Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 27 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 26

 

O primeiro choro carrega a inocência de quem ainda não sabe que o mundo foi separado

por cor.

O NASCIMENTO

Era domingo, acordei bem cedo, antes de todos, eu pretendia tomar meu café na cozinha antes que minha sogra e Augusto se levantassem. Queria evitar discussões. Eu sabia que café da manhã na presença deles era embate na certa.

Antes mesmo de minha xícara chegar na metade senti uma dor insuportável, cheguei a gritar instintivamente. Em pouco tempo estavam os dois na cozinha.

— O que está a acontecer?

Augusto me apoiou para que eu me levantasse, por causa da dor eu havia ficado encolhida de cócoras no canto.

—Senti uma dor forte, mas já passou, não há de ser nada.

Mal havia terminado de falar e novamente a dor voltou. Parecia que estavam arrancando minhas entranhas. Soltei outro grito.

— Será que há algo errado? Meu filho não pode nascer antes do tempo, ainda faltam dois meses.

Augusto dirigiu a pergunta a sua mãe que por sua vez nada respondeu. Pela primeira vez o vi aflito, achei ter visto uma lágrima em seus olhos.

D. Conceição se aproximou de mim, olhando fixamente em meus olhos ergueu a barra do meu vestido e me tocou introduzindo o dedo em minha parte íntima.

— Leve-a para a cama e pegue toalhas. Logo subirei com a água.

Ela pôs a chaleira no fogo e não disse mais palavra alguma.

Augusto tremia com medo de que o filho nascesse morto ou doente por não terem completado as nove luas. Naquele dia vi que dentro daquela carcaça fria havia resquícios de humanidade.

O parto levou pouco mais de uma hora. A mãe de Augusto era dura, quase cruel, gritava mandando que eu empurrasse enquanto ele, aflito segurava minha mão. Por fim, ouvi o choro tão esperado.

— Eu sabia! Essa coisa não é meu neto.

— O que queres dizer?

Augusto se aproximou da mãe para ver a criança em seu colo.

— Isso é filho de negro.

Ela estava transtornada quase aos gritos. Augusto parecia confuso, sem entender o que ela estava dizendo.

— Não mãe! Olha! O bebê é branco.

— Em poucos dias tu irás me dizer se estou certa ou não. A cor escura ao redor das unhas e esse saco roxo mostram que descende desse povinho.

Os dois saíram do quarto. Aquele foi o último dia que vi D. Conceição, naquela mesma semana meus sogros partiram de volta a Portugal.

****

No Rio de Janeiro

— Saia do meu quarto, por favor. Preciso ficar sozinho.

D. Matilde foi para a sala, estava preocupada com o filho, fazia meses que ele não saia do quarto.

—Deixe o menino! Dê um tempo para ele.

O pai de Matias era um homem não só inteligente, era sábio.

—Gonçalo, estou preocupada demais com Matias. Ele não conversa, não sai daquele quarto, nem a barba faz mais.

—É natural, vai demorar a conseguir encarar o rosto no espelho, ele é jovem, isso tem muito peso.

—Eu sei, eu sei!

— Hoje enviei uma carta para o Dr. Charles Miller, aquele cirurgião plástico que te falei.

—Mas é fora do país, não temos dinheiro pra isso.

—Eu faço qualquer coisa por nosso filho.