Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 2 de 30

Páginas do PDF

Flores de Chumbo

Capítulo 1

 

Só colhe memórias quem um dia viveu.

ANO DE 1948

As duas apontaram na esquina da estação da Luz [1]andando apressadamente, cada qual carregando uma mala. Ao ouvirem o apito do trem e avistarem a fumaça, Marta correu na frente e virava-se a todo o momento para incentivar sua avó Glorinha na corrida.

— Corre vó!

— Estou correndo! Não tenho 14 anos.

— Vem! Vem!

A mocinha continuava a incentivar.

Enquanto corria, o vento tirou-lhe o chapéu que foi parar a uns metros. Marta parou, já ia voltar para apanhá-lo.

— Não, Marta! Esqueça o chapéu.

Enfim chegaram a tempo. As duas jogaram-se no assento, esbaforidas. Marta se acomodou na janela ao lado da avó. A menina abriu a bagagem de mão e retirou seu caderno com capa de couro e sua caneta tinteiro, presente do pai.

— Daqui ao Rio de Janeiro teremos muito tempo. Me conta sua história.

Marta abriu o caderno e virou-se atenta para a avó.

— Calma! Mal consigo respirar. Você não cansa de ouvir essa história?

Glorinha perguntou já sabendo a resposta da neta.

— Lógico que não! Quero escrever cada detalhe.

O olhar curioso da menina e seu gosto pela escrita faziam-na recordar a Glorinha de décadas atrás e despertar a menina que ainda vivia em seu corpo de adulta.

— Está bem, vamos lá!