Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 19 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 18

 

Espinhos são mais verdadeiros que as próprias rosas.

A CORTE

No dia seguinte, no fim da tarde, Augusto chegou para fazer-me a corte, como era costume trouxe rosas brancas para mim e minha mãe. Coloquei as minhas sobre o aparador. Minha mãe reprovou-me com o olhar e colocou-as em um vaso com água.

Essa passou a ser nossa rotina durante o tempo que faltava para o casamento. Ele chegava com as rosas brancas com o passar dos dias ia subindo de cor, brancas, rosas, amarelas até chegar na vermelha à véspera do casamento simbolizando o amor ardente, como se isso fosse possível entre nós. Sentávamos em sofás separados e de vez em quando minha mãe ou meu pai aparecia para manter minha pureza. Eu tinha nojo de olhar para a cara dele, muito menos deixar que me tocasse. Quanto a isso eles podiam ficar despreocupados. As nossas conversas eram sempre monossilábicas de minha parte.

—Tu tens aprendido a ser boa dona de casa com sua mãe?

Augusto me perguntou em uma de suas visitas.

— Não! Eu quero é trabalhar, ser escritora.

Respondi secamente.

—Nunca receberias autorização de minha parte para uma sandice dessas. [16]Sabes que a mulher nasceu para ser mãe e cuidar do lar, não sabes?

— É o que dizem. Já eu não quero ser mãe.

Augusto arregalou os olhos como se estivesse ouvindo a maior das heresias.

— Percebes a loucura do que estás a dizer?

—Loucura é ter um filho que pense que é superior apenas por ter nascido homem ou trazer ao mundo uma mulher para sofrer simplesmente por ter nascido mulher.

Augusto ficou vermelho, levantou-se, fechou os punhos e depois se sentou novamente. Nesse momento tive a sensação de que ele queria me bater, mas então seu semblante serenou e ele até esboçou um sorriso. Aquilo me causou arrepios.

Depois dessa conversa, nos próximos dias voltei às respostas monossilábicas.