Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 9 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 8

 

Naqueles suspiros havia mais confissões que um sacerdote poderia ouvir.

MEUS 15 ANOS

A casa e o jardim estavam lotados de gente da alta sociedade. Havia muitas mesas espalhadas. A todo o momento chegava alguma família e meu pai me apresentava com orgulho. Todos estavam vestidos em traje de gala como a formalidade do evento pedia. Os garçons serviam vinhos, champanhes e várias outras bebidas importadas, o cardápio foi muito bem escolhido por mamãe e algumas de suas amigas, mas eu queria mesmo era ir pra cozinha, fugir daquelas formalidades e beliscar nas panelas de Bá. Onde é que ela estaria a essas horas? Queria tanto que estivesse ali, quase na hora da festa ela disse que estava com dor de cabeça, mas eu tinha certeza que ela não perderia minha festa por esse motivo, só podia ser por falta de roupa ou por causa de alguma grosseria de mamãe. Como não pensei nisso antes? Pedi licença a meu pai e alguns convidados, disse que era coisa de mulher e subi para o meu quarto.

Lá estava! Em cima do meu guarda roupa vi a caixa com o vestido que minha avó havia ido ao casamento dos meus pais, eu guardei de recordação. Abri, estiquei sobre a cama para ver se havia alguma mancha do tempo, estava perfeito. Coloquei de volta na caixa e corri para o quarto da Bá. Ela estava deitada no escuro. Acendi algumas velas.

— O que vosmecê tá fazendo aqui menina? Vá já pra sua festa. Não vai ficar aqui pajeando uma véia como eu.

— Levanta logo dessa cama porque seu lugar é lá embaixo ao lado da sua menina.

Coloquei a caixa sobre a cama, abri e coloquei o vestido em sua frente. Seus olhos brilharam.

— O que é isso minha filha?

— É pra minha Bá ficar bem bonita e ver sua menina valsar.

Naquele momento ela chorou um choro entre sorrisos.

— Nada de choro! Se vista logo que a festa já começou.

O vestido coube perfeitamente. Fomos para o meu quarto. Arrumei seus cabelos em um coque, coloquei uma de minhas tiaras, um brinco e colar de pérolas, finalizei com uma leve maquiagem.

— Agora pode olhar.

Coloquei-a de frente ao espelho e segurei o castiçal à sua frente para que iluminasse melhor a silhueta.

— Minha Nossa Senhora! Vosmecê me transformou em uma dama distinta. Se eu passasse em frente a um espelho desejaria boa noite pensando que era outra pessoa.

A Bá não se continha de tanta felicidade, parecia criança dando voltas para que o vestido rodasse. Olhei para seus pés e estava calçada com um chinelo velho. Pedi que esperasse uns minutos, corri no quarto de mamãe e peguei um de seus calçados.

— Experimente esse sapato, Bá.

Era um sapato de verniz preto com um pequeno saltinho. Ficou perfeito. Ela não se continha, parecia uma meninha, não cabia em si de tanta alegria. Ficou batendo o saltinho no piso de madeira para ouvir o toc toc dos passos.

— Posso?

A Bá apontou para um dos meus frascos de perfume em minha penteadeira.

— Pegue, Bá!

Ela pegou um frasco de perfume vermelho rubi com borrifador e aspergiu em seu colo.

— Eu tinha o sonho de usar um desse, pensei que nunca ia usar.

— É seu, fique com ele de presente.

— Não, menina Glória! Isso deve de ser muito do caro.

— É seu! Não se fala mais nisso.

— Nunca pensei que um dia na minha vida fosse usar essas coisa tão bonita de gente rica.

— Vamos minha rainha?

Dei o braço a Bá e seguimos para o salão. Assim que aparecemos no alto da escada, todos os olhares se voltaram para nós. Era como se todos tivessem sido congelados, alguns mantiveram a boca aberta, toda a festa parou. Parece ter sido questão de segundos para mamãe chegar até nós. Segurou com força o antebraço de Bá e praticamente a arrastou até o quarto. Fui atrás.

— Eu ainda não estou acreditando no que estou vendo! Uma crioula pensando que é gente. Maldita hora que permiti que ficasse nessa casa. Isso que dá amolecer o coração pra esses negros. Quem te deu o direito de aparecer em meio aos meus convidados? Vocês nunca deveriam ter saído da senzala.

Minha mãe gritava. Até os convidados lá embaixo puderam ouvir. Arrancou o colar com força, as pérolas se espalharam pelo chão. Tirou a tiara e jogou sobre a cama. Bá só sabia chorar com as mãos no rosto. Eu a abracei com todas as minhas forças. Assistir àquela cena me partiu a alma.

Coloquei a Bá sentada na cama, fiquei de frente para minha mãe olhando firme em seus olhos e disse:

— Essa mulher passou toda a sua vida cuidando dessa casa. É a única aqui que me conhece de verdade. Passou noites cuidando de mim quando tive sarampo, catapora, todos os resfriados, me deu o peito quando era um bebê e colo a vida toda. Dormi ao som de sua voz durante toda a infância ouvindo suas canções e histórias. Quem a senhora acha que é minha mãe de verdade?

Pela primeira vez na vida levantei a voz para minha mãe e pela primeira vez também levei um tapa tão forte na cara que me fez cair sentada.

— Saia já daqui!

Ela gritou me expulsando do quarto. Desci com todos os olhos me acompanhando. Fui direto para o escritório e fiquei por lá esperando a poeira baixar para voltar à festa, aliás, para a festa deles.

****

— Desculpe a demora Glorinha, o seu presente só chegou hoje, o [9]caixeiro viajante errou o caminho e foi parar na cidade vizinha, por isso do atraso. Falou Noronha me estendendo as mãos.

O Noronha queria impressionar o sogro, não a mim. Eu era apenas uma coisa para ele se aproximar de meu pai. Peguei o presente e nem abri, coloquei-o junto aos outros.

Aproveitei que quase ninguém notava minha falta e fui chorar na praia. A lua estava cheia, seu reflexo fazia um caminho prateado nas águas. O fresco com cheiro de maresia e o barulho das ondas me acalmavam.

— Não chore. A vida é marcada por oportunidades, atitudes e escolhas.

Até hoje posso reconhecer aquela voz. Quase 36 anos se passaram e sei que reconheceria aquela voz perfeitamente hoje.

— Queria que você dançasse comigo, Matias.

— Não se preocupe, sei que não é culpa sua por eu não ter sido convidado.

— Minha mãe…

— Ei, calma Glorinha! Meus pais tiveram problemas com o preconceito, desde novo sei como são as coisas e as pessoas. Elas nunca aceitam as outras como realmente são.

— Minha mãe não entende.

— Esquece isso! Olha, trouxe uma coisa pra você.

Matias me deu uma caixa com um papel de presente lindo. Abri.

— Meu Deus! Matias, como você foi comprar um presente tão caro. Não deveria ter feito uma coisa dessas.

Era um jogo de pinceis e centenas de vidros de tinta de cores que não tínhamos por aqui. Olhei a etiqueta, era francês.

— Eu tinha umas economias no colchão, conversei com meus pais e eles concordaram.

— Não tenho como te agradecer um presente como esse.

Eu estava radiante, era tudo que qualquer pintor gostaria de ganhar. Ele me fez uma reverência e estendeu-me o braço tirando-me para uma dança. Nunca imaginei valsar na areia tendo o mar de testemunha. Seu corpo encostado ao meu, fez-me perceber que já não éramos apenas amigos. Tudo em mim naquele momento o desejava. Foi impossível impedir que nossas bocas se encontrassem. Era como se eu tivesse achado algo que não sabia que existia. Como se fôssemos extensão um do outro e aquele beijo fosse o laço que estava unindo as partes. O vento e o barulho das ondas pareciam orquestrar só para nós dois.

Perdemos o curso do tempo, até que um grito de Bá nos despertou.

— Minha Filha, o Sr. Ulisses está procurando vosmecê. Ele foi até meu quarto. Ele estava vindo pra cá, eu disse que tinha te visto no jardim, corre, corre! E você meu filho, suma já daqui. Da aqui essa caixa pra guardar.

Então tudo correu bem, pelo menos bem para eles. Estavam me procurando porque era a hora de me apresentarem à sociedade, valsar com meu pai e depois com o Augusto. Depois das formalidades e da valsa com meu pai, ele me entregou a Augusto que estava pronto como um cavalheiro da realeza. A dureza de seus passos, suas mãos segurando as minhas, não tive escolha, fechei meus olhos e imaginei Matias, ainda o sentia. Mesmo que sob as centenas de olhares, não conseguia deixar de ouvir sua voz, seu toque e seu beijo. Aquela sensação ficou pra sempre em minha memória. Naquela noite fui leve pra cama, ainda com o seu gosto na boca.