Flores de Chumbo
Capítulo 19
Nem todas as flores disfarçam o cheiro de almas apodrecidas.
CASAMENTO
Chegou o dia do meu funeral, a data do casamento, vi o dia clarear, meu rosto estava inchado, os olhos vermelhos, mas não havia uma gota de lágrima, eu já havia derramado todas.
Matias continuava preso, tentei sair para ir ao muro mandar um bilhete por D. Matilde, mas não consegui, estava sob total vigilância. Meu pai disse que Matias pegaria muitos anos de cadeia.
Do meu quarto eu já podia ouvir o barulho da organização para a festa. A casa estava repleta de pessoas trabalhando e eu ali em minha prisão sem grades com uma dor no peito. Já havia perdido as forças, não tinha qualquer esperança.
Sentia-me esmagada e lançada ao monturo após retirarem o caldo. Ouvi o barulho da porta abrir, mas nem olhei para ver quem era.
— Você não vai descer? Não pode passar o dia na cama, a festa é sua.
— A festa é minha? Mãe, eu não quero lhe faltar com respeito. A festa pode ser para qualquer pessoa, menos para mim. Não percebe que estou de luto? Estou morrendo por dentro.
— O quarto de hóspedes já está arrumado para vocês, vá lá ver se está de seu agrado.
Fingi que não ouvi, nem queria imaginar que ainda naquela noite dormiria lá com Augusto, aliás, não só naquela noite, mas por mais ou menos um mês, enquanto se resolvia a documentação de compra da casa que ficava na rua de trás. Aquele quarto seria meu calabouço.
Virei para o lado tentando não pensar. De vez em quando a Bá vinha ver como eu estava e oferecer algo para comer, mas nada passava em minha garganta.
As 15h vieram duas moças que mamãe havia contratado para me arrumar. Eu parecia uma estátua, estática, não emitia som. Elas mexiam em meus cabelos, maquiavam meu rosto como se estivessem arrumando uma boneca de cera, sem vida.
Já pronta, uma delas arrastou o espelho para que eu olhasse, virei o rosto, não suportaria me ver vestida de noiva para me casar com alguém que não fosse Matias.
A Bá disse que não ia, não suportaria ver sua menina passar por um sofrimento desses, eu até gostaria que ela estivesse lá para pelo menos ver um rosto amigo, mas preferi poupar-lhe o sofrimento.
Desci as escadas, meus pais já estavam à espera, em silêncio entrei na charrete sem olhar para os dois.
Cheguei à porta da igreja e fiquei parada, aquele lugar deveria ser um local de paz, mas para mim naquele momento era símbolo de tormento, de morte. Entrei sem olhar para os convidados, tinha a sensação de que eram como os romanos que iam ao Coliseu se alegrar com as mortes dos inocentes. As flores cheiravam a morte, faziam parte de uma farsa. Arrastei-me até o altar em uma marcha fúnebre.
Meu pai entregou-me a Augusto, o padre prosseguiu a cerimônia. Eu mal ouvia suas palavras, o meu sim saiu arrastado, deixou marcas de arranhões em minha garganta.
“… até que a morte os separe.”
Essas foram as únicas palavras que pude ouvir em meio a todos os gritos em minha mente. Morte? Que morte? Eu já não me sentia mais viva.
Ao sair da igreja vi D. Matilde tentando romper a multidão.
— Matias pediu para que te entregasse.
Ela sussurrou ao meu ouvido ao me abraçar como se estivesse me cumprimentando, colocou um bilhete dobrado em minha mão. Os muitos olhares me impediam de abrir. Eu precisava dar um jeito de saber o que estava escrito.