Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 11 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 10

 

Há rachaduras que aproximam.

O BURACO

Fazia tempos que Matias e eu não nos víamos, cada poro meu gritava, sentia cólicas fortíssimas, tinha algumas vertigens. Minha mãe dizia que era hora de casar, não sei se era isso mesmo ou se era a falta que ele me fazia.

Em uma manhã, não lembro ao certo o mês, sei que era verão. Fui ao fundo do quintal colher algumas verduras para Bá, ao me abaixar reparei que havia um buraco no muro, olhei e pude ver D. Matilde estendendo roupas.

— D. Matilde!

Chamei baixo para não chamar atenção. Ela olhou para todos os lados, como não viu ninguém voltou a estender suas roupas.

— Aqui D. Matilde, no muro.

Falei acenando com a mão pela fresta. Ela se aproximou.

— Oi minha querida, sinto tanto pelo ocorrido, o Matias anda desolado, perdeu peso, o pai dele e eu estamos bastante preocupados. E você Glorinha querida, como está?

D. Matilde era uma das pessoas mais amáveis que eu conhecia, sua beleza se estendia para o lado de fora, eu sentia saudades dela também. Ela nos entendia porque viveu algo parecido. Era uma ex escrava que se apaixonou por um artista. Ele foi deserdado pela família por decidir casar-se com uma negra.

— Estou bem, pode chamar o Matias?

Nem conversei muito com ela porque a urgência em vê-lo gritou mais alto.

D. Matilde largou a bacia e entrou apressada, não demorou muito para que Matias chegasse. Demos as mãos pelo buraco do muro.

— Glorinha meu anjo, você está bem? Estava tão preocupado contigo, outro dia quase parei sua mãe na rua pra perguntar sobre você, mas acabei desistindo, achei que poderia te prejudicar ainda mais.

O rosto de Matias irradiava alegria, senti uma vontade imensa de pular em seus braços.

— Fui proibida de sair ou falar com qualquer pessoa sem a presença de meu pai ou minha mãe. Estou me dedicando ainda mais a escrita e à pintura, mas elas ficaram mais tristes, parece que toda minha tensão é sugada pela tela e pelo papel. Que falta que você me faz!

Nossas mãos se acariciavam como se dissessem tudo o que estava entalado.

— Tenho tanta coisa para te dizer até ensaiei no espelho o que te diria quando te encontrasse, mas as palavras fugiram. O que estou sentindo nem sei explicar.

As palavras mal saiam, era como se formassem um bolo em sua garganta.

— Não precisa dizer nada, Matias. Existem sentimentos que não cabem palavras, esse momento, por exemplo, acho que deveríamos inventar uma palavra pra ele porque no meu vocabulário não tem.

Estávamos ali tão envolvidos como se o mundo fosse só nosso, quando de repente senti uma mão em meu ombro, gelei.