Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 6 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 5

 

Homens transformam peles em muros.

OS VIZINHOS

Passaram-se alguns anos. Eu estava sentada no portão em uma manhã de junho, lembro-me da data porque foram dois dias depois do aniversário de mamãe, eu já estava com meus 14 anos. Chegou mudança na casa vizinha que estava desocupada há alguns meses. Pelos móveis parecia uma família mais simples. Havia um homem, um rapazinho mulato que aparentava ter pouco mais que minha idade e uma mulher negra. No dia seguinte fiquei sabendo que era uma família, pai, mãe e filho.

Ela era alta, o vestido à altura do tornozelo parecia de um pano simples, mas lhe caia muito bem, usava um chapéu que praticamente lhe cobria os cabelos curtos, fiquei encantada admirando sua beleza. Ela acenou para mim e deu um sorriso tão aberto que pude ver todos os dentes brancos como leite, ela esbanjava alegria, até então eu pensava que todas as mães tinham que ser sérias.

O homem era um jovem senhor, esguio, de aspecto gentil, bigode fininho, diferente dos homens da época que costumavam usar barba cheia. Sua vestimenta era um tanto exótica, no lugar do chapéu usava uma boina vermelha. Apesar de diferente, era bonito, a sua excentricidade atraía. Mais tarde soube que ele era francês, tinha um sotaque bonito que eu gostava de imitar.

Já o rapazinho eu não gostei muito, assim que me viu mostrou a língua, me fez a careta e virou o rosto.

No dia seguinte a mulher e o menino foram lá em casa para se presentarem e levaram um bolo de cenoura com chocolate como cortesia. Ele parecia ter ido a contragosto, estava de braços cruzados e cara emburrada. Mamãe não queria aproximação, mas os recebeu em nossa sala.

— Boa tarde! Somos a família que veio morar na casa ao lado da de vocês. Resolvi vir para nos apresentar, afinal é importante ter bons vizinhos. Eu me chamo Matilde, esse aqui é meu filho Matias, meu esposo está no trabalho. Cumprimente os vizinhos, meu filho.

Todos nos apresentamos, minha mãe olhava para a pobre como se visse um bicho solto da coleira. Matias parecia um garoto implicante, cumprimentou a minha mãe que ainda mantinha a arrogância de esposa de fazendeiro dono de muitos escravos e a Bá, mas quando chegou minha vez, fingiu que ia apertar minha mão, quando estendi, ele retirou e me deixou com a mão estendida.

— Aceita um café?

Mamãe perguntou secamente examinando-a de alto a baixo.

— Não, não! Obrigada! Só vim mesmo para conhecê-los, estou muito atarefada desencaixotando a mudança, preciso voltar, mas em outra hora será um prazer.

Eles se despediram e eu fui para cozinha comer o bolo e esconder um pedaço para o café da manhã. Mamãe arrancou o bolo da minha mão, jogou tudo no lixo e repreendeu-me:

— Você endoideceu de vez, garota? Essa negra forra tem cara de mexer com aqueles feitiços que trouxeram daquela terra maldita deles. Amanhã de manhã você vai levar essa vasilha. Não quero coisa maldita desse povo dentro da minha casa, está me ouvindo?

Vi escorrer uma lágrima dos olhos de Bá, que virou de costas e enxugou no avental, ela chorava escondido toda vez que minha mãe humilhava seu povo. Na manhã seguinte após o desjejum, mamãe mandou que eu levasse o pote que D. Matilde trouxe com o bolo. Bá colocou um pouco de doce de mamão escondido de mamãe.

Chamei e ninguém atendeu, a porta estava entreaberta, então cheguei à varanda, ainda tinha algumas caixas no chão, uma delas aberta com alguns quadros de aquarela. Peguei um deles e fiquei perdida naquela paisagem magnífica.

— Gostou?

Olhei assustada. Era o chato do Matias em pé na porta.

— Desculpe! A caixa estava aberta, o quadro me chamou atenção e acabei pegando por curiosidade. É lindo! Eu sempre fico encantada com pinturas, aliás, obras de arte em geral. Até pedi a minha mãe pra me colocar em um curso de artes, mas ela disse que isso é bobagem, que preciso aprender coisas mais importantes.

— Essa paisagem é da Islândia, um dia ainda irei visitar.

Olhei e percebi que Matias tinha respingos de tinta nas mãos.

— Você pinta?

— Sim! Desde os meus sete anos, tenho vários quadros. Esse é o meu passatempo preferido, pretendo que seja profissão. Meu pai é que é um verdadeiro artista.

— Eu gosto de escrever.

— O que você escreve?

— Uns versinhos.

— Poetisa?

— Não, não! Não uso técnicas. Acho que estou mais pra encantadora de palavras.

— Quero em teus lábio beber

Os teus amores do céu,

Quero em teu seio morrer

No enlevo do seio teu!

Matias recitou quase como um sussurro. Perdeu aquele jeito de garoto implicante, adquiriu um ar sedutor ao declamar aqueles versos.

— Só vim trazer o pote da sua mãe e um doce de mamão que Bá fez.

Estendi as mãos pra que ele pegasse. Senti meu rosto queimar com aquele poema, mal conseguia levantar os olhos, apesar de ser habituada à leitura naquele momento parecia ser a primeira vez que ouvia aqueles versos.

— Esse poema é de Alvares de Azevedo. Você quer ver mais das minhas pinturas?

Ele mudou de assunto, acho que percebeu meu desconforto.

— Preciso ir.

Continuei com a mão estendida para entregar o pote.

— Não tenha medo, venha comigo.

Ele abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse. Entrei e o acompanhei até um cômodo com várias pinturas pelas paredes, outras ainda por terminar em cavaletes. A arte em todos os aspectos sempre me atraiu, então aquele convite foi impossível rejeitar.

— Esse é meu atelier, espero que goste.

Ele não parecia mais o menino chato dos dois dias anteriores, estava se mostrando muito gentil.

— Adorei! São realmente magníficos.

— Diz pra mim o que vê neles, poetisa.

— Esse aqui, eu sinto paz, parece que posso me banhar nessas águas e viver nessa casinha para o resto da vida. Nesse outro, me sinto impotente por não poder cuidar dessa menininha, o olhar dela parece me pedir colo. Já esse outro faz com que eu sinta raiva dessa sociedade injusta.

— Bravo! Muito bem, poetisa!

Matias aplaudiu e seus olhos brilharam.

— Você também sente isso que falei?

— Não! Eu vejo outras coisas, tenho outros sentimentos quando olho esses quadros.

— Então errei! Você aplaudiu só para que eu me sentisse bem.

— Nunca faria isso! A arte é definida por quem a observa e não pela intenção que teve o artista.

— Acho que é como na poesia. Elas adquirem vida própria na voz do outro.

— Exatamente isso, mocinha.

— Adorei seus quadros! Essas cores, esses traços… Sei que não entendo dessas coisas, mas meu olhar diz que é bom.

— Eu concordo com você e acho que não precisa ser um gênio em determinada coisa ou assunto para saber se é bom. Por ex. eu não entendo nada de cozinha, mas já meti o dedo nesse doce de mamão e achei uma delícia, melhor que todos que provei até hoje.

Nós rimos e concordando. O Matias conversando parecia ser bem mais velho, mais experiente, apesar de ter apenas seus dezesseis anos nessa época.

— Cadê sua mãe? Preciso agradecê-la.

— Minha mãe foi à casa do mascate [6] ver se ele tem um martelo pra vender, perdemos o nosso na mudança. Já deve estar voltando.

Quando soube que estávamos sozinhos, tive receio de que meus pais descobrissem, seria o inferno na terra.

— Preciso ir, obrigada por ter me mostrado seus quadros e pela conversa.

— Espere! Gostei de muito de conversar com você, geralmente as meninas são tão chatas, só falam em casamento, não conseguem conversar sobre outro assunto. Ontem dei careta pra te espantar e não começar com esses assuntos chatos.

Achei interessante a estratégia e até gostei, afinal eu também não gostava das caça-maridos.

— Tá desculpado! Até outro dia.

Acenei e fui saindo.

— Já que tem interesse em pinturas, posso te ensinar o que sei. Fazemos assim, eu te ensino a pintar e você me leva pra dentro de seu mundo das letras, ou melhor, como você disse, a encantar as palavras. O que acha? Pra mim parece uma troca interessante. Como ainda não fiz amigos nessa cidade, estou com tempo livre.

— Acho que é melhor não! Meus pais não iriam gostar. Tenho que aprender bordados, fazer aulas de costura e outras coisas, mas obrigada.

— “Tenho que aprender.” Nunca faz algo porque quer?

— Eu não tenho escolha.

— Você não “tem que” nada. Sempre há uma escolha.

Matias fez o gesto das aspas com os dedos no ar.

— A vida é uma só, Glorinha.

Eu já estava na rua quando o ouvi gritar. Essa frase me impulsionou para o resto da minha vida.