Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 24 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 23

 

Entre a dor e o tormento a vida pede uma chance.

PODIA PIORAR

Eram 14hs da tarde quando eles chegaram, não fui buscá-los no Porto de Santos porque estava terrivelmente indisposta, os enjoos da gestação me tiravam tudo que batia no estômago.

O Sr. Francisco, pai do Augusto era um homem alto, elegante, com um farto bigode e barba muito bem feita, tinha um ar alegre, em nada se parecia com a esposa. Trajava um sobretudo preto e uma cartola.

Minha sogra, D. Conceição era uma senhora farta de carnes, seios protuberantes que lhe enxiam o vestido, tinha a expressão dura, sorrisos não lhe cabiam no rosto. Chegou usando um chapéu que faria sombra para mais duas pessoas.

— Perdoem-me Sr. Francisco e D. Conceição, não pude sair de casa, estava muito indisposta. Sejam bem vindos, sintam-se em casa.

Apesar do meu péssimo relacionamento com Augusto eu queria que seus pais fossem bem recebidos.

— Claro que sentirei como se estivesse cá a minha casa, ora pois, esta é a casa do meu filho.

D. Conceição falou de forma extremamente rude.

— É um prazer conhecer minha nora. És mais formosa do que imaginei.

Sr. Francisco esbanjava gentilezas, era difícil imaginá-los como um casal.

—Tu estás muito magra para quem carrega um neto meu. A partir de hoje darei ordens à cozinheira. Não quero que o bebê nasça franzino por conta de uma mãe relapsa.

Nesse primeiro contato com minha sogra percebi que teria meses difíceis pela frente. Apesar ter sido religiosa passei a ir à igreja, para não ter que aturar suas reclamações. Quando estava em casa na maioria do tempo passava trancada em minha prisão de luxo. Cheguei a pedir a Deus que tivesse piedade de mim e levasse aquele filho, eu não queria partilhar a desventura que era minha vida com uma criança. Pior ainda seria se fosse uma menina, pensei que se morresse anjinho na barriga lhe pouparia muita dor, mas Ele não me ouviu e minha barriga crescia.

Comecei a sentir mexer, os chutes me alegravam, aquela vida que crescia dentro de mim passou a ser minha companhia, à partir daí comecei a amar meu bebê e a pedir perdão a Deus pelas rezas que havia feito. Temi muito que Ele me castigasse levando meu filho.