Flores de Chumbo
Capítulo 24
A lâmina ensanguentada se ri, debocha da dor.
Madame Navalha
No Rio de Janeiro.
Xavier prende Madame Navalha no[18] Largo do Rocio. O Largo do Rocio era um local no Rio de Janeiro onde homossexuais buscavam parceiros para o sexo. Madame Navalha era um negro alto e forte, com trejeitos afeminados, muito bom com navalhas, era tão bom que conseguia ser temido por todos.
— Doutor delegado, gostaria de saber por que estou sendo presa? — perguntou Madame Navalha com seu deboche corriqueiro.
— Preciso que faça um favor pra mim.
— Não estou preso?
— Dessa vez não.
— Precisa de um favor meu, que lindo delegado!
— Não se empolgue muito, ou te tranco para o resto da vida com os presos fedorentos dessa delegacia.
— Um monte de homem junto, que delícia, Xavier!
— Doutor Delegado Xavier, mais respeito seu pederasta de merda. Vamos logo ao assunto. Tem um preso aí dentro, é um rapaz novo, quero que deixe a cara do infeliz bem marcada, quero que marque a ponto de quem olhar pros cornos dele vomitar.
— Tadinho gente! Mas porque vai fazer isso com o menino?
— É um pedido especial, senão tem colhões pra fazer eu arrumo outro.
— O que vou ganhar?
— Vida livre no Largo do Rocio.
— Só isso?
— Acha pouco? Ninguém vai incomodá-lo, tem minha palavra.
— Quer agora?
— Vou colocá-lo na cela, à noite você faz o serviço.
— E os outros presos? Eles vão me pegar.
— Todo mundo conhece a fama de Madame Navalha, ninguém vai se meter a besta.
— Depois do serviço estou liberada?
— Imediatamente.
— Quem é o pobrezinho?
— É o mais novo da cela, você vai saber logo que o vir.
Xavier conduz Madame Navalha pessoalmente à cela. Abre e a joga para dentro. Os presos reconhecem a travesti mais temida do Rio de Janeiro naquela época. Afastam-se olhando para o chão sem querer confusão. Matias não a conhece, e estende a mão.
— Prazer, meu nome é Matias, e o seu?
— Tão bonitinho gente, que pecado!
— Não tenho problemas com seus gostos sexuais, mais vou logo avisando, não quero gracinha comigo.
— Madame Navalha.
— Como disse?
— Madame navalha é meu nome, não meu nome, mas todos me chamam assim.
Chega a noite. Cada um dorme como pode, no canto que lhes cabe. Madame Navalha ficou com os olhos bem abertos, foi o único que permaneceu acordado na cela. Ela acordou dois dos presos. Eles se assustaram, pediu-lhes silencio e imediatamente ordenou que segurassem Matias. Ao segurá-lo, Matias acordou e tentou se soltar. Madame Navalha segurou uma navalha em cada mão.
Em toda cadeia ouviu-se os gritos de Matias. Os gritos eram tão doloridos e desesperados que talvez tenha se ouvido no Rio de Janeiro inteiro.
Matias foi deixado de canto, sangrando. Os presos começaram a gritar.
Na delegacia, Alceu, o único infeliz de plantão, correu para as celas ainda vestindo as calças. A pobre meretriz que estava com ele correu para a rua assustada e pegou o rumo da parte escura da cidade.
Alceu ao ver Matias sangrando e todo o alvoroço, recuou e partiu para a casa do delegado para chama-lo.
Em casa, D. Matilde acordou assustada.
— Meu Matias! Preciso tirar meu menino daquele lugar.
Pela manhã.
D. Matilde chegou à delegacia. Só Xavier estava presente.
— Bom dia, senhor delegado.
— Bom dia! Acho melhor a senhora se sentar.
— Aconteceu alguma coisa com meu menino?
— Sente-se, por favor!
— Onde está meu filho? Eu quero ver meu menino.
— Calma senhora!
— Fala logo!
— Seu menino se envolveu numa briga.
— Cadê ele? Eu quero ver o Matias.
Xavier segurou D. Matilde e disse:
— Ele está vivo, mas muito machucado.
— Onde ele está? Eu quero vê-lo!
— Agora não dá.
— Pela senhora levei o menino para a casa de uma parteira amiga. Foi pela senhora.
— O que fizeram com meu filho?
— Ele está bem machucado, mas vai viver.
— Por que deixou fazerem isso com ele?
— A culpa é sua, o garoto podia ter ido pra casa há muito tempo, mas a senhora não quis colaborar.
D. Matilde começou a chorar. Não um choro que seja escutado ou visto, se não fosse o fato das lágrimas escorrerem e o corpo tremer.
— Preciso levar meu filho para casa, delegado.
— Já disse, só depende da senhora. Deveria aproveitar enquanto está vivo.
D. Matilde olha para o delegado esperando um pouco de piedade.
— Então, a senhora não quer acabar com isso logo?
D. Matilde pensou no filho, no marido que estava na Europa. Ela se sente suja, mas deu seu sim com a cabeça e olhou para o chão. Xavier sorriu e disse:
— Não vai demorar, logo vai ter seu filhinho de volta.
Xavier colocou D. Matilde apoiada de costas na mesa da sala. Levantou sua saia, rasgou sua anágua e roupas íntimas. Arriou as calças e a sodomizou violentamente. Xavier tapou a boca de D. Matilde, não precisava, o choro estava engasgado pela vergonha e humilhação. Para Xavier cinco minutos. Para D.Matilde, uma eternidade.