Flores de Chumbo
Capítulo 20
Quisera beber suas palavras tal qual moribundo se apega às últimas gotas do frasco do
boticário.
O BILHETE
Depois da cerimônia fomos para casa recepcionar os convidados, havia muita gente da alta sociedade. Olhei ao redor em busca de um rosto amigo, mas não havia nenhum. Senti-me só mesmo estando rodeada de tanta gente.
Meu pai e minha mãe colocaram suas máscaras de sorrisos e puseram-se à entrada. Augusto estava a conversar com o Sr. Oliveira Botelho, presidente da província do Rio de Janeiro.
Resolvi ir à biblioteca ler o bilhete que Matias me enviara, caminhei entre os convidados alguns me interrompiam os passos com cumprimentos de desejos de uma vida feliz. Tudo que eu queria era alcançar a biblioteca, por fim entrei, retirei de entre os seios o pequeno papel dobrado.
— O que tens na mão?
Assustei-me ao ver Augusto atrás de mim.
— Não é nada.
Tentei agir naturalmente, mas meu coração parecia que saltaria pela boca a qualquer momento.
— Dê-me!
Falou secamente estendendo a mão aberta. Eu permaneci imóvel. Ele arrancou bruscamente o bilhete de minha mão. Augusto abriu, leu, seu rosto ficou vermelho, pude ver a raiva desenhada em cada linha que se formou em seu rosto.
Ouvi o baque surdo do tapa, senti o peso da sua mão em minha cara, desestabilizei e caí sentada no chão. A pele ardia, fiquei ouvindo um zumbido, a cabeça doía, mas a dor maior era a de não saber o que Matias queria me dizer. Fiquei um tempo sentada no chão remoendo minhas dores, sentindo as ardências da alma.
Uma voz me dizia que o futuro havia partido sem mim.