Flores de Chumbo
Capítulo 7
Taças de cristal e pratos de porcelana não sabem alimentar a alma.
ALMOÇO DE DOMINGO
Em um de nossos almoços de domingo, papai, mamãe e eu estávamos à mesa. Nossas refeições costumavam ser silenciosas. Um ou outro assunto por vezes entrava em questão, mas logo o papo minguava e voltava ao som do tilintar de talheres, mas especificamente nesse domingo o assunto em pauta era eu.
— Precisamos decidir a lista de convidados para a festa dos quinze anos de Glorinha.
Mamãe puxou o assunto com os olhos voltados para o prato.
— Acho que pelo menos isso tu poderias fazer, já tenho muitas coisas na cabeça para estar a preocupar-me com quem vem ou não à festa.
Papai respondeu sem tirar o jornal da frente do rosto, normalmente era assim que ele sempre almoçava aos domingos.
A mesa voltou ao silêncio, nossos almoços davam-me agonia, eu gostava era das refeições no meio da semana porque eu sentava na cozinha, na maioria das vezes almoçava junto com a Bá ou ouvindo suas histórias enquanto ela preparava alguma receita, colocava a lenha no fogão ou fazia qualquer outro afazer. Ali era mais aconchegante, ríamos, brincávamos, sem aquele velório de mesa de domingo onde os cristais e porcelanas conversavam mais que nós. Por fim quebrei o silêncio.
— O dinheiro que será gasto na festa seria mais bem usado se pagasse meus estudos em Oxford.
Nesse momento parecia que eu havia cuspido na imagem da Nossa Senhora. Mamãe me deu um chute por baixo da mesa, meu pai amassou o jornal com as duas mãos e falou com sua voz de trovão:
— Por acaso estais louca? Quer tornar-se sabichona? Perderias o noivo e não arrumarias mais marido. Não permitirei que nos tornemos motivo de chacota.
— Lamento não ser o filho que o senhor gostaria de ter tido. Perdoe-me por não te dar o orgulho de ter uma filha cujo único propósito na vida é fisgar um homem.
Falei em tom de deboche e um tanto alterado. Percebi que eu estava mudando.
— Eva, essa rapariga sua filha está sem controle, estou a ponto de levar-lhe a mão na cara.
Levantei-me e saí da mesa. Levei castigo por sete dias, fiquei sem poder sair do quarto.
Nas semanas seguintes, minha mãe não falava em outra coisa, estava animada, falante. A preparação da festa a tirou daquela rotina de bordados e crochê que a meu ver a matava um pouco a cada dia. Nem a vi reclamar de suas habituais enxaquecas.
Passamos a sair bastante. Ir à costureira experimentar o vestido, escolher as flores, guardanapos, pratos, orquestra musical e tantas outras coisas que por várias vezes me fez perder as aulas de pintura com o Matias. Pela primeira vez pensei nele com saudade. Comecei a notar que os dias sem ele pareciam faltar algo.
— Filha, você precisa escolher o rapaz para dançar a [8]valsa, caso seu noivo não possa vir. Eu estava pensando no filho dos Veloso, o que acha?
— Ah não, mãe! Ele só fala de si, o quanto é bonito o quanto é inteligente, o quanto é rico e blá blá blá. Nem deixa ninguém falar. Eu não suportaria.
— Então quem? Não consigo pensar em outra pessoa.
— O Matias.
— Quem é Matias?
— Não lembra mãe? É o filho dos novos vizinhos.
— Você quer matar seu pai e eu de desgosto garota? Já não basta ficar o tempo todo com essa crioula da cozinha, agora quer dançar valsa com um negrinho?
— Mãe! Ele é meu amigo.
— Ah! Minha filha! Por favor! Além do mais não estão à nossa altura. Viu o calçado que a mãe estava usando? O sapato estava com o solado fino e aquilo nem era couro. Qual é mesmo o nome dela?
Minha mãe falou com um ar tão esnobe que eu não estava acreditando que ela pudesse ser tão mesquinha.
— O nome dela é Matilde, D. Matilde. Posso chamar o Matias para ser meu par ou não? Acho que por ser a aniversariante eu deveria ter direito a opinar pelo menos em quem vai pisar em meu pé na valsa.
Meu tom saiu irritado, mas pudera, ouvir falar daquela maneira do meu amigo e de sua mãe que me tratava tão gentilmente me deixou irritada.
— Não vou nem te responder, Glória Almeida Feitosa. Você anda muito atrevida.
Resolvi me calar, percebi que aquela batalha eu não ganharia.