Flores de Chumbo
Capítulo 4
Meu corpo escravo era a morada de meu espírito livre.
FILHA PRENDADA
Desde que fiquei noiva minha mãe começou a bordar meu enxoval e a preparar-me para ser boa esposa, era o que ela dizia todos os dias. Às tardes depois que eu chegava da escola tinha que aprender bordado e crochê com ela. Furei meu dedo tantas vezes que já não podia contar, quanto ao crochê, não conseguia sair do primeiro ponto, uma trancinha que sempre saia torta. Matriculou-me na aula de corte e costura da D. Herminda. Em seis meses eu não sabia dar nem uma bainha, a costureira disse que eu devia ter nascido com defeito. Os planos de esposa perfeita estavam indo por água a baixo.
— Glorinha, você será uma desonra para nossa família. Será vergonhoso darmos em casamento uma moça que não sabe nada sobre as obrigações de mulher.
— Mãe, eu não quero casar com aquele homem, eu quero escolher meu marido.
— Para de bobagem garota, vê seu pai e eu. Foram seus avós que escolheram. Essas modernidades, sei não…
— Você ama meu pai?
— Isso não importa Glorinha, o mais importante é manter tudo em ordem e evitar os escândalos. Não é fácil, temos que fechar os olhos pra muita coisa e nos fazer de desentendidas. Vê a filha de D. Leocádia, ela pegou o marido com a criada e fez o maior escândalo, o pobre a colocou pra fora a baixo de cassetada. Ela pediu pra apanhar, não pediu? Agora está por aí sem nada, nem é mais convidada para as festas.
— Coitada!
— Coitada?! Ela não soube se colocar em seu lugar de mulher, não respeitou o marido. Você não entende quando quero que seja uma moça prendada, que cuide bem dos seus filhos, do seu marido. Não quero a vergonha de ter filha mal falada, nem ouvir por aí que não soube te criar.
— Eu quero estudar e ser escritora, não gosto dessas coisas de casa.
— Escritora? Essa agora! Cê tá louca? Bateu a cabeça, foi? Tu andas cheia de nove horas.
[4] Olha o que aconteceu com a Zuca, filha de D. Carolina. A garota cismou que queria estudar, o pai foi mole com ela, acabou aceitando a loucura da filha e pagou os estudos no exterior. A moça voltou com a cabeça virada cheia de caraminholas. Na festa da padroeira ela estava dizendo que mulher deveria ser dona de propriedade, veja só se tem cabimento uma coisa dessas. Depois rompeu com o filho dos Gonçalo, disse que só casaria por amor. O compromisso estava firmado desde que era moleca. A família agora não sabe o que fazer de tanta vergonha que tem passado. Você acha que algum homem vai querer casar com a doida? Todos já sabem que vai ficar pra titia.
— E se eu não me casasse?
—Tu só pode ter ensandecido de vez, garota! Seu pai te leva pra Sant’Anna, vai ter que virar freira. É isso que você quer?
— Claro que não, mamãe! Eu quero ser livre.
Nessa hora a feição de minha mãe mudou, ficou vermelha, pensei até que ela fosse me dar uns tapas. Quando percebi que a coisa estava ficando feia, resolvi ir para o quintal, onde eu tinha meu cantinho de leitura e escrita, ali podia viver outras vidas, ser quem eu quisesse. Encostava-me a uma grande árvore rodeada de florezinhas coloridas que chamam de onze horas. A cozinha era também um local da casa que eu adorava ficar. Lá me sentia acolhida, ouvia as histórias que Bá me contava enquanto mexia suas panelas. Até hoje não sei se as histórias realmente aconteceram ou se ela inventava para deixar minha pobre rica vida mais leve de se viver. Muitas vezes eu quis ser uma daquelas meninas ou moças de suas histórias.
Eu também gostava de ficar à beira da praia. A Ipanema daquela época não era como agora. Apesar de ter mosquito e muito mato, tinha também o pôr do sol mais lindo que já vi, mais alaranjado que uma laranja madura. Era lindo e me dava algum tipo de esperança, uma expectativa de que alguma coisa poderia ser bela em minha vida, como aquele pôr do sol da Ipanema de antigamente. Você vai adorar a praia, acho que não há nada mais encantador e misterioso. Graças a Deus não existe mais a lei para prender quem usa trajes
curtos. [5]