Flores de Chumbo
Capítulo 12
Ensinaram-nos a beber nossos próprios gritos.
NECESSIDADES DE HOMEM
A semana passou arrastada, a quinta-feira demorava a chegar, o tempo parecia que havia desacelerado, eu não me continha de felicidade.
Minha mãe estava agitada com os preparativos para o casamento, ela queria que tudo fosse perfeito. Naquela semana tive que ir várias vezes à costureira fazer prova do vestido, experimentar bolos, doces, escolher flores e tantas outras coisas.
— Você parece animada, eu jurava que estaria chorosa por esses dias, pensei que iria se negar a participar dos preparativos da festa.
— Eu estive pensando, o Augusto é de boa família nunca irá me faltar nada, é um homem bonito, inteligente, provavelmente irá me dar filhos saudáveis. Acho que vocês acertaram na escolha.
— Você já esqueceu o filho da vizinha?
— Ele não tem nada a ver comigo, foi apenas um encantamento, aquela família não tem a nossa classe.
Só em ouvir o som da minha voz ao dizer essas palavras fiquei irritada, mas foi por uma boa causa, eu não podia levantar suspeitas.
Continuamos os preparativos, minha mãe não tirava os olhos de sobre mim, parecia minha sombra.
— Minha filha, eu preciso ter uma conversa com você.
Sentei a seu lado e fiquei esperando. Ela parou de tricotar e ficou com os olhos parados em um enorme relógio, todo trabalhado em madeira que havia sido herdado de seus avós. Ele ficava em pé ornamentando o canto da sala. Seus olhos acompanhavam o pêndulo como se estivesse em uma espécie de transe. Parecia mergulhada no passado ou e dores profundas.
— Diga, mãe!
Depois de um tempo rompi o silêncio palpável que havia ficado no ar.
— Quero te contar como nascem os bebês.
Minha mãe estava corada, não levantava os olhos.
— Sim mãe, pode dizer.
Eu já sabia, mas deixei que ela falasse, não queria ser alvo de perguntas e desconfianças.
— Bem, depois de casada seu marido será seu [10]dono, ele tem necessidades que nós não temos.
Ela parecia sem coragem para falar sobre sexo. Senti pena quando ela disse que os homens têm necessidades que nós mulheres não temos. Como assim não temos? Eu estremecia quando Matias me tocava.
— Hum, estou ouvindo.
— Depois da festa começará o tormento, quando vocês ficarem a sós no quarto ele vai fazer coisas que serão horríveis, doem, mas é assim mesmo, minha filha. Nós mulheres temos nossa sina. Você fica quieta feche os olhos e deixe-o fazer as coisas de homem.
Meu Deus! Senti ainda mais pena da minha mãe, até a maneira como falava era dolorida. E pensar que há tantas mulheres nessa situação ainda parte o meu coração. Queria que fosse hoje para dizer a ela que poderia haver carinho, ter prazer, mas naquele tempo eu não tinha a vivência que tenho hoje. Na verdade minhas palavras não mudariam em nada,
aquilo já era um [11]conceito estabelecido na época e quem era eu pra mudar, ainda acabaria sendo mal interpretada.
— Sim, mamãe! Entendo.
Essas foram minhas únicas palavras.
Na manhã seguinte eu precisava estar na estação, então fui para o quarto mais cedo para terminar de arrumar minhas coisas, não via a hora de estar longe dali.