opção)
Critério Absoluto Relativo (%)
Próprios 177 66,04
Outros 54 20,15
Bancos/terceiros 46 17,16
Família 41 15,30
Indenização/acordo 19 7,09
Programas de incentivos do governo 10 3,73
Sócio capitalista 9 3,36
Não consta 131 32,83
Total de entrevistas 399 100,00
Entrevistas válidas 268 67,17
“Nunca precisei recorrer a bancos ou a investidores. Fiz tudo com
recursos próprios. No início tive que vender meu carro para comprar
um computador e licenças de software. Boa parte de nossos ganhos
foram e são reinvestidos na empresa.”
(Empreendedor do setor de Consultoria)
“Eu tinha um carro e um apartamento na Bahia. Vendi os dois,
aluguei um apartamento em São Paulo e montei a loja.”
(Empreendedor do setor de Entretenimento)
“Tudo isso foi feito com capital próprio, ou seja, não emprestamos um
centavo. Isso era ruim, pois não tínhamos dinheiro para girar o
negócio e, mesmo passando por dificuldades, a empresa não
quebrou.”
(Empreendedor serial: diversos negócios)
“Não recomendo empréstimos bancários para se abrir um negócio.
Você já começa com dívidas.”
(Empreendedor do setor de Consultoria)
Poucos são os que recorrem a bancos ou empréstimos familiares.
Programas de crédito do governo e sócios capitalistas (angel investor e venture capital) são ainda menos comuns.
“Utilizamos uma parte de capital próprio e outra dividida entre
recursos do BNDES (Finame) e leasing bancário para alguns
equipamentos.”
(Empreendedor do setor de Transporte)
“A falta de capital para investir no crescimento e o iminente boom da
internet nos fez procurar um sócio capitalista... Uma empresa de
venture capital (capital de risco) adquiriu parte das ações da empresa,
provendo dinheiro e instalações para que o portal pudesse se
estabelecer formalmente no mercado.”
(Empreendedor do setor de Comércio Eletrônico)
“O início da empresa foi dado com um financiamento do BNDES e a
partir daí novos investidores se interessaram pelo negócio.”
(Empreendedor de Clínica de Diagnósticos)
“Lembro bem quando o nosso contato na Merril Lynch, em São Paulo,
nos perguntou se poderíamos viajar para a matriz deles em Nova York
para apresentarmos nosso business plan. Eles marcaram de um dia
para outro e nem tínhamos dinheiro para as passagens. A
apresentação, que estava programada para durar meia hora, durou
mais que cinco horas. Fomos bombardeados de perguntas. No final do
dia, saímos da reunião com um acordo que garantiria o aporte de
US$5 milhões na empresa.”
(Empreendedor do setor de Comércio Eletrônico)
Como empreender sem dinheiro...
O resultado de nosso estudo ratifica uma estatística mundial sobre os empreendedores de que,
na maioria dos casos, o recurso inicial para começar o negócio é proveniente do próprio
empreendedor (de suas economias pessoais, fundo de garantia, herança etc.). Esse fenômeno
não é exclusivo do Brasil e ocorre mesmo em países desenvolvidos como os Estados Unidos e
países europeus. Pesquisas publicadas pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) – estudo
liderado pelo Babson College sobre a dinâmica empreendedora dos países – mostram que,
quando o empreendedor utiliza recursos externos, estes são provenientes principalmente de
alguém que conhece o empreendedor, tais como membros da família, amigos etc.
Isso leva à sugestão de que o empreendedor deve desenvolver melhor sua rede de
contatos, caso não faça parte da categoria dos que possuem um recurso inicial mínimo, ou
buscar alternativas, como as apresentadas a seguir. A falta de recursos sempre foi e parece que
continuará a ser uma das principais reclamações (e com razão) dos empreendedores quando
pretendem criar um negócio.
Especificamente no caso do Brasil, as taxas de juros e restrições de acesso ao crédito
dificultam ainda mais a capitalização dos negócios. Mas há alternativas que estão crescendo nos
últimos anos, até a “fundo perdido” (recursos não reembolsáveis, ou seja, não são
financiamento) para o empreendedor estruturar e desenvolver sua empresa. Nosso estudo
mostra que menos de 4% dos empreendedores entrevistados usufruíram desta fonte de
recurso.
A principal premissa para acessar este tipo de recurso é que os projetos devem focar em
inovação, ou seja, apresentar um diferencial que crie barreira de entrada para os competidores e
permita à empresa crescer rapidamente. As linhas existentes geralmente são provenientes de
agências governamentais estaduais e do governo federal, sendo destinadas para capacitação de
pessoal, pesquisa e desenvolvimento, acesso ao mercado e outras finalidades.
De todas as linhas, as mais atraentes são as destinadas a empresas inovadoras e que não
exigem contrapartida significativa. Isso já é um diferencial considerável, haja vista que, para a
maioria dos empreendedores, conseguir dinheiro em bancos significa oferecer alguma garantia
real como contrapartida. Citaremos aqui alguns bons exemplos.
Um deles é o Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE),
do Ministério da Ciência e Tecnologia e ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq). Por meio deste projeto, micro e pequenas empresas inovadoras
conseguem bolsas para pagar seus funcionários envolvidos nas atividades de pesquisa e
desenvolvimento. É como se o governo pagasse o salário de gente muito qualificada para
trabalhar em sua empresa. Outro exemplo é o projeto de Pesquisa Inovativa em Pequenas
Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) (existem
similares em outros estados da federação). No PIPE a empresa não precisa nem estar criada
ainda para que o empreendedor submeta seu plano de negócios com vistas a conseguir os
recursos para validar seu projeto inovador e depois colocá-lo no mercado. Há a possibilidade de
se conseguir até R$1milhão (na segunda fase) para projetos inovadores no PIPE. Cabe ressaltar
novamente que não se trata de empréstimo e sim de aporte financeiro do governo em
empresas inovadoras.
Finalmente, cabe citar as chamadas públicas da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep)
de subvenção econômica à inovação. Com esta linha de fomento pode-se conseguir recursos
que ultrapassam, e muito, os montantes dos programas citados anteriormente para desenvolver
projetos inovadores em micro e pequenas empresas.
Então, podemos concluir que se você tem um projeto de negócio inovador encontrará
alternativas de investimento para fazê-lo sair do papel. Apesar das grandes dificuldades
encontradas para as empresas acessarem recursos financeiros no país, estes exemplos podem
ser considerados alternativas extremamente interessantes. A premissa continua sendo a
mesma: você deve propor algo diferente. Não adianta recorrer a estas fontes de recursos para
projetos tradicionais e em mercados já saturados por negócios similares.