Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 4 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 3

 

Os soluços que saltavam do peito eram as dores que a alma libertava.

A BÁ E EU

Na noite da minha sentença, a Bá me levou para cama. Já havia alguns meses que não o fazia por ordenança de mamãe, ela dizia que eu já estava grandinha e que havia passado da hora de aprender a dormir sozinha.

— Minha fia querida, vim fazer companhia a vosmecê.

A Bá entrou, pegou minha boneca de pano com que eu dormia e colocou-a sobre meu peito para abraçá-la. Ela mesma havia feito para mim em sua máquina de costura. Foi presente de aniversário nos meus cinco anos. Uma boneca com enchimento de cabelo de milho, duas trancinhas pretas que ela dizia serem iguais as minhas, os olhos de botões e vestidinho azul florido feito com um pedaço de pano tirado da barra de sua saia. Ela foi minha companheira por muitos anos, acompanhou meus sonos, houve um período que em quase todas as noites a boneca ficava molhada por minhas lágrimas. Ainda a tenho comigo, está tão velhinha. Ela guarda muitas histórias, trás recordações de uma grande fatia de tempo e da minha querida Bá.

Bá colocou minha cabeça em seu colo macio e começou a fazer carinho. Ela tinha um suave cheiro de flores silvestres, uma essência aprendeu a fazer com sua gente. Aquele cheiro doce me acalmava, era um afago em minha alma. Às vezes ainda me pego de olhos fechados na tentativa de lembrar aquelas notas florais.

— Bá, eu não quero casar.

As palavras saíram engasgadas com choro.

— Sua Bá sabe, mas fica calma minha bonequinha, tudo vai se ajeitar.

Por mais difíceis que fossem as coisas, no colo da Bá o mundo parecia mais amigável. Ela acariciava minha costa para que eu relaxasse.

— Bá, se eu tivesse a pele da cor da sua, eu poderia ser sua filha. Deus bem que podia ter me deixado mais um pouquinho no forno.

Aquela mulher que não tinha o mesmo sangue me entendia mais que minha família, me confortava mesmo quando não tinha palavras, até mesmo o seu silêncio me acariciava.

— Ah minha fia! Nem deixa a D. Eva ouvir uma coisa dessas.

Ela apagou o lampião que ficava em cima de meu criado mudo. Naquela noite chorei baixinho até adormecer, soluçava enquanto a Bá cantarolava uma música bem baixinho. Quando estou triste ainda me pego cantando:

Chora! Chora pra dor derreter

Chora pra dor ir embora

Deixa o pranto correr

O amanhã já bate à porta

O que passou não importa

Escancare a porta e comece a viver.