Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 17 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 16

 

Poder, chaga que não cicatriza.

SEU CORPO POR LIBERDADE

Ainda naquele dia, D. Matilde estava na delegacia aguardando para falar com o delegado Dr. Xavier. Enquanto esperava viu dois homens serem trazidos por terem roubado uma saca de feijão em uma fazenda ali perto, alegavam que haviam roubado para que a família

pudesse comer. A fazenda onde fizeram o roubo foi onde nasceram [13]escravos. O escrivão perguntou suas idades, tinham 52 e 55 anos, tinham seus rostos sofridos, as peles marcadas, aparentavam ter bem mais idade. Os dois eram só pele e osso.

O fim da escravidão não ficou impune para os negros, trouxe desemprego, falta de moradia e muita fome. D. Matilde se apiedou dos dois miseráveis. Roubar para comer e ir parar em um local daquele era lastimável. A mulher acrescentou a dor dos dois homens à sua. Foram duas horas de espera. O local fedia a urina e vez ou outra via passar ratos. A umidade e falta de luz favorecia o aumento da população da praga.

— Bom dia, Dr. Xavier!

Enfim o delegado chegou.

— Bom dia, Sr.ª Matilde! Eu já soube do caso do seu filho. A coisa não é nada boa.

O delegado era um senhor bigodudo, gordo, parecia estar sempre mal humorado, ficou assim desde que a mulher o deixou e fugiu com o trapezista de um circo que passou pela cidade.

— Meu menino não fez nada, ele é inocente.

— É o que todos que chegam aqui dizem, na prisão nunca temos culpados, são todos inocentes.

Ele falou com ar de deboche aumentando ainda mais seu ar asqueroso.

— Rapto de menor e roubo, seu filhinho cometeu atos graves.

O delegado falou e deu um risinho debochado.

— Qual a possibilidade de conseguir a soltura dele, delegado?

D. Matilde estava muito aflita.

— Onde anda seu marido? Ou a senhora não tem um?

Falou colocando os pés com suas botas imundas sobre a mesa e olhando-a com cobiça de baixo para cima.

— Não entendi a relevância da pergunta, delegado.

— A senhora precisa me convencer de que eu deva soltar seu filho.

Ele disse essas palavras com a cara mais descarada como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

— Posso ver meu filho?

— Não! Hoje não é dia de visitas, volte no domingo, já que a senhora não pretende colaborar.

Era impossível imaginar um ser mais desprezível que aquele.

— Pense bem! A senhora pode soltar seu filho, não seria tão difícil para uma negrinha.

O delegado passou o dedo entre os seios de D. Matilde e levou à boca. Ele ria com um ar de quem mandava na situação. Ela virou as costas e saiu sem olhar para trás. As lágrimas rolaram, mas a humilhação permaneceu na mente.