Flores de Chumbo
Capítulo 11
Entre a cama macia e o feno, deito-me onde houver amor.
A CARTA
Acordei com a minha mãe em meu quarto, isso não era muito comum.
— Acorda Glorinha, se vista e desça.
Vesti-me e fui para sala de jantar ainda bastante sonolenta porque normalmente eu costumava ter mais uma hora e meia para dormir. Meus pais estavam sentados à mesa.
— Glória, esta carta chegou para ti, abra!
Meu pai falou em seu tom seco costumeiro estendendo-me a carta. Aproximei-me e como a borda do envelope era vermelha e azul soube logo que era de Portugal. Estremeci e suei frio naquele momento.
Abri, fiz a leitura e permaneci em silêncio. Aquela carta fez minha cabeça estourar de dor, meu rosto ficou quente.
— O que diz a carta?
Minha mãe estava ansiosa e parecia estar gostando de receber notícias de Augusto Noronha.
— Ele está chegando.
— Seu noivo está chegando e você está com essa cara? Ele não pode ser recebido assim.
“Seu noivo” essas palavras entraram como punhal.
— o Sr. Augusto disse se o enlace matrimonial será para já?
Meu pai perguntou, parecia que queria me jogar nos braços de Augusto o mais rápido possível.
— Sim.
A palavra quase não saiu e quando saiu trouxe uma lágrima.
— Engulas esse choro! Tu deverias chorar caso permitisse que casasses com aquele negrinho maldito que não tem onde cair morto. Maldita hora que não comprei essa casa ao nosso lado.
Meu pai bravejou.
Corri para o meu quarto, tranquei-o e não desci nem para o almoço. Quando era por volta de 1h da tarde a Bá bateu na porta.
— Abre aqui minha filha, trouxe seu almoço.
— Eu não quero Bá, estou sem fome.
Respondi entre soluços.
— Vosmecê vai ficar doente, abre.
Abri a porta e voltei para cama, ela entrou, colocou a bandeja sobre o criado mudo e sentou na cama colocando minha cabeça sobre seu colo como sempre fazia quando queria me consolar de alguma tristeza.
— Trouxe quindim pra alegrar minha menina.
— Obrigada, Bá! Depois eu como um pedaço.
— Hoje quando vosmecê for ao muro, vai contar ao Matias?
Todos os dias à tarde Matias e eu conversávamos pelo buraco que havia no muro com a cobertura de Bá, ela havia nos pego em flagrante no primeiro dia e havia ficado feliz por nós dois.
— Eu preciso contar, só não sei como vou conseguir. A vida não é justa.
Minhas palavras saíam soluçadas, doídas, embebidas de sofrimento. Eu não podia imaginar ser tocada por outro homem que não fosse o Matias, pensar que pudesse acordar ao lado de um estranho me causava náusea. Eu queria alguém que pudesse dividir não só a cama, o corpo, eu queria uma pessoa para dividir meus pensamentos mais íntimos, alguém que despisse minha alma antes de despir meu corpo e esse alguém só podia ser o Matias.
Alguma coisa precisava ser feita, e ali entre tantos pensamentos e soluços veio a ideia.
— Já sei!
— Sabe o que, minha filha?
Apertei as bochechas de Bá dei um beijão e desci correndo as escadas.
Corri para o fundo do quintal, mas como não estava no horário do nosso encontro no buraco do muro catei umas pedrinhas e comecei a jogar na janela do quarto de D. Matilde que dava para minha casa. Ao abrir, a pedra bateu em sua testa, ela levou à mão ao fino filete de sangue que escorria. Pedi mil desculpas e disse que precisava falar urgentemente com Matias. Logo ele apareceu com ar preocupado, sabia que algo havia acontecido pra eu agir tão insanamente.
— O que houve, Glorinha?
— O Augusto enviou-me uma carta, chegará semana que vem e vai marcar o casamento pra logo.
Despejei tudo de uma só vez sem tomar fôlego. Matias ficou estático, pareceu-me que até então ele não havia se dado conta da seriedade da situação. Não houve resposta, fiquei esperando alguma reação, mas ele permanecia em estado de choque.
— Matias!
Eu o chamei estalando os dedos para que ele saísse do transe.
— Eu entendi bem? Você vai se casar?
Sua voz saiu tremida e tão baixa que quase não pude ouvi-lo.
— Não! Eu não vou me casar eu tive uma ideia. Lembra-se daquela casa que sua tia Aurora tem lá para as bandas do Rio Preto. Está vazia, não está? Nós vamos fugir para lá.
— Você tem certeza que quer fazer isso? Sabe que vai ficar mal falada, não sabe? Eu queria tanto me casar direito com você, não me agrada nada a ideia de ouvir seu nome na boca desse povo.
— Eu já estou decidia, não tem outro jeito, só posso casar sem autorização dos meus pais aos vinte e um anos, não temos três anos para esperar. Deixa falarem! Essa gente sempre vai procurar alguém para destilar seus venenos, parece que isso os alivia de suas vidas medíocres.
— E se nos acharem e quiserem te trazer de volta?
— Ninguém vai me trazer de volta, eu estarei desonrada serei uma vergonha para minha família, o mais certo é que queiram esquecer que um dia tiveram uma filha e provavelmente me deserdem.
— Eu odeio a ideia de ver você passar por isso, mas não estou conseguindo pensar em outra solução.
— Então concorda?
— Claro! Tenho alguma reserva de dinheiro das vendas de meus quadros.
— Eu tenho uma poupança que herdei de minha avó, mas só poderei mexer aos 21 anos, tenho também algumas joias. Quando chegarmos lá a gente vende, se fizermos isso por aqui podemos chamar atenção.
— Quando iremos?
— Na quinta-feira, Augusto chegará na sexta.
— Não acho prudente continuarmos nos encontrando aqui, caso alguém nos veja estaremos perdidos.
— Concordo! Melhor não nos vermos mais até lá. Vamos sair no primeiro trem.
Eu estava animada com o plano, só em pensar em dividir minha vida com o Matias me enchia com uma alegria que há tempos não sentia.
— Hoje mesmo vou comprar as passagens, deixarei um bilhete aqui confirmando o horário. Encontro você quinta-feira lá na estação. Mas antes preciso de um beijo seu.
Quando vi, mal pude acreditar, Matias estava pulando o muro.
— Não faz isso! Alguém pode nos ver.
Eu tremia feito bambu. Ele pegou minha mão e corremos para uma dispensa que havia nos fundos do quintal. Trancamos a porta e naquele dia o mundo foi só nosso.