Flores de Chumbo
Capítulo 9
A vida machuca, a poesia alivia.
MINHA PRISÃO
Nos dias que se sucederam passamos a namorar, apenas a Bá e os pais de Matias sabiam. Eles quiseram ir lá em casa conversar com meu pai, mas eu até chorei pedindo que não, então perceberam que poderia ser um erro quando viram o pavor em meus olhos.
Namorávamos no atelier, sempre de porta aberta, a D. Matilde dizia que queria que eu fosse respeitada como se fosse sua filha.
Cada dia nos envolvíamos mais, até que um dia o Matias falou em casamento. Só nesse momento me dei conta da seriedade da situação. Com tantos acontecimentos tinha esquecido que havia ficado noiva.
— Matias, tenho uma coisa séria para te contar.
— Fala logo! Esse tom me deixa nervoso.
— Quando eu tinha nove anos, meu pai me prometeu em casamento pra um rapaz.
—Você está brincando, não está?
Matias estava pálido, com os olhos fixos em mim esperando resposta.
— Claro que não! Com uma coisa dessas acha que eu brincaria?
— Onde ele está?
— Ele veio para os meus quinze anos depois voltou pra Portugal. Ficou de voltar quando eu completar 18 anos.
—Você vai se casar com ele?
A pergunta de Matias entrava cortando como navalha na carne, doía, sangrava.
— Não! Claro que não!
— Então não tem o porquê de ficar com essa cara.
Dei um sorriso que precisou de forças pra sair. Tentei disfarçar a dor e o medo que eu sentia.
Olhei pela janela pra ver se estava tudo tranquilo na minha casa como sempre fazia e da janela vi a toalha vermelha estendida no varal.
— Matias, preciso ir! Alguma coisa aconteceu lá em casa. Bá me deixou um sinal, depois nos falamos.
Dei um beijinho rápido e saí correndo, meu pai me esperava no portão e viu quando saí da casa do Matias.
— Que raio se está a passar-se aqui? Já pra dentro! Há dias estou de olho em ti, Glória.
Meu pai estava com o rosto vermelho de raiva. Tirou o cinto e dobrou ao meio.
Apanhei tanto naquela tarde. Bá trouxe uma infusão de calêndulas, ela embebia uma trouxinha de pano e passava nos lanhos, doíam muito, mas a dor de saber que não poderia mais ver o Matias me perfurava as entranhas, rasgava a alma.
Passei a ser vigiada por minha mãe que tal qual Cérbero vigiava a porta do meu inferno. Já nem ao armazém me deixava ir, passei a ser prisioneira em minha própria casa.
Os meses seguintes seguiram assim, sem ver aquele rosto, sem ouvir a voz que me tirava o chão e também me estabilizava. Sentia-me como um amontoado de peças de quebra-cabeça que já não é mais possível montar por estar faltando peças.
A única coisa que me restou foram os poemas e as pinturas, aprendi com Matias que através deles eu poderia ser livre. Ele dizia, mesmo que consigam aprisionar a carne a arte liberta a mente.