Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 3 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 2

 

Luto a cada dia para despir-me do luto da morte de mim mesma.

NOIVADO

Era março de 1903, até então o dia estava parecido com todos os outros. Papai, o Sr. Ulisses já havia voltado de sua fazenda de café e trancou-se no escritório de nossa casa em

Ipanema no [2] Rio de Janeiro, o lugar era mato para todo lado, mas tínhamos de ficar ali, ele conseguiu com o prefeito as obras de modernização da cidade. Com seus papéis aos montes, ele andava sempre inquieto e atarefado. De sua boca só saiam meias palavras, geralmente para brigar comigo, reclamar de algum empregado que fazia corpo mole ou das obras que o prefeito lhe dava. Vovô era um Português que veio ganhar a vida no Brasil e prosperou, deixando papai com muitas posses e contatos políticos.

Mamãe, que se chamava D. Eva estava sentada em nossa ampla sala, perdida em seus bordados como se aqueles fios bordassem sua própria vida. Tudo que papai falava para ela era lei, extremamente submissa fazia tudo que ele mandava sem questionar, morria de medo de fazer algo que não o agradasse. Parecia sempre triste, nunca falava do passado. Papai era vinte e três anos mais velho que minha mãe, quando se casaram mal se conheciam, ela era da família dos Almeida, os pais negociaram o casamento.

Na cozinha moendo grãos de café no pilão estava a Bá, era como todos a chamava, mas seu verdadeiro nome era Sebastiana, li seu nome verdadeiro em sua carta de alforria na gaveta da escrivaninha de papai. Ela nasceu na senzala de vovô, cresceu ajudando nos serviços da casa e se tornou a melhor das cozinheiras, fazia quitutes como ninguém. Depois de alforriada continuou em nossa casa por não ter família e nem para aonde ir após

a abolição. Cuidou de mim a vida toda, foi minha ama de leite, [3]era ela quem arrancava meus dentes quando amoleciam e sempre fazia quindim quando papai ralhava comigo. Seu filho nasceu prematuro e morreu vinte dias depois. Ouvi em uma conversa de mamãe que foi depois de uma surra que levou do capataz que queria se deitar com ela. Era uma negra com o colo mais macio do mundo e se vestia sempre com roupas coloridas e turbantes de várias cores. Apesar de seu triste passado tinha sempre um sorriso no rosto e conselhos a me dar, era minha confidente e quem sempre me colocava na cama. Muitas das vezes achei que no coração da Bá eu substituí o seu filho que morreu e sempre me pareceu que mamãe sentia ciúmes da cumplicidade que havia entre nós duas.

Eu estava com uns coleguinhas, filhos de vizinhos brincando na rua em frente ao nosso portão. Aquela tarde tinha cheiro de terra molhada pela chuva que havia caído, o céu começava a limpar. Nessa época eu tinha meus nove anos e ainda usava duas tranças com laços de fita com a cor combinando sempre com o vestido. Como disse, parecia um dia normal, até chegar a nossa rua um tipo de charrete que raramente a gente via. Desceu um moço muito distinto, esbelto, com uma bengala de cabo em ouro velho com um brasão de família entalhado, vestia um terno preto e um chapéu. Ele perguntou onde morava os Feitosa, seu sotaque parecia o papai falando. Eu prontamente disse que era minha família e apontei nossa casa. Ficamos todos muito curiosos tentando ouvir da varanda sobre o que conversavam.

—Glorinha, venha já aqui!

Papai chamou em seu alto tom.

— Senhor!

Entrei na sala e baixei a cabeça respeitosamente como de costume.

— Glorinha minha filha, tu estás noiva, vais casar com o Sr. Noronha.

Aquela era a primeira vez que eu via o Augusto, ele era filho único, herdeiro dos Noronha. Eu só pensava em brincar com bonecas e com meus coleguinhas daquele fim de mundo. Fiquei gelada.

— Não papai, não papai!

Coloquei as duas mãos no rosto e comecei a chorar.

— Glorinha vai casaaar! Glorinha vai casaaar!

Meus coleguinhas cantavam em coro do lado de fora.

Foi tudo acertado, o Augusto voltaria para Portugal e retornaria para se casar comigo aos 18 anos.

— Estamos a fazer o melhor para o seu futuro.

Disse meu pai. Mamãe coitada nem ousava contrariar, me vi só.

Transformaram-me em adulta daquela triste tarde para a noite. Acordei criança, adormeci mulher. Abri os olhos com um mundo de sonhos à frente, os fechei com o peso que me deram a carregar, uma bagagem que deveria ser levada por toda a vida.

A dor não cabia em mim, senti-me uma alma sem pouso.

E agora? Será que haveria jeito de escapar? Eram os pensamentos que martelavam minha cabeça.