Empreendedorismo na Prática: Mitos e Verdades do Empreendedor de Sucesso

4. Planejamento

principal argumento dos que não conseguiram a vaga para explicar por que não chegaram lá.

Para convencer investidores a colocarem recursos no seu negócio, não há que contar com a

sorte; há que ter um bom projeto, uma boa equipe, conhecer as pessoas certas... Ou seja, você

tem que correr atrás dos seus objetivos!

Sorte é argumento dos que ficam esperando por algo, dos que não têm iniciativa, dos que

precisam de uma explicação para falar do sucesso alheio. Empreendedores não só não pensam

nisso, como não perdem tempo esperando pela sorte. Eles fazem a sorte acontecer. Para os

empreendedores, a sorte é o encontro da oportunidade com a capacidade de realização.

 

4. Planejamento

 

Para esta questão, 255 empreendedores – ou seja, 63,91% da amostra total – responderam diretamente sobre a forma como planejam seus negócios. Os outros 22 empreendedores (5,51%) que também responderam a esta questão não foram esclarecedores com relação à adoção ou não de planejamento, mas, ainda assim, foram considerados na amostra válida, totalizada em 277 empreendedores.

Analisando os dados de maneira preliminar, constata-se que grande

parte dos empreendedores de sucesso entrevistados não realizou planejamento inicial, seguiu a intuição e ainda assim obteve bons resultados.

 

Planejamento

 

(Admite mais de uma opção)

 

Critério Absoluto Relativo (%)

 

Seguiu intuição/não planejou 116 41,88

 

Utilizou planejamento formal 98 35,38

 

Utilizou planejamento informal/“na cabeça” 67 24,19

Planeja, planeja, planeja 46 16,61

 

Planejamento ajudou/foi importante 39 14,08

 

Outros 35 12,64

 

Teria planejado melhor 30 10,83

 

Total de entrevistas 399 100,00

 

Entrevistas válidas 277 69,42

 

De fato, é o que ocorre, mas cabe lembrar que os critérios aqui

avaliados admitem mais de uma resposta por entrevista. Deste modo, a partir da análise detalhada dos dados, foi possível notar que, entre os 116 empreendedores que seguiram a intuição, 22,4% passaram a utilizar algum tipo de planejamento, formal ou informal, no decorrer da carreira empreendedora. Considerando, portanto, os empreendedores que informaram o método de planejamento utilizado, os puramente intuitivos representam 35,29% dos casos.

“O nosso primeiro planejamento formal do negócio se deu com a

contratação de consultores especializados, há três anos. Até então, o

que contou foi a nossa crença nas pessoas, no relacionamento, nas

exigências de mercado. Apanhamos muito e temos aprendido. Se não

fossem as pessoas que trabalham com a gente, seguramente não

estaríamos onde estamos.”

(Empreendedor do setor de Laticínios)

 

“Primeiro vem a oportunidade e a realização, depois o

planejamento.”

(Empreendedor do setor Alimentício)

“Pura intuição. Quando deu o start, resolvi abrir e sempre achei que

daria certo. Já tinha grande experiência no ramo e uma carteira de

clientes. Além disso, amo o que faço.”

(Empreendedor do ramo de Turismo)

 

“Já não dávamos conta de cuidar de tudo. A empresa estava

crescendo e precisava de uma gestão profissional. Quando

começamos, tudo era muito pequeno, uma ou duas famílias de

animais, manejo fácil, a loja começou no porta-malas do meu carro,

onde eu levava material para vender aos criadores que me chamavam

para dar uma olhada no plantel. Tudo era feito na base do feeling.

Com o passar do tempo, as coisas foram se complicando, mas meu

irmão e meu avô conseguiam levar a parte administrativa da firma.

Chegou uma hora que não deu mais... A abertura do curtume já foi

mais estruturada, pois contou com a orientação dos professores da

Escola. Tinha até plano de negócios!”

(Empreendedor do ramo de Criação de Animais e Curtume)

 

“Eu não havia planejado nada para esse negócio, muito menos tinha

um plano de negócios; na verdade, havia a necessidade de voltar a

trabalhar, o desejo de ter meu negócio próprio, acrescidos das

condições financeiras que eu tinha (recursos próprios poupados ao

longo de anos) mais recursos emprestados de parentes e amigos.

Resumindo: era pegar ou largar. Fui atrás das condições propostas e

confiei na minha intuição.”

(Empreendedor da área Editorial)

 

A utilização de uma estrutura formal de planejamento foi apontada por

aproximadamente 38% dos que indicaram a forma de planejamento adotada. Somandose ainda àqueles que planejaram de maneira informal, conclui-se que praticamente 65% da amostra válida buscaram planejar o negócio de alguma maneira. Este dado confirma, portanto, a importância do planejamento, mesmo que informal, para o sucesso dos negócios.

 

“Sempre procuro saber bem onde pôr os pés, não faço suposições e

otimizo ao máximo meus recursos. (...) Sou bom observador e estudo

bem o negócio antes de investir. Procuro sempre fazer três perguntas:

1) quem é meu cliente? 2) por que meu cliente irá comprar meu

produto? 3) como devo executar o projeto?”

(Empreendedor do ramo de Turismo)

 

“Nunca houve um plano de negócios para formatar a empresa, porque

nenhum dos sócios sabia fazer isso. Mas houve o estudo do mercado, a

real noção de quantos clientes poderia ter, quantas máquinas haviam

instaladas, quantas horas de manutenção conseguiríamos fazer por

mês.”

(Empreendedor do ramo de Manutenção de Equipamentos)

 

“Tinha um planejamento na minha cabeça, mas nada escrito...”

(Empreendedor do setor de Varejo)

 

“Na verdade, na avaliação para aquisição do negócio, considerei a

localização e vi que outras pessoas prosperavam nos negócios ao lado

do restaurante. Eu sabia que muitas pessoas trabalhavam nos

escritórios e que isso garantiria uma clientela cativa no horário de

almoço. Não tinha nenhum planejamento prévio e assim assumi um

risco que considerava calculado.”

(Empreendedor do setor Alimentício)

“Hoje, para todo o desenvolvimento de um novo negócio

necessariamente deve haver uma elaboração de um plano de negócios

com o objetivo de tentar minimizar os erros e maximizar os acertos.

Existe também um planejamento quinquenal o qual é revisto todo

ano.”

(Empreendedor do ramo de Informática e Tecnologia da Informação)

 

Apesar de apenas uma pequena parcela dos empreendedores enfatizar

na pesquisa que planeja constantemente e que o planejamento foi fundamental para o sucesso do negócio, suas declarações ressaltam a relevância do planejamento:

 

“Sempre tenho um planejamento, com uma visão de curto e outra de

longo prazo (...) Sempre abrangendo objetivos profissionais, pessoais,

familiares e comunitários.”

(Empreendedor do setor de Software)

 

“Tudo foi acontecendo, sem planejamento. Hoje planejo mais e

transpiro menos.”

(Empreendedor do setor de Saúde)

 

“Fizemos vários planejamentos/planos de negócios e, inclusive,

fazemos até hoje. Alguns deles deram certo; outros, não. Acredito que

tenhamos acertado mais do que errado em nossos planejamentos.”

(Empreendedor do setor Educacional)

 

“Desta vez investi muito mais tempo na tarefa de planejar, que foi

composta de cinco fases: 1a) explorar o mercado, checar a viabilidade

da ideia e transformá-la em algo vendável; 2a) elaborar um plano de

negócios consistente, para conseguir a aprovação do investidor; 3a)

negociar com os demais investidores, formatar a nova pessoa jurídica

e os contratos de parceria; 4a) abrir a nova empresa, assinar os

contratos com os parceiros e iniciar a implementação do projeto; e 5a)

start-up do negócio e gestão.”

(Empreendedor de Centro de Convivência Universitário)

 

Cai o mito de a intuição ser mais importante que o planejamento...

 

O planejamento é tido como a principal ferramenta do empreendedor. Mas nossa pesquisa

mostrou que muitos dos empreendedores de sucesso de hoje nem sabiam o que é e como fazer

um plano de negócios. Parece contraditório em relação ao que prega a teoria empreendedora.

Então, como explicar o sucesso daqueles que não planejaram?

Na verdade, muitos empreendedores de sucesso fizeram o planejamento informal, não

detalhado e não necessariamente em formato de um plano de negócios. Isso por dois motivos:

1) não sabiam como planejar ou desenvolver um plano de negócios e 2) não queriam perder

tempo planejando, pois estavam ansiosos em fazer acontecer. Mas, ao conversar com os

empreendedores experientes e que já passaram por esta situação, a maioria é unânime em

afirmar que deveriam ter planejado melhor para evitar erros que cometeram no passado.

Porém, isso ainda não explica por que conseguiram chegar ao sucesso sem um planejamento

inicial, seguindo apenas a intuição.

O mito aqui é de que se acredita que não há nenhum tipo de planejamento. Há, de fato,

um controle financeiro mínimo e um planejamento de custos e despesas que, por si sós, já

contribuem para o desenvolvimento do negócio. O que ocorre em muitos negócios sem

planejamento algum é que vão à falência devido à falta de planejamento financeiro por parte

do empreendedor e não necessariamente porque não tinham uma estratégia bem definida.

Em relação à falta de planejamento formal, pesquisas recentes realizadas

internacionalmente mostram que o planejamento inicial do negócio dificilmente reflete o que a

empresa de fato será nos próximos meses ou anos. Esses empreendedores que não fizeram um

planejamento detalhado aparentemente se encaixam nesta categoria e passaram a aperfeiçoar

seu planejamento com o tempo, de acordo com a necessidade. Na verdade, mais importante

que um plano de negócios completo no início é ter a consciência de que este plano de negócios

deverá ser atualizado com muita frequência e que não deve ser considerado uma receita pronta

e acabada. O empreendedor experiente e conhecedor das dificuldades de se gerenciar um