Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 7 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 6

 

Pinceis e tintas desenham portas, pintam asas, abrem janelas aonde não há.

MISTURA DE CORES

Já tinha uma semana que eu havia estado na casa dos vizinhos. O grito do Matias continuava a ecoar em minha cabeça. “A vida é uma só, Glorinha.”

Contei pra Bá sobre o convite. A princípio ela ficou em silêncio, parecia pensativa.

—Vá!

Ela disse, parecia bastante convicta.

— E minha mãe? Se ela souber vai contar para o meu pai.

— Vosmecê sempre fica aqui na cozinha e ela nem procura. Caso ela indague eu invento quaisquer coisa, digo que vosmecê foi à venda. Se der errado, coloco uma toalha vermelha estendida na corda, vez em quando olhe cá.

— Obrigada, minha Bá querida!

Beijei-a e a abracei com força.

Naquela tarde bati na casa vizinha, D. Matilde me recebeu com o seu enorme sorriso.

— Entre Glorinha, o Matias está no atelier, vai gostar de te ver. Pode ir lá, ele me disse que talvez você viesse.

Cumprimentei-a e fui ao atelier do Matias, ele estava de costas pintando, e ouvindo uma

suave música francesa no fonógrafo. [7] Não me viu chegar. Parei a seu lado, ele estava tão envolvido em sua pintura que nem percebeu minha presença. Fiquei um tempo me deliciando com aquela melodia antes de cumprimentá-lo. Em minha casa vivíamos no mais completo silêncio por causa das infinitas enxaquecas de minha mãe.

— Boa tarde, Matias! Resolvi aceitar seu convite.

— Olá, moça! Que prazer tê-la aqui.

O rosto dele se iluminou, pude ver o brilho em seus olhos.

— Eu trouxe meu caderno de poemas para que dê uma olhada. Nunca mostrei a ninguém, mas como fizemos um trato, aqui está ele.

— Sinto-me honrado em ser o primeiro a ler. Sei bem como é isso, aqui nessas páginas está parte de sua essência, será mais fácil enxergar sua alma em seus versos que nas palavras que saem de sua boca. Hoje mesmo vou ler com bastante atenção e tentar escrever algo. Na próxima vez que vier te mostro e você avalia.

— Não sei se saberei avaliar, mas acho que será bom ter alguém pra dividir os versos.

— O que é arte pra você, poetisa?

Eu nunca tinha parado para pensar sobre isso, então parei uns minutos para dar uma resposta.

— Pra mim é como se fosse um respirar, um respiro bem fundo. É uma maneira de significar sentimentos e sensações que não se pode explicar.

— Gostei dessa sua forma de enxergar. Eu tinha minha própria definição, mas agora posso acrescer a sua. Eu vejo como um efeito social, político, uma forma de transgredir com grande potência, uma maneira de deixar nossa marca no mundo.

— Deixar a marca no mundo, é uma forma de ampliar nossa existência. Isso é incrível, se pensar que daqui a décadas isso que estamos fazendo agora será uma janela para o nosso tempo.

— Então que comecemos a abrir janelas! Vamos começar a pintar.

— Não entendo nada de pinturas, você vai precisar me ensinar desde o começo.

— Eu sei, por isso deixei separado esse caderno com guia de cores. Aqui fala sobre as cores primárias, secundárias, terciárias. Ensina a fazer as misturas. Tem algumas coisas bem interessantes, mas tem alguns truques que aí não ensina, vou te mostrar.

O Matias estava muito entusiasmado em me transmitir seus conhecimentos. Naquela tarde ele me ensinou várias técnicas de misturas, mostrou efeito de cores, tipos de pinceladas, diferença entre as telas e várias outras coisas pra me iniciar no mundo da pintura.

— Não imaginei que pudéssemos brincar tanto com as cores.

— Você não viu nada, poetisa. Amanhã você vai pintar seu primeiro quadro. Escolha algo que goste, um objeto, uma foto de um animal, traga uma flor, ou pinte algo abstrato que mostre o que está em sua alma.

— Já? Não sabia que pintaria tão cedo.

— Sim! Dessa forma você já vai começar a ver a técnica que mais gosta, qual caminho preferirá seguir, sem muitas influências, algo mais natural.

— Não sei se saberei fazer igual.

— Mas quem disse que é pra ser igual? Se reproduzir um pássaro, ela será apenas mais um pássaro. Pinte na tela o que os meus olhos não estão vendo. Isso sim é arte.

— Vou pensar em algo bonito pra pintar.

— Glorinha, a arte não precisa ser bonita, ela precisa ter algo a dizer.

— Talvez seja como poemas, a beleza pode estar na tristeza, na dor, na raiva, até em uma folha seca.

—Isso mesmo! Ou nem ter beleza, mas que diga alguma coisa, que gere algum sentimento, seja ele bom ou ruim. Talvez se eu te pintasse você não se reconheceria na tela, porque ali estaria a forma como eu te enxergo não o reflexo que você vê no espelho.

— Acho que estou entendendo. Da mesma forma que posso te escrever em versos com a leitura que minha alma faz e não meus olhos.

— Exato! Digamos então que a pintura é um poema na tela, ao invés de palavras, usa-se tinta. O pincel é minha arma, assim como a pena é a sua.

****

No dia seguinte eu pintei uma borboleta borrada com a asa faltando um pedaço.

— Por que a borboleta está faltando um pedaço?

Fiquei muda por alguns segundos. Era como se ele me lesse. Matias me olhava de um jeito que dispensava palavras. A mente é o único chão que é só nosso, o solo da minha tinha as marcas de suas pegadas. Aquilo era assustador e sedutor ao mesmo tempo.

— Está bem, um dia você me conta.

— Não! Arte não se explica. Cada qual faz sua própria leitura. É um meio de comunicação que só as almas entendem.

— Sabe, tem razão. Você foi bem em sua primeira aquarela, seguiu sua intuição, ouviu a voz que vem de dentro.

Uffa! Havia conseguido me livrar de perguntas íntimas.

— Você se esqueceu de uma coisa, os versos que ficou de escrever.

— Não me esqueci, eu fiz. Falando nisso, li seus poemas, são bem intensos, pude ler sua alma neles. Gostei do que li.

Fiquei meio sem jeito, alguém ler meus versos era íntimo demais. Matias então abriu a gaveta de uma mesinha que ficava no canto do atelier, pegou uma folha e me entregou. Pude ler não só sua alma, mas sentir a dor de um povo.

Ouço o grito de dor da minha gente

Que regou com sangue esse chão

Nessa terra ainda arrastam correntes

Imposta por seus cidadãos

Grilhões que não são mais de ferro

Chicotadas de rejeição

Alforria de papel eu não quero

Grito por libertação.

— Que lindo Matias! Senti arrepios.

Aquela passou a ser minha rotina. Matias e eu passávamos as tardes mergulhados em nosso mundo de cores e palavras, nossa amizade se fortalecia a cada dia. Sua casa tinha cheiro de alegria. A nossa escrita, pintura e toda conversa era uma troca tão intensa que um novo mundo se descortinou diante de meus olhos. Quando estávamos juntos o tempo parecia passar diferente. Em pouco tempo eu já não era mais a mesma.